7 de ago de 2012

A Arma Escarlate, de Renata Ventura




Comecei a leitura de A Arma Escarlate, romance de estreia de Renata Ventura, de peito aberto. Gostei da ousadia de trazer para o Brasil o mundo de bruxos criado por J.K. Rowling e imortalizado na série Harry Potter. Mais do que isso, me diverti nas primeiras páginas, quando ela subvertia feitiços e nomes conhecidos pelos leitores da obra original, quando citava-sem-citar personagens conhecidos por todos os leitores, quando nos levou para as entranhas do Corcovado para conhecer uma das escolas de bruxaria sediadas no Brasil. Mas, não sei precisar em qual momento, tudo desandou. E o que prometia ser um prazer de leitura, se transformou em algo arrastado e bobo, que culminou com o meu desejo sincero de que essa bobagem tenha chegado ao fim nesse primeiro (e que Dumbledore diga amém!) e único volume de uma possível série sobre o mundo de magia brasileiro. 

Pra começar, é impossível não comparar A Arma Escarlate com as criações de J.K. Rowling. Logo na Nota do Autor, no início do livro, Renata explica o motivo de sentir-se autorizada pela própria autora inglesa e criar sua “obra”. Pobre J. K. Rowling. Pobres de nós. 

Imagine o mundo bruxo criado por J. K. Rowling em Harry Potter. Imagine as criaturas mágicas, as escolas européias – Hogwarts, o lugar que aprendemos a amar, principalmente -, o aprendizado dos jovens bruxos. Renata Ventura pega tudo isso que era fascinante e traz esse universo para o Brasil. Imaginaram uma coisa muito legal? É isso, só que ao contrário. 

Para Renata Ventura, o Brasil possui cinco escolas de magia. Em nosso país, os trouxas são chamados de azêmolas (e, a partir do meio do livro, ganham outra denominação: mequetrefes), os feitiços em latim não funcionam, e a Korkovado (a escola de magia retratada no livro) é um pandemônio, feito uma escola pública piorada. Esqueça as quatro casas de Hogwarts (Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa e Corvinal); no Brasil, a disputa dentro da Korkovado acontece entre dois grupos de alunos, os Pixies (uma espécie de Restart piorados – sim, é possível!) e os Anjos. Quadribol? Ah, isso é para os fracos. Os jovens bruxos no Brasil preferem surfar no mar em cima de vassouras ou praticar o Jogo das Luzes, uma espécie de capoeira. Além disso, cultura européia é rechaçada, e o amor às nossas raízes é o tempo todo pregado pelos personagens do livro. Parece chato pra você? Então, é pior! 

Mas então, se você gostou pelo menos do início do livro, é melhor avançar, não é mesmo? Vai que os personagens podem salvar esse samba-do-bruxo-doido criado para a história. Mas é aí que tudo desanda de vez, porque os personagens, aqueles por quem deveríamos torcer e vibrar, conseguem ser o que o livro tem de pior, a começar pelo protagonista. 

Hugo Escarlate, nascido Idá Aláàfin (sim, eu juro!), é um dos personagens MAIS CHATOS que já vi na minha vida. Sério, em vários momentos eu só pedia que alguém metesse um tiro de fuzil na cabeça do desgraçado, porque isso seria um bem pra humanidade. Hugo é insuportável, daquele tipo de pessoa que não deve ter NENHUM amigo, egoísta ao extremo e que tem seus piores atos perdoados pela autora. Parece convidativo pra você acompanhar um personagem desses? Então, é ele o fio condutor de A Arma Escarlate. Nascido no Morro Dona Marta, o pivete sempre teve um pezinho no crime e, ao se descobrir bruxo, mente para tudo e todos à sua volta e, se já não bastasse, do meio do livro pra lá (que parece não ter uma história em si pra contar) passa a vender cocaína para arrecadar dinheiro e manter sua mãe trouxa, ops, azêmola, quer dizer, mequetrefe, a salvo na favela. Ah, esqueci de dizer: ele se apaixona (tem 13 anos o pivete) na Korkovado, claro. Por alguém improvável, que promete muito e acaba sendo só bobo, como toda a história. Quer dizer… 

Ah, mas você está sendo muito crítico com o livro e os personagens, deve ter pelo menos um interessante!, você pode estar pensando. Não, não tem! Entre os insuportáveis pixies, nenhum se salva, mas o tal do Capí é o pior. Sabe aquele tipo de personagem politicamente correto, mais chato que mocinha chorona de novela? É o tal do Capí. Se a autora queria criar um personagem em quem as pessoas se inspirassem e com quem fôssemos empáticos, conseguiu o contrário. Cada vez que o mala aparecia, eu tinha vontade de pular as páginas e não ler a boboseira que viria a seguir. Em diversos momentos eu só pensava que poderia acontecer um incêndio, um terremoto, um tsunami, sei lá, uma invasão de bruxos ingleses, e que todos aqueles personagens morressem para que a autora pudesse ter a chance de começar a história de novo, dessa vez fazendo algo direito. Mas claro, eu não iria ler essa nova tentativa. 

Como disse, o começo da história é até que minimamente interessante. Você acaba interessado em saber o que está por vir, mesmo que tenha de acompanhar aquele menino por mais algumas páginas (convenhamos que até o Harry conseguia ser bem chatinho, às vezes). Mas então você vai lendo e lendo e a leitura vai se tornando insuportável, medíocre, boba e você só tem vontade de raspar a própria língua com Gillette a continuar lendo aquilo. 

Dessa forma, sou obrigado a desejar do fundo do meu coração que J. K. Rowling (nem você, caro leitor, se tiver bom senso) nunca leia essa bobagem criada por Renata Ventura. Porque, sim, acho sinceramente que Renata pensou um dia em ter sucesso e ser lida e, quem sabe, reverenciada, pela autora inglesa. Afinal, ela puxa o saco dedica o livro com uma singela frase: 

a J. K. Rowling, bruxinha boa que nos deu um mundo novo. 

Sou obrigado a concordar. O mundo de J. K. Rowling era novo e vibrante. O que Renata tentou fazer foi atentar contra uma obra perfeita, que não precisa de cópias baratas e medíocres. A Arma Escarlate é quase um Dementador da originalidade.

Por Leandro Faria
Texto originalmente publicado em 12/12/2011


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1 comentários:

Fagner Pin... disse...

Ok Leandro, acho que se você queria um novo Harry Potter, foi ao local errado...
Nossa cultura não tem nada a ver com a européia, mesmo que até pouco tempo atrás queríamos imita-los.
O que a Renata fez foi mostrar nossa cultura. Ela encaixou o folclore brasileiro de uma forma bem legal.
O Hugo é todo errado e temos vontade de matá-lo? Sim. Mas na minha opinião isso só mostra o quanto a escritora foi corajosa ao por um protagonista assim. E mais, isso nos dará a possibilidade de ver o crescimento e a evolução dele, pois creio que depois de ler uns belos tombos e se machucar bastante ele vai acabar aprendendo.
Pixies uma versão do Restart??? Tive que rir nessa hora. Eu gosto dos pixies e acho eles parecidos com os caras-pintadas lá do início dos anos 1990. Gostei do lance do surfe na vassoura, do zênite, e do clube das luzes.
Só acho uma pena você não ter gostado do que leu. Eu consegui imaginar o mundo mágico que ela criou. E acho que muitos outros gostaram e gostarão, assim como alguns, como você, não pegaram o ritmo da coisa e não vão gostar.
O livro mostra essa coisa do ser humano ser falho. Todos temos defeitos. O Hugo quer ser o que não é e fala o que não deve nas horas em que não deveria. O Capi é bonzinho demais. Enfim, os personagens são humanos. Nossas escolas são um caos. E a Renata só mostrou essa realidade como uma forma de crítica ;)
E quem tava com vontade de ler, não perca as esperanças, o livro é legal.

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