30 de jan de 2012

Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles

Metáforas sobre o comportamento humano em situações de tensão são comuns no cinema. Dito isso, afirmo que Ensaio Sobre a Cegueira mais que uma metáfora, é uma obra-prima. O filme, dirigido por Fernando Meirelles, é daqueles que aguçam a curiosidade, que ficam em nossa mente, que nos fazem procurar a obra na qual ele é baseado. E, se o livro de José Saramago for realmente melhor que o filme – o que mais de uma pessoa me garantiu -, tenho de corrigir essa falha em minha formação e ler URGENTEMENTE essa obra.
Contando com um elenco onde nenhum ator apresenta um resultado menos que excelente, a trama acompanha a vida numa cidade (ou país) ficticia quando uma epidemia de cegueira toma conta dos cidadãos. Diferente de uma cegueira normal – os infectados a definem como branca e leitosa, como se estivessem nadando num mar de leite -, a do filme surge do nada, acometendo primeiro um  homem enquanto ele dirige. A partir daí, várias pessoas são infectadas e o governo decide colocar todos em quarentena, já que não se conhece uma cura. É nessa espécie de “campo de concentração” que a trama se desenrola, a princípio.
O fio condutor da história é um médico e, mais precisamente, sua mulher. Vivida por Julianne Moore, a personagem é a única que não é atingida pela doença, mas que finge-se de cega para acompanhar o marido, quando esse é enviado à quarentena. Sendo a única pessoa a enxergar no meio do caos, é através de seus olhos que acompanhamos a degradação humana quando as leis até então vigentes deixam de valer e o mundo se transforma num verdadeiro caos.
Os personagens de Ensaio Sobra a Cegueira não possuem nome. Assim, temos o médico, a mulher do médico, a prostituta, o Rei da Ala 3, o homem do tapa olho. Apesar dessa falta de humanidade que não ter um nome traz, é impossível não se colocar no lugar daquelas pessoas e de seus dramas. Fernando Meirelles extrai o máximo que pode de seu elenco e não há quem brilhe menos, não importando o tempo de tela. Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Gael García Bernal e Denny Glover, apenas para citar alguns, criaram personagens tão críveis que é quase impossível não se importar com eles e torcer contra ou a favor.
Acompanhar a degradação de uma sociedade pouco a pouco é uma experiência e tanto. Assim, apesar de a situação ser precária quando os primeiros cegos chegam à quarentena, é perturbador ver a sujeira se acumulando e e os valores sendo deixados de lado. A ascensão e queda do personagem de Gael García Bernal, o Rei da Ala 3, é um exemplo disso. Como não linkar o personagem à pessoas reais que tiveram o poder nas mãos e abusaram de tudo e todos com isso? A cena do estupro coletivo é repulsiva e nos leva a pensar em quantas situações semelhantes e reais já aconteceram, seja na época da escravidão ou na ascensão nazista. Mais do que isso, é impossível não sentir uma pontada de medo do que o futuro pode nos reservar já que, apesar de parecermos mais evoluídos, temos provas todos os dias de que o homem é um ser vil e que pode ser cruel e infame em determinadas situações. O que Saramago escreveu e Fernando Meirelles filmou é apenas um vislumbre de algo que poderia acontecer novamente na situação mais propícia.
Utilizando uma câmera em movimento, já marca do diretor, e uma fotografia excessivamente clara – o que nos ajuda a ter um pouco da sensação da cegueira branca -, Ensaio Sobre a Cegueira vai crescendo em sua história com o passar dos minutos, provocando reações diversas no espectador que o assiste.
Dessa forma, apesar de seu final um tanto quanto esperançoso, é impossível assistir ao filme impunemente, desligar o DVD e voltar a seus afazeres cotidianos. De tudo visto e assimilado, pelo menos para mim, ficou a pergunta: o que eu mesmo enxergo? Mais do que isso, como e o quê eu efetivamente tenho enxergado?
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