15 de nov de 2013

Jogos Vorazes: Em Chamas, de Francis Lawrence




Antes de começar a falar sobre Em Chamas preciso confessar uma coisa sobre Jogos Vorazes, o filme dirigido por Gary Ross que iniciou essa franquia em 2012: eu o odeio. Acho o roteiro ruim, superficial e imbecil; acho a direção fraca, óbvia e sem graça; acho os efeitos bem toscos e a direção de arte bizarra já que, apesar de linda, não faz o menor sentido. De qualquer forma, o que mais me incomoda sobre Jogos Vorazes são seus fãs.

Como estudante de Cinema aplico em minha vida uma regra muito simples: Eu posso gostar de qualquer tosqueira, só não posso deixar de reconhecer seus erros. Infelizmente, todos os fãs de Jogos Vorazes que conheço tratam o filme como a maior maravilha do mundo e não admitem que ele é um mashup de 1984, de George Orwell, e Battle Royale, de Koshun Takami, romantizada e higienizada para o adolescente padrão norte-americano. É tão difícil assim aceitar que histórias originais simplesmente não existem e que essa não é uma história revolucionária?


O que eu realmente quero dizer com tudo isso é: eu fui assistir Jogos Vorazes: Em Chamas com a maior má vontade do mundo. Talvez pelas minhas expectativas tão baixas, talvez por méritos próprios, talvez por um pouco dos dois, a verdade é uma só: Jogos Vorazes: Em Chamas é um filme excelente.
De agora em diante, seu trabalho é ser uma distração para que as pessoas esqueçam dos problemas reais.
Essa foi uma das frases que mais me marcou durante todo o filme e ela traz um peso enorme para a protagonista Katniss Everdeen. Não sei se vocês lembram do primeiro filme, mas ela se voluntariou para essa palhaçada toda só para salvar a irmã, depois fingiu um romance eterno da última semana só para ganhar o reality-show (quem nunca?) e, com isso, acabou alterando todo o status-quo do jogo, desencadeando uma onda de esperança por um mundo melhor em todos os 12 distritos de Panem.

Por mais que isso não faça o menor sentido, depois de ser tão repetido durante o filme você acaba acreditando e, no fim das contas, faz todo o sentido já que neste futuro distópico totalitarista ir contra a Capital é um ato absurdamente heróico (mesmo que seja só para salvar a própria pele). O roteiro é eficaz ao dar peso para essa protagonista traumatizada que, apesar de não ter cometido nenhuma atrocidade durante sua participação nos Jogos Vorazes, tem pesadelos frequentes e carrega o peso do mundo nas costas. É impossível não se solidarizar com sua dor ao ver a família da menina que se sacrificou para que ela vivesse durante os Jogos ou seu desespero para salvar aqueles que ama. Obviamente isso não é um mérito apenas do roteiro, já que Jennifer Lawrence continua fascinante em cena.

Outro avanço significativo dessa continuação é a direção. Francis Lawrence cria um filme muito mais interessante do que Gary Ross e isso não me surpreende nem um pouco, já que ele dirigiu os visualmente interessantes Constantine (2005), Eu Sou a Lenda (2007) e a série Kings (2009), além do excelente drama Água para Elefantes (2011). É bacana notar como ele se mantém fiel ao original e ainda assim consegue fazer algo diferente. O tom do filme é outro, o estilo da câmera é outro, o ritmo é outro. É como minha avó dizia: experiência é tudo nessa vida.


Mas nem tudo são flores neste filme. A pior coisa continua sendo sua duração, pois o filme não tem história para aguentar 126 minutos de projeção. Acredito que isso seja para agradar os fãs dos livros já que os excessos do filme são muito óbvios. Não entendo porque gastar tanto dinheiro mostrando a 75ª Edição dos Jogos Vorazes, já que toda essa sequência acrescenta pouquíssimo no desenvolvimento dos personagens ou da história em si. Ela poderia ter durado dez minutos (e alguns milhões a menos) e isso faria milagres para a narrativa. Outro ponto negativo é o romance desnecessário dos protagonistas. Se por um lado o envolvimento deles é fofo e gera as torcidas que as adolescentes tanto gostam (você é #TeamPeeta ou #TeamGale?), por outro lado é completamente irrelevante, já que a protagonista não precisa de um homem para ser complexa e motivada. Toda a baboseira romântica usa um tempo de tela absurdamente grande sem necessidade.

Parando para pensar, esses são os únicos pontos negativos que consigo encontrar neste filme. O que é surpreendente, já que normalmente não gosto de quase nada.

A verdade é que Jogos Vorazes continua sendo uma história política superficial e romanceada, mas que ganha pontos por ser uma trilogia de verdade e não uma série com episódios desconexos ou uma história só esticada à exaustão para ganhar mais dinheiro. É uma pena que ela perca tempo com baboseiras, pois possui todos os elementos para se tornar realmente relevante.
Lembre-se de quem é o verdadeiro inimigo.
E você, curtiu o Pop de Botequim e quer colaborar com a gente? Se gosta de cultura pop, aprecia escrever e quer ser lido, não perca tempo e mande já um email pra gente! Vai ser um prazer ter você em nosso botequim! Entre em contato já e saiba como participar! Aguardamos seu contato através do nosso email: popdebotequim@gmail.com

Leandro Faria  
Michael Oliveira, santista caiçara que abandonou a praia para tentar a sorte na cidade grande. Em São Paulo descobriu que Steven Spielberg não é Deus e que a Cultura Pop vai muito além das terras do Tio Sam. Atualmente consome tudo o que pode e tal qual Galactus está sempre em busca de novos universos que possam saciar essa fome eterna.
FacebookTwitter

2 comentários:

Silvestre Mendes disse...

Não lembro se já conversamos sobre os livros e o primeiro filme, mas concordo com tudo o que disse sobre Hunger Games, primeiro filme. Li o livro e se tivesse ido ao cinema sem ter feito isso, acho que odiaria a franquia e nem teria todo o amor que tenho hoje pela história. Mas é sempre assim, não é? A primeira parte de qualquer franquia cinematográfica, que vem de livros infanto juvenis acabam sendo tocas e até sem sentido e só nas suas continuações é que ganham o devido respeito que merecem.

Gostei muito da sua crítica e de como o filme conseguiu driblar toda sua ira interior. Filmes bons conseguem isso. Concordo que não precisaria gastar tanto tempo na história de amor, no livro ela existe só para Peeta, nem Katniss gasta muito tempo pensando se é ele ou Gale. Mas sabe como é, antes de tudo existe um mercado "teen" precisando ser distraído. Jogos Vorazes é um tapa na cara de alguns fãs, só eles que ainda não perceberam isso.

Daniel Olivieri disse...

Realmente é muito superficial, fraco e diria até um pensamento atrasado, de como há muito tempo atrás se poderia imaginar dos problemas pelo qual a sociedade passaria. Acontece que os tempos passaram, o 1984, não foi como 1984, e novas ideias estão precisand surgir. Pois infelizmente, evoluímos em muitas coisas, mas ainda tratamos o futuro de maneira superficial e sem tentar enchergar os verdadeiros problemas que possam estar por vir.

Share