22 de jan de 2013

Django Livre, de Quentin Tarantino



Assistir a um filme de Quentin Tarantino é uma experiência única. Digo isso porque vamos ao cinema sabendo que conferiremos exageros sem fim e, mesmo assim, saímos da exibição extasiados pelo que o diretor apronta, filme a filme, nos fazendo sempre querer um pouco mais de suas histórias mirabolantes. Django Livre (Django Unchained, no original) , novo trabalho do diretor, não é diferente disso e é, certamente, um dos melhores filmes do ano, fazendo justiça às várias indicações a prêmios (inclusive ao Oscar) que vem recebendo.

Centrado na época da escravidão americana, o filme acompanha o escravo Django, que liberto pelo caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz, junta-se ao seu libertador na busca por criminosos procurados (vivos ou mortos) pelo governo americano. Enquanto juntam dinheiro em suas caçadas, elaboram um plano para encontrar e libertar Broomhilda, mulher de Django, vendida depois de uma fuga e de paradeiro desconhecido. Django Livre trata-se assim de um filme sobre a busca de um homem pelo amor de sua vida. Claro que com todos os toques que somente Tarantino poderia imprimir à sua obra.

Contando com um elenco afiado, liderado por Jamie Foxx (Django) e por Christoph Waltz (Dr. King Schultz), é impossível apontar alguém que não esteja bem no filme. Que o digam Leonardo DiCaprio (Calvin Candie) e Samuel L. Jackson (Stephen) que brilham em cena, em interpretações memoráveis e, desde já, inesquecíveis. O personagem de Samuel L. Jackson então, vivendo um negro servil que odeia outros negros é brilhante e interpretado com maestria. E Kerry Washington e sua Broomhilda também emociona como a mulher do protagonista. Como de praxe, há também uma participação pra lá de especial do próprio diretor em um dos momentos antológicos do filme.


Já a direção de Tarantino é, como sempre, primorosa. Contando com uma trilha sonora excepcional, que vai de clássicos do gênero western a batidas modernas de hip hop, cada música casa perfeitamente com a obra do diretor. A fotografia remete, claro, aos filmes de faroeste reverenciados por Tarantino, com planos sequência magníficos, trabalhados com carinho na direção de arte do filme. 

Além disso, o filme é, como sempre na obra de Tarantido, repleto de referências. Declaração explícita de amor aos filmes wester spaghetti italianos, o nome da obra já é, em si, uma homenagem: Django é o nome de um herói recorrente nos filmes do gênero que marcaram época na Itália e no mundo e o filme conta, inclusive, com uma pequena participação do ator Franco Nero, o Django original. Músicas resgatadas de outras obras e compostas por Ennio Morricone, especialista no gênero, também dão a tônica das homenagens de Tarantino nesse filme.

Excessivamente violento (e isso não é ruim) e calcado no exagero, o filme diverte e arranca diversas gargalhadas. Do sangue que, literalmente, jorra para todos os lados, à mulher que, atingida por uma bala, é arremessada para um lado fisicamente impossível, não dá pra assistir a Django Livre sem cair na gargalhada em diversos momentos, apesar do assunto espinhoso apresentado por Tarantino. Acredito, inclusive, que a graça da obra de Tarantino é essa. Apresentar situações complexas e polêmicas, inserindo humor e exagero para que os assuntos se tornem um pouco mais palatáveis, graças à roupagem pop-Tarantino utilizada.


Com 165 minutos de duração, o filme é tão envolvente que você quase nem percebe o tempo passar. Envolvidos pela busca (e vingança, outro tema recorrente na obra de Tarantino) de Django, mergulhamos no universo sul americano escravocrata retratado em Django Livre e torcemos por nosso protagonista e seu fiel amigo Dr. Schultz. São tantas as reviravoltas (e banhos de sangue surreais) que ficamos presos nessa história e aproveitamos cada minuto apresentado por ela.

Ao final da projeção, depois dos eventos extremamente violentos apresentados, nos damos conta de que, apesar dos exageros de sempre de Tarantino, o ser humano é capaz de atos bizarros quando se acha superior. E sair do cinema refletindo sobre o que foi visto na telona é um grande feito para qualquer diretor. 

Quentin Tarantino consegue isso quase sempre, e faz isso de maneira impecável em Django Livre. Mais uma vez!

Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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2 comentários:

Fernando Santos disse...

Poucos cineastas teriam a coragem de misturar num mesmo filme diálogos de humor negro, a tradição dos western spaghetti, a cara de sádico do austríaco Christoph Waltz e a violência da escravidão. Tudo numa história passada na virada do século XVIII para o XIX, no Sul dos Estados Unidos, tempo e lugar em que humor, western spaghetti e Christoph Waltz seriam inaceitáveis, justamente por não se encaixarem no rastro de dor deixado pela escravidão. Só que, naquela época, ainda não havia o cinema, muito menos um de seus mais celebrados diretores, Quentin Tarantino.

Quando eu crescer eu quero ser o Quentin Tarantino :P

Wagner Pacheco disse...

Não há palavras para expressar ou descrever como AMO os filmes do Tarantino!

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