4 de fev de 2013

Os Miseráveis, de Tom Hooper




Está em exibição no Brasil há alguns dias um dos filmes com mais indicações ao Oscar 2013: Os Miseráveis (Les Misérables), de Tom Hooper. O filme chega acompanhado de controvérsias, então vou começar com algumas informações básicas, importantes e necessárias para o público em geral: 
  • O filme é mais uma adaptação do clássico literário de Victor Hugo (lançado em 1862), cuja edição atual tem módicas 1280 páginas; 
  • O filme é longo - 2 horas e 37 minutos de duração; 
  • É um musical na íntegra - as músicas não são "encaixadas" dentro da história, os atores não cantam entre uma fala e outra, o filme é todo cantado como se fosse um musical num teatro; 
  • O título do filme é "Os Miseráveis". Convenhamos, o que você espera de um filme com este título? Que seja uma comédia? 
Pronto, agora eu posso começar a falar sobre o filme. Porque, pelo que eu tenho lido, as pessoas estão indo ao cinema sem a menor ideia do que vão assistir. E Os Miseráveis não é um filme pra ser visto assim, ao acaso. A não ser que você seja uma pessoa de mente aberta. Eu, geração X, fui ver o filme sabendo do que se tratava. Até mesmo ansiosa pela experiência de ver o que tinham conseguido fazer nessa transposição da versão musical para o cinema. Fui, animada pela curiosidade, mas munida da paciência que tem que ter quem pretende assistir qualquer filme que dure quase três horas.


Não me arrependi. Mas não sei se o público da geração Y, ou da geração Y 2.0, como estão sendo chamados os adolescentes de hoje, vão compartilhar da minha opinião. Não sei se a geração da velocidade é capaz de admirar uma narrativa tão distante da sua época, do seu cotidiano. A possibilidade de considerarem a história pouco crível e muito arrastada é grande. Os Miseráveis (o livro), como eu disse, foi lançado em 1862. É uma história de outros tempos, é uma história de outra sociedade. Uma sociedade mais oprimida, mais carente, mais moralista. Os Miseráveis é, em essência, uma história sobre caráter, com um viés religioso comum para aquela época. O épico francês é, sobretudo, uma narrativa sobre a culpa e seus caminhos tortuosos. Todos os principais personagens são atormentados por alguma culpa pungente. 

É uma história que, mesmo como filme dramático convencional, não é de fácil digestão. Como musical, no teatro, teve grande êxito. Mas a dinâmica dos musicais de teatro é diferente da do cinema, é um tipo de espetáculo diferente, que já se vende menos realista. Acredito que muito da estranheza do público do filme seja em função do grau de realismo que se vê no cinema recente. Mesmo as narrativas fantásticas são produzidas de maneira a parecerem críveis, possíveis. E a música em tempo integral d'Os Miseráveis fragiliza esse vínculo com a realidade, porque a gente pode até achar verossímil magos e vampiros, mas não passa pelos nossos critérios toda uma população cantando 24 horas por dia. 

Porém, se você for capaz de se desligar por algumas horas da sua visão contemporânea, e prestar atenção ao que está vendo e ouvindo, a história pode te tocar. Você pode se comover com as injustiças, perseguições e abandonos, entoados em canções como I Dreamed a Dream e On My Own. Se for uma pessoa capaz de abrir sua percepção, vai ver os méritos dos atores nessa empreitada. Vai observar não apenas as vozes, mas as interpretações, a harmonia entre a voz e o olhar, entre a voz e os gestos. Hugh Jackman, Anne Hathaway, Samantha Barks e Daniel Huttlestone brilham. E faço um desagravo a Russel Crowe. Ele fez seu Javert dentro do que o roteiro delineou. Pode não estar tão bem quanto em outras produções, mas sua interpretação não merece os insultos que vem recebendo. O mesmo pode-se dizer Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen. 


No mais, não acho que o uso de closes foi equivocado. Acho que coube perfeitamente na proposta do musical, de destacar os atores em seus solos. Não comprometeu o filme, as câmeras abriam quando a cena pedia. Me parece que muitos críticos andam preciosistas demais, querendo restringir o cinema a uma fórmula hermética. "Tem muitos closes, não é cinema"; "tem muita música, não é cinema". Em momento algum, enquanto assistia ao filme, eu pensei que não fosse cinema. Me parece uma questão das pessoas saírem um pouco da caixinha. Tentar não faz mal a ninguém. 

Lá em cima eu alertei pra o que julguei indispensável. Os Miseráveis não é um filme pra se ver aleatoriamente. Você precisa estar preparado. Então, não arraste o seu namorado ou sua namorada, seu amigo ou sua amiga, seu irmão ou sua irmã, como pra um encontro às escuras. Eles merecem saber o que estão indo ver. E o filme merece olhos e ouvidos mais abertos e generosos para o que quer mostrar.
Por Lya Quadros
Leandro Faria  
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6 comentários:

Mike disse...

na boa? Essa foi a melhor crítica do filme que li até agora. Sim, as pessoas vão assistir Os Miseráveis achando que vão se divertir e ver dancinhas a todo momento. Um senhor do meu lado começou a se contorcer desde o momento que o Hugh Jackman começou a cantar e não parou mais até o final, eu cheguei a falar pra ele sossegar ou levaria um chute. Os críticos estão puritanos demais mesmo. O filme foca no que tem que focar. O close tá lá porque o principal são os personagens e os sentimentos deles mesmo. O filme é redondinho, não tem muita coisa pra mudar. E as pessoas tem que parar de ser tão chatas com qualquer coisa que é diferente do que esperavam.

Leandro Faria disse...

Eu tenho um sério problema com musicais, simplesmente porque não gosto do formato no cinema. São poucos os filmes que me prenderam de alguma forma apresentados assim (Moulin Rouge, um deles).
Pensei em assistir Os Miseráveis por um único motivo: Anne Hathaway. Mas, sinceramente, desanimei.
Não sou geração Y, mas tenho fugido de qualquer produção com quase 3h de duração, ainda mais totalmente cantado.

Sobre seu texto, que lindo, viu! Adoro ter prazer em ler e é isso que tive aqui.

Bjos e bem vinda ao PdB!

Bruno SM disse...

Ótima crítica!
Quero ver. E não quero ver...
Tenho sérias restrições a musicais no cinema.

Alexandre Santos disse...

Concordo.... O filme tem que ser visto sabendo o que se vai ver. Vi pelo menos dois casais saindo da sessão que assisti. Mas também achei o filme emocionante, grandioso. Gostei muito, a interpretação de todos impressiona, mesmo que a afinação não seja perfeita o tempo todo, ou até por isso mesmo. Um filmaço.

Lucas Montenegro disse...

Finalmente uma crítica que é realmente boa sobre o filme. Nem tenho o que acrescentar, você disse tudo, parabéns. O filme é maravilhoso.

vitor vasiunas disse...

O filme é bom? vale a pena assistir? queria muito assistir apesar de não gostar muito de músicais mas parece que você não está avaliando o filme e sim explicando por que dizem que ele é ruim. queria saber se recomenda ou não.

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