30 de jan de 2012

As Esganadas, de Jô Soares

Os assassinatos são a especialidade de Jô Soares, definitivamente. Se não a especialidade, são as tramas envolvendo assassinatos e investigações que movem a escrita do autor. Foi assim em seu romance de estreia, O Xangô de Baker Street, e em seus dois livros posteriores: O Homem Que Matou Getúlio Vargas e Assassinato na Academia Brasileira de Letras. É assim em seu novo e divertido romance: As Esganadas.
Criando tipos divertidos e surreais, que se misturam facilmente a episódios históricos e a personagens conhecidos por todos, Jô Soares abusa da criatividade ao recriar o Rio de Janeiro dos anos 30, com sua efervescência cultural e possibilidades. A trama rocambolesca acompanha a investigação em busca de um serial killer especializado em assassinar gordas com requintes de crueldade ao lhes dar o que mais lhe satisfaz: comida!
O interessante é que, se na maioria das obras do tipo, o assassino só seria conhecido nos capítulos finais do livro, em As Esganadas somos apresentados a Caronte (nome mais que propício) logo no início da história. Mais do que isso, conhecemos seus motivos e acompanhamos, divertidos, sua saga em busca de mulheres gordas e gulosas que lembrem sua mãe, a quem precisa castigar e assassinar diversas vezes através de suas vítimas.
A trupe de “detetives” atrás do assassino é um caso à parte, contando com um ex-investigador português que se mudou para o Brasil depois de um escândalo, além do delegado responsável pelo caso e seu assistente, sem contar uma repórter que se junta à equipe para dar um certo tempero feminino à mistura.
E se muitos reclamam das intervenções de Jô durante suas entrevistas, quando muitas vezes parece querer despejar seu conhecimento enciclopédico a todo custo, aqui ele repete o que já fez em seus livros anteriores: abusa das informações e fatos históricos, tornando-se cansativo em alguns momentos, mas sem que isso irrite profundamente o leitor. Na verdade, quem se predispõe a ler um livro escrito pelo autor, pode esperar por “intervenções” desse tipo.
Menos inspirado que O Xangô de Baker Street, mas mantendo o interesse do leitor desde suas primeiras linhas, As Esganadas  é uma excelente diversão que certamente será devorada sem culpas e sem medo. Abusando do trocadilho, é um livro delicioso e envolvente, mas que pode dar água na boca com suas mil citações à culinária portuguesa.
Não dá para ser mais claro: é um típico livro de Jô Soares. Para o bem e para o mal.
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