30 de jan de 2012

O Homem do Futuro, de Cláudio Torres

Se você tivesse a possibilidade de voltar no tempo e modificar um momento de sua vida, aquele que mais lhe marcou e foi o responsável por toda uma série de mágoas, você voltaria? É essa a premissa de O Homem do Futuro, novo filme de Cláudio Torres, estrelado por Wagner Moura e Alinne Moraes.

Filho de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, além de irmão de Fernanda Torres, o diretor fez sua estreia na tela grande em 2004, com o longa Redentor, arrancando elogios da crítica por sua obra estilizada e ao mesmo tempo irreverente. E foi durante a produção de seu segundo longa, A Mulher Invisível, de 2009, que o diretor teve uma ideia e acabou idealizando O Homem do Futuro: durante um ensaio, Cláudio pediu a Selton Mello, protagonista daquele filme, que improvisasse ensaiando com ele próprio. A partir daí o diretor percebeu potencial para uma boa história, que acabou originando o filme atualmente em cartaz.

Contando uma história simples e naturalmente atraente (como comprovado pelo sucesso de longas como os da série De Volta Para o Futuro), a história de O Homem do Futuro acompanha o cientista João “Zero”, que mesmo depois de 20 anos não superou uma humilhação que viveu nos tempos em que se graduava em Física na universidade. Devido aos acontecimentos de uma fatídica noite, quando João tranformou-se em Zero, num episódio aparentemente orquestrado por sua paixão Helena e pelo playboy Ricardo, o físico tornou-se um homem amargurado e arrogante, apesar de brilhante. Assim, com a possibilidade de perder o emprego na universidade que um dia estudou, Zero decide testar ele mesmo o acelerador de partículas que construiu como nova fonte de geração de energia e acaba voltando no tempo, exatamente na noite de 22 de novembro de 1991, quando sua vida mudou.

Brincando com a lógica de que alterar o passado significa mexer no futuro, o filme é genial em sua proposta e prende o espectador desde os primeiros minutos, gerando uma grande curiosidade sobre o que realmente aconteceu naquela festa à fantasia que transformou o tímido João no amargurado Zero. Assim, apesar de conhecermos os fatos, não estamos por dentro de todos os detalhes de como eles aconteceram. E quando Zero resolve modificar aquela noite, contando para o seu “eu” do passado os detalhes do seu futuro o estrago estava feito, o que o faz acordar numa nova realidade que pode não ser a que o outrora Zero um dia desejou.

Com um elenco afinado, O Homem do Futuro convence aos mostrar atores como Alinne Moraes, Wagner Moura, Fernando Ceylão, Maria Luisa Mendonça e Grabriel Braga Nunes tanto como adolescentes quanto como adultos. A maquiagem e as caracterizações foram bem utilizadas e os efeitos especiais não deixam em nada a desejar às produções hollywoodianas a que estamos habituados.

No papel de Helena, Alinne Moraes está deslumbrante e mesmo tendo sido escolhida para o papel depois que Ana Paula Arósio saiu do projeto, defende a personagem com unhas e dentes e se, a princípio, somos levados a desconfiar da personagem, ela nos conquista pouco a pouco durante a projeção. Fernando Ceylão como o melhor amigo de Zero, Otávio, também faz misérias com seu personagem pra lá de divertido. Sem contar Maria Luisa Mendonça (divertidíssima!) e Gabriel Braga Nunes, que completam o grupo principal de atores que parecem realmente se divertir em cena.

Já Wagner Moura merece um parágrafo à parte. O ator é uma unanimidade e mostra mais uma vez porque conquistou esse título. Depois de personagens tão emblemáticos no cinema e na televisão – como o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite; ou o Olavo, de Paraíso Tropical -, o ator constrói os seus ‘Joãos’ como personagens cheios de nuances e que se modificam coerentemente no decorrer do filme. Se o João adolescente é tímido e gago e o Zero do futuro é amargurado e cheio de rancor, o João que vai e volta ao passando, retornando para lá novamente, demonstra um crescimento pessoal muito grande sem soar clichê em nenhum momento. E Wagner Moura dá um show interpretanto qualquer uma das três facetas do mesmo personagem.

Com uma trilha sonora que abusa de sucessos da década de noventa e possui nomes como INXS, Radiohead e R.E.M, o ponto alto da história é realmente o momento em que os jovens João e Helena cantam juntos Tempo Perdido, do Legião Urbana no palco da festa à fantasia. Digo mais, é impossível não cantar junto a música durante o filme e depois sair com ela na cabeça, cantarolando a todo momento. Alinne Moraes e Wagner Moura tiveram a tarefa de botar a própria voz num clássico e mandaram muito bem, mesmo não sendo cantores.

Mais do que um bom filme, O Homem do Futuro é um exemplar nacional do cinemão pipoca’, mostrando que uma história descompromissada pode ser contada de forma divertida, sem descambar para a porcaria. O filme é cheio de referências à clássicos do gênero como O Exterminador do Futuro e De Volta Para o Futuro e consegue nos transportar junto com Zero para uma época que já passou, mas que pode deixar os mais velhos saudosos e os mais jovens curiosos. É um filme que agradará aos adolescentes e os adultos, além de trazer de volta para nossas playlists músicas ótimas e que ficarão em nossas cabeças por algum tempo.

Sem medo de errar: você vai gostar, assista!


PS: Para os cariocas, um plus: a diversão fica por conta do uso de cenários reais e bem conhecidos – como a UFRJ, por exemplo – levados para a realidade e os cenários do filme. Muito divertido ver o prédio do Fundão tranformado na universidade da história, além de acompanhar os personagens para lá e para cá por lugares que só quem conhece bem a cidade vai reconhecer.
-->

0 comentários:

Share