4 de mar de 2013

#BaúPop: O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich


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Estamos no começo dos anos 60. Bette Davis e Joan Crawford ainda são estrelas em Hollywood, mas a indústria agora foca seus olhos para outras atrizes e outros gêneros. O mundo deixava de ser tão idílico, romântico e inocente e o cinema sentia que precisava se atualizar com as transformações que surgiam. Naquela época, filmes como Psicose e Os Pássaros lotavam as salas, a super produção Cleópatra naufragava (apesar de todo o burburinho em torno do filme com Elisabeth Taylor ter se tornado atemporal, esta produção nunca se pagou) e os produtores temiam investir em produções assim, apelando para histórias com custos menores. 

Foi exatamente nesse contexto que Robert Aldrich estava com o roteiro em mãos de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? e, talvez ele e os produtores tenham pensado que chamar duas atrizes, mundialmente conhecidas pelo difícil temperamento, para estrelar essa obra poderia se tornar um enorme sucesso. O que de fato se concretizou. Entretanto, a realização desse filme foi tão tensa quanto a história a ser contada. 

Primeiro que tanto Bette Davis quanto Joan Crawford se odiavam de fato na via real, assim como no filme, talvez até mais. Como duas meninas mimadas, infernizavam a vida uma da outra. Bette Davis pediu, aliás, exigiu, que uma máquina de Coca-Cola fosse instalada no set de filmagem, apenas para afrontar sua rival, que era casada com um poderoso diretor da Pepsi. Já Joan Crawford colocava peso em seus bolsos toda a vez que Bette Davis tinha que empurrar sua cadeira de rodas em cena. As farpas entre elas eram constantes e até hoje me pergunto como Robert Aldrich não enfartou. 


Em O Que Terá Acontecido a Baby Jane? temos a história de duas atrizes aposentadas que vivem numa mansão antiga. Joan Crawford é Blanche Hudson. No passado foi uma proeminente atriz que, depois de um acidente que a deixou presa a uma cadeira de rodas, se viu obrigada a aposentar-se no auge da carreira. Agora ela passa o dia assistindo suas antigas atuações. Já Bette Davis é a Baby Jane do título que quando criança foi muito famosa, mas ao crescer não conseguiu o mesmo espaço e só conseguia trabalho graças à influência da irmã famosa. 

Podemos traçar um paralelo do filme com suas atrizes principais. Tanto Davis quanto Crawford não estavam mais no auge. Eram reconhecidas, obviamente, mas não possuíam o mesmo status de outrora, talvez por não serem mais jovens. Sabiam que Hollywood era (ou melhor, é) cruel com as atrizes ao chegarem em determinada idade. Os grandes papéis rareavam e talvez nem imaginassem que esta produção seria o canto do cisne para elas. 

Bette Davis conseguiu sua décima indicação oficial ao Oscar pelo papel de Baby Jane e só não venceu porque Joan Crawford, que não foi indicada, fez uma verdadeira campanha para que a amiga Anne Bancroft vencesse o prêmio por O Milagre de Anne Sullivan, o que realmente aconteceu. Para deixar Davis ainda mais enfurecida, foi sua rival, Crawford, quem acabou indo receber o prêmio em nome de Anne, que se recusara a comparecer a cerimônia. 


O Que Terá Acontecido a Baby Jane? se tornou um filme mítico não apenas pelas suas histórias de bastidores, mas também porque o prazer de ver duas grandes estrelas em papéis nada glamourizados, num verdadeiro duelo, é magnífico. Além disso, é impossível não se impressionar com o excelente trabalho de realização de Aldrich, que conseguiu segurar o estrelismo exagerado das duas atrizes, apenas para deixá-lo aflorar sempre no momento certo. 

Uma curiosidade: Barbara Merrill, filha de Bette Davis, também atuou no filme. Ela é a jovem que mora na casa ao lado daquela das irmãs Hudson.

Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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