30 de jan de 2012

Dupla Falta, de Lionel Shriver

Conheci Lionel Shriver depois de ler Precisamos Falar Sobre o Kevin, trágico relato fictício da formação de um psicopata desde seu nascimento até o dia em que promove uma verdadeira matança em seu colégio, tirando a vida de colegas e professores. O livro é tenso, ácido, daqueles que te deixam incomodado durante a leitura. Mas eu não vou ficar falando dele novamente, uma vez que já escrevi a respeito, tempos atrás.

Apesar de já ter sete livros lançados, Lionel Shriver possui apenas três obras publicados no Brasil. E entre Precisamos Falar Sobre o Kevin e Dupla Falta, de que falarei a seguir, ainda existe O Mundo Pós-Aniversário, cujo exemplar já estou providenciando.

Em Dupla Falta, mais uma vez Lionel Shriver vai fundo na ferida. Carregando nas tintas, a autora nos coloca dentro de um relacionamento, acompanhando todo o processo que envolve conhecer e se apaixonar por uma pessoa até que aquele sentimento seja demolido a cacos por nosso próprio egoísmo. Página a página, Dupla Falta nos deixa com um gosto amargo na boca, provocando uma desilusão crescente que nos faz questionar: “estarei agindo do mesmo jeito estúpido que os protagonistas na minha própria vida?”.

Willy Novinsky é uma tenista brilhante que segue sua carreira rumo ao sucesso. Dentro do fascinante mundo do tênis, vamos vivenciando a postura de Willy para com o esporte, seus anseios e sua vontade de desbravar o mundo de possibilidades que se desenha à sua frente. Até que um dia surge Eric Oberdorf, outro jovem tenista, mas para quem o esporte é apenas mais um aspecto de sua vida, não ela toda. Os dois se apaixonam e se casam. E nós, leitores, passamos a acompanhar uma competição bem mais dolorosa que o tênis: um casamento.

A paixão do início do relacionamento de Willy e Eric vai, pouco a pouco, dando lugar a uma competição desenfreada para ver qual dos dois consegue se dar melhor no mundo do tênis; as vitórias de cada um em quadra deixam de ser festejadas e passam a ser encaradas como demonstrações grosseiras de como o outro é inferior.

Com o avançar da história, Lionel Shriver vai despindo seus personagens, mostrando seu egoísmo e o que cada um tem de pior. No desenrolar da trama, vamos acompanhando uma história que se mostra trágica a partir do momento em que o amor foi substituído pela inveja e o companheirismo pela competição.

Magistral, Dupla Falta é um livro sobre pessoas e seus piores adjetivos. Nele, Shriver não tem vergonha de deixar claro aos leitores os piores sentimentos de seus protagonistas, mostrando em cada página aquilo que muitas vezes nós próprios já sentimos por alguém mas tivemos vergonha suficiente para sufocar dentro de nós.

Com Dupla Falta, Lionel Shriver entrou definitivamente para o meu rol de autores preferidos. E faz isso de forma incisiva e cruel. Porque uma boa história nem sempre tem de ter um final feliz, afinal a vida – a real, cotidiana – quase nunca é um conto de fadas.
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