4 de jun de 2013

Faroeste Caboclo, de René Sampaio





Composta por Renato Russo em 1979 (e lançada oficialmente em 1987), Faroeste Caboclo é uma das mais icônicas canções da Legião Urbana. Narrando a vida de João de Santo Cristo, a música é conhecida por mais de uma geração que, apesar de seus mais de 9 minutos de duração, sabe sua letra de cor. E, para muitos (como eu, diga-se de passagem), foi impossível não imaginar como seria uma transposição para o cinema dessa história que é, em essência, cinematográfica. Faroeste Caboclo, filme de René Sampaio, vem para trazer essa história sobre amor, drogas e violência para os cinemas e hipnotizar as plateias atuais.

Com roteiro de Marcos Bernstein e Victor Atherino, antes de mais nada é preciso deixar claro que Faroeste Caboclo não é um videoclipe; antes, trata-se de um filme baseado no clássico da Legião Urbana. Assim, está lá toda a história imortalizada na canção, mas com algumas liberdades criativas necessárias para uma adaptação cinematográfica. Deveria não ser preciso frisar que música é música e que filme é filme, e que mídias diferentes pedem abordagens distintas. Entretanto, algumas pessoas parecem não entender esse simples conceito e reclamam quando não vêem exatamente aquilo que esperam na tela grande. Uma pena, é claro. Para quem pensa assim.


Fora que para aqueles que assistiram a Somos Tão Jovens, observar alguns links interessantes entre o filme que narra a juventude de Renato Russo e a versão para a tela grande de uma de suas mais famosas canções é uma experiência mais do que interessante. 

Transportados para a Brasília dos anos 80, acompanhamos em Faroeste Caboclo a sina de João de Santo Cristo que, saído do interior da Bahia depois de um evento traumático em sua história miserável, chega em Brasília em busca de uma nova vida. É na capital do país que começa a trabalhar com seu primo Pablo, um traficante conhecido na periferia da cidade, e que conhece Maria Lúcia, uma menina linda, filha de um senador. Apaixonados, os jovens vêem sua história ser desenhada, com todos os entraves que a diferença de classes e cor pode proporcionar, além dos problemas de João com a "lei" da cidade, que parece andar de mãos dadas com as necessidades de Jeremias, o traficante mais influente entre a classe alta da capital.

Por ser uma história de desfecho conhecido do grande público, Faroeste Caboclo ganha a plateia ao transformar toda a trama em um grande épico calcado numa história de amor. Tudo isso, com um grande pé na realidade, mostrando uma história violenta, de um traficante de drogas e seu cotidiano no início dos anos 80. Não há concessões e a câmera do diretor René Sampaio não se furta em mostrar jovens drogados e sangue na tela. Para os mais pudicos, que podem vir a reclamar disso, o que se pode dizer? A palavra faroeste faz parte do nome do filme, cacete!

O ponto alto do filme, entretanto, são os seus protagonistas. Vividos com intensidade por Fabrício Boliveira e Ísis Valverde, João de Santo Cristo e Maria Lúcia finalmente ganham rostos para os fãs de Faroeste Caboclo que, ao entoarem novamente os versos de Renato Russo, se lembrarão desses atores ao cantar novamente a canção. Destaque também para César Troncoso e Felipe Adib, respectivamente os traficantes Pablo e Jeremias; além do derradeiro trabalho de Marcos Paulo em vida, interpretando o senador pai de Maria Lúcia.


Adaptado de forma interessante para o cinema, Faroeste Caboclo encontra também soluções interessantes para lacunas da história contada na música. O uso de flashbacks que levam ao passado de João de Santo Cristo é feito com parcimônia, mas nos ajuda a entender um pouco da personalidade daquele "herói" errático que vemos na tela. E a decisão por suprimir detalhes da história e inverter acontecimentos da trama não prejudica em nada o sucesso desse trabalho tão bem produzido e executado.

Faroeste Caboclo é um filme para fãs da famosa canção de Renato Russo, mas não apenas para eles. Contando uma história que poderia ser real, o longa empolga ao se apresentar, inclusive, como um legítimo exemplar de um quase bang bang brazuca. 

Vale a sua atenção e conferida e ainda faço um desafio: sair do cinema sem cantarolar a letra de Faroeste Caboclo será impossível. Eu garanto, pode tentar!

Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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