15 de out de 2013

Corações Feridos, de Louisa Reid





Meu amigo (e editor desse blog), habitualmente lê conteúdos bem frugais. Sabem essas leituras meio bobinhas? Então (preconceito mode on), ele é do tipo que odeia José Saramago, porque né, naquele monte de palavra sem pontuação, alguma bloqueou o prazer que ele poderia ter com a leitura e ele não insistiu o suficiente para tentar se acostumar e daí apreciar o texto. E foi exatamente esse amigo quem me presenteou com o livro da mulher que não queria ter filhos, Uma Prova de Amor, aquela chick lit sobre a qual falei aqui outro dia.

Semana passada ele deixou um livro sobre a minha mesa. Corações Feridos, da Editora Novo Conceito, era o título do dito cujo. Dado o título piegas e o contexto que eu descrevi inicialmente, o que você, leitor Sherlock, poderia deduzir? O mesmo que eu, suponho: bora ler mais uma chick lit pueril, porém limpinha, nesse final de semana. Eu estava feliz com essa perspectiva. Minha cabeça tá cansada, meu corpo não aguenta mais nada, as férias estão no horizonte, mas ainda distantes, logo, me faria muito bem ler uma historieta boba qualquer. Fora que, detalhe inútil porém verdadeiro: recentemente eu revi a temporada de My So Called Life e me deu vontade de ter uma paixão tipo Jordan Catalano na minha vida. Só para ela, a vida, ficar mais alegrinha, sabem? O ambiente estava ou não perfeito para sonhar com uma ficção de mulherzinha?

Não li nada sobre o livro, fui direto para o primeiro capítulo. Duas irmãs gêmeas, adolescentes, uma linda e a outra portadora de uma síndrome que deforma os ossos da face (Treacher Collins o nome técnico). Humm... Isso não está me soando romântico não, mas vambora. A composição do romance usa aquele truque muito em voga ultimamente de usar a voz de um protagonista em cada capítulo (As Crônicas de Gelo e Fogo rules). No primeiro capítulo há a narrativa pela voz de Rebecca, a gêmea portadora da síndrome, e no seguinte quem assume a voz narradora é a gêmea linda Hephzibah (adorei esse nome). Essa estrutura funciona muito bem, especialmente porque há um evento que demarca essas perspectivas, possibilitando não apenas uma voz narradora distinta, mas também tempos distintos para os eventos. Após o final do primeiro capítulo eu já sabia que não se tratava de uma ficção romântica, mas me deixei levar porque a composição do romance te induz a ler pelo menos os dois primeiros capítulos.


Assim, como direi? Se você está cansando e quer ler uma baboseira leve, Corações Feridos não é recomendável para você. O adjetivo ferido, nesse caso, não chega a ser 100% literal, mas beira os 50% (isso é quase um spoiler, malzae. Em minha defesa tenho a dizer que é um spoiler só até o final do primeiro capítulo, então nem conta). Trata-se de uma história de redenção. Essa é a síntese que você chega ao final da leitura. Durante ela, o mais provável é que você se debata internamente pensando: putz, que história pesada, quanta tristeza, violência, abandono, lacunas. Surrealidades que ganham esse adjetivo apenas para as pessoas que, como eu, não tiveram que passar por nenhuma daquelas situações. Para quem vive ou conhece algo do tipo ou para as pessoas que trabalham com crianças vítimas de abusos, não é nada surreal, é apenas a realidade.

O livro tem a sua cota de romance juvenil, amizade, superação de medos e, como eu disse anteriormente, redenção. Mas eu terminei a leitura como quem experimenta um travo amargo na boca porque o livro me fez refletir que tantos abusos só ocorrem por aí porque há um número sem fim de pessoas, eu inclusa, que escolhem não se envolver com a comunidade em que vivem, com os vizinhos, com as violências que não comprovamos mas das quais podemos suspeitar, em nome do conforto de levar uma vida de forma egoísta, afinal, de problemas bastam os meus.

O comportamento egoísta que é tão comum na nossa sociedade é o que permite que muitas violências se perpetuem e que força as vítimas a encontrar, sozinhas, formas de sobreviver e nos casos de sorte, se libertar.

Achei a conclusão do livro para alguns personagens confusa, mas dei um desconto ao assumir que a voz de uma das narradoras era também frágil no sentido de não ser um narrador onisciente e onipresente desde o começo, meio que o preço a se pagar pela construção que se estabeleceu com a dupla de narradoras.

No final de semana em que eu precisava e buscava conscientemente me iludir, estive às voltas com essas páginas de realidade. Sim, estamos falando de ficção, mas daquele tipo que soa muito real, principalmente porque o final é positivo sim, mas triste.

Ainda não sei se gostei. Como eu disse, minha vontade era sonhar com amores adolescentes e não me angustiar com as coisas que acontecem no mundo. Nesse caso, acho que a culpa é mais minha que da autora. O primeiro livro que ganhei mereceu um tanto do meu deboche porque não me apresentou densidade alguma e fiquei decepcionada. Nesse, havia densidade em demasia. Mea culpa: acho que eu é que sou meio chata mesmo e estou sempre com as expectativas em dissonância com os enredos que me são ofertados.

Corações Feridos
Autora: Louisa Reid
Páginas: 256
Editora: Novo Conceito
Por Lírio Ribeiro
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