30 de jan de 2012

Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver

De onde vem o mal? É possível que uma criança, desde bebê, já apresente traços que apontem que ele possa ser um psicopata? É disso que trata Precisamos Falar Sobre o Kevin, da autora americana Lionel Shriver. Dois anos depois que seu filho de 16 anos – o Kevin do título – faz um verdadeiro massacre na escola onde estuda, matando alguns colegas, Eva Khatchadourian revisita a vida do filho, desde o período pré-gravidez, enquanto envia cartas para seu marido, onde busca entender o motivo do acontecimento.

Eva e Franklin formavam um casal típico americano. Com dinheiro e ambições, viviam sua vida a dois até que, a contragosto, Eva engravida de Kevin. Sem o famoso instinto materno, Eva esperava que ao ver o filho em seus braços isso despertasse, o que não acontece. Mais que isso, desde bebê, Kevin mostrava-se um ser detentor da arte da simulação, sem sentimentos, que não entendia seu lugar no mundo. Seu lema, segundo sua mãe, sempre foi o de dividir para conquistar.

Durante a narrativa, Shriver vai costurando todos os fatos até chegar na fatídica quinta-feira, quando seu filho decide armar um “show” na quadra de esportes de sua escola. Em detalhes vívidos, Eva narra toda a história, mesclando a vida de Kevin com outros de sua própria personalidade, discussões políticas e medos. O livro levanta ainda uma questão tabu: pode uma mãe não amar seu próprio filho?

Partindo do pressuposto que os massacres em escolas são um tendência americana, a autora tenta buscar respostas. Retratado como um psicopata desde a tenra infância, Kevin é um personagem fascinante que, ao mesmo tempo que nos enoja, nos atrai e instiga nossa curiosidade. Para qualquer pessoa, a família de Kevin seria vista como aquelas de um comercial de margarina. Para Eva, tudo nunca passou de fachada.

Enquanto Eva desde sempre notava a verdadeira personalidade do filho, Franklin, seu marido, era um verdadeiro idiota. Com discursos tolos e tomando a atitude de paizão, seu filho nunca era culpado de nada. A superproteção parental vem à tona, causando o final trágico que conhecemos desde o início do livro, mas que tem seu desfecho, repleto de detalhes, no final da história.

Lionel Shriver, em seu sétimo romance, nos presenteia com uma história perturbadoramente viciante. O livro, assim que lançado, foi agraciado com o prêmio de melhor romande do ano, em 2005, pelo Orange, premiação inglesa que impulsionou o livro para se tornar um best seller internacional.

O bom de Precisamos Falar Sobre o Kevin é acompanhar a narrativa sem conhecer detalhes profundos da trama. Apesar de sabermos de antemão como aquilo tudo terminará, a autora nos reserva alguns surpresas impressionantes em seus capítulos finais, quando Eva detalha o dia do massacre.

Precisamos Falar Sobre o Kevin é uma história por si só cinematográfica. Por isso, não é de se admirar que um filme baseado no livro já esteja pronto. Com o mesmo nome da obra literária, o longa da diretora Lynne Ramsay, com Tilda Swinton (Eva), John C. Reilly (Franklin) e o novato Ezra Miller (Kevin), teve sua primeira exibição na mostra competitiva do Festival de Cannes 2011. Entretanto, se não for fã de spoilers, mantenha-se longe das críticas do filme: elas podem estragar a surpresa que o livro proporciona, já que entregam detalhes somente apresentados no fim da obra literária.

Mergulhar na vida de Kevin é uma experiência interessante que lhe falará sobre assuntos espinhosos e familiares. Precisamos Falar Sobre o Kevin deveria ser literatura obrigatória e já entra para minha lista dos melhores livros que já li na vida.
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