28 de fev de 2013

Amor, de Michael Haneke







Amor (Amour, no original), o vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme Estrangeiro, já estava na minha lista de filmes a serem conferidos tem tempos. Mas, por motivos diversos, fui deixando para depois até que chegou a noite do Oscar e eu ainda não o tinha conferido. Com a premiação do filme e a aclamada indicação de Emmanuelle Riva a Melhor Atriz (mesmo "perdendo" para Jennifer Lawrence), deixei de lado o atraso e fui conferir a obra do diretor Michael Haneke. Sabe aquele arrependimento de não ter visto algo muito bom antes? Pois é, estou com esse sentimento engasgado por causa disso. Ainda bem que, nesse caso, o "antes tarde do que nunca" é mais do que válido.

O roteiro é simples e, por isso mesmo, impactante: um casal de idosos aposentados, Georges e Anne, vivem em Paris em seu amplo apartamento, aproveitando seu tempo para se dedicarem aos pequenos afazeres do dia a dia e a aproveitar as artes, já que ambos são muito ligados a elas. A vida do casal, entretanto, sofre um revés quando Anne tem um derrame e fica com um dos lados do corpo paralisado. É o cotidiano dessa realidade que acompanhamos durante toda a projeção de Amor.

Praticamente passado todo dentro de um único cenário, o apartamento de Georges e Anne, o filme nos leva para acompanhar a rotina desse casal e a nos envolvermos com ele. E se o título Amor pode evocar a uma história singela e frugal, o que vemos aqui é o verdadeiro significado dessa palavra, que é tantas e tantas vezes subvalorizada pela maioria das pessoas.

O filme é duro. Duro no sentido de que a vida não é fácil e de nos tornar empáticos por aquele casal, nos colocando em sua situação, seja pensando em nós mesmos ou em nossos pais, que podem também já não ser tão jovens. Ver uma pessoa sadia se degenerar pouco a pouco, perdendo o controle até mesmo dos mais simples movimentos, necessitando da ajuda de terceiros para tarefas que normalmente consideramos automáticas, pode ser um verdadeiro tormento, principalmente para alguém que sempre foi ativo e dinâmico.

E se Emmanuelle Riva brilha como Anne que, pouco a pouco em sua doença vai se debilitando, o ator Jean-Louis Trintignant não fica para trás com seu Georges. O personagem, que acompanha a doença da mulher e, apesar de fazer tudo por ela, não consegue esconder seu desconforto com a situação, está brilhante em cena. Sua devoção à esposa, mas também seus arroubos de impaciência, são de um preciosismo incrível e conquistam o espectador irremediavelmente.

Utilizando-se de longas tomadas e focando o ambiente do apartamento muitas vezes à distância, para mostrar a solidão daqueles personagens, o diretor Michael Haneke faz um filme contudente, capaz de sensibilizar a todos que o assistem. Fugindo do sentimentalismo barato que assola Hollywood, o diretor austríaco fez um filme verossímil e belo, apesar de seu tema pesado.


Amor é, no fim das contas, uma obra de arte plena, recheada de poesia e dor. O final, que já conhecemos desde a primeira cena do longa, é orquestrado de tal forma que entendemos bem as motivações dos personagens e porque o amor, aquele que a maioria dos casais juram ao outro no momento de seu casamento "na saúde e na doença" é a verdadeira tônica das ações de Georges, o que dispensa qualquer julgamento moral do público.

Lindo e tocante, Amor é um soco no estômago da plateia que o assiste. Mas trata-se de um soco necessário, principalmente em épocas em que ele, o tal amor, é tão vulgarizado e distorcido. Amor, de Michael Haneke, acaba sendo obrigatório para quem aprecia o bom cinema e também para aqueles que sabem que uma boa lição de vida é muitas vezes necessária!
Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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1 comentários:

vitor vasiunas disse...

Filme muito bom, assisti e palmas para atuação do casal, conseguiram fazer um ótimo trabalho mesmo com cenas longas e sem cortes. o final podia ter sido melhor apresentado pelo diretor, principalmente ter tirado a última cena, mas com exceção disso bom o filme (melhor que argo, que ganhou o oscar)

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