19 de dez de 2013

Ender's Game - O Jogo do Exterminador, de Gavin Hood




Grandes expectativas trazem grandes decepções.
Acho essencial começar este texto me justificando, porque Ender's Game - O Jogo do Exterminador, que estreia essa sexta-feira nos cinemas brasileiros, não é um filme ruim, mas a minha expectativa era tão grande, que gostar do filme se tornou praticamente impossível. Esta expectativa é ainda pior, porque surgiu de um saudosismo exacerbado motivado pela minha memória afetiva que dizia que o livro original é um dos meus favoritos da infância. Para ser muito honesto, eu não lembro de quase nada do livro, tanto que já estou com ele em mãos para reler. De qualquer forma, aquela ansiedade pelo filme acabou estragando minha experiência.

Ender's Game - O Jogo do Exterminador conta a história de Ender Wiggin, um garoto tímido e brilhante que é selecionado para fazer parte da elite que luta contra os alienígenas conhecidos como Formics. Na Escola de Guerra, ele aprende rapidamente a controlar as técnicas de combate e não demora para que o coronel Graff o considere a maior esperança das forças humanas na épica batalha que decidirá o futuro da Terra e da humanidade.

A primeira coisa que me incomodou muito durante todo o filme foi o roteiro. Eu sei que em todos os meus textos reclamo do roteiro dos filmes, mas afinal de contas, um bom roteiro já é meio caminho andado nessa arte de contar histórias. Ender's Game peca demais ao fazer um roteiro exageradamente expositivo. A todo momento algum personagem surge em cena para falar os objetivos do "jogo". Quando não é o próprio Ender justificando suas atitudes, temos os personagens interpretados por Harrison Ford e Viola Davis traduzindo em palavras tudo o que deveria ser mostrado em imagens.


"Nós precisamos de mentes como a sua, Ender. Você será o melhor comandante que já treinamos." 
Essa síndrome de Escolhido deixa o filme chato. Desde a primeira cena já ficamos sabendo que o protagonista está predestinado a ser o salvador da humanidade, então qual é a graça de vê-lo chegar lá? O público já sabe que ele vai superar todos os obstáculos com maestria, que ele vai conquistar a todos e, no fim, será o responsável pela grande vitória. Um bom roteiro deveria deixar isso tão sutil que nos esqueceríamos e torceríamos pelo protagonista, mas o roteiro assinado por Gavin Hood, que também assina a direção, reitera tanto essa informação que chegou um momento em que pensei "Tá bom! Já sei que ele é incrível, dá pra parar de repetir agora?!"

Além do roteiro, o outro grande problema do filme é a direção de Gavin Hood. Foi bom eu me manter afastado de qualquer informação do filme, porque se soubesse de antemão que ele era o diretor e roteirista já iria para o cinema odiando Ender's Game. Dessa forma consegui odiar o filme, apesar do nome dele. Caso você não lembre desse nome, só digo uma coisa: X-Men Origens - Wolverine.

O que ele disse para os executivos que os convenceu a entregar 110 milhões de dólares para filmar o promissor início de uma franquia eu não faço ideia. Eu nunca daria nem cinco reais para ele filmar nada, já que, apesar dos efeitos especiais fantásticos, Ender's Game sofre de uma profunda falta de personalidade. A direção não corre riscos, deixa tudo muito explícito o tempo todo e o fim do filme, que deveria ter ficado explícito para o público se afeiçoar mais ao protagonista, ele esconde só para conseguir aquele "ohhh" final, apesar da revelação ser óbvia. Tirando isso, o design das naves lembra demais Battlestar Galactica, o design dos aliens lembra demais Independence Day, a trilha sonora lembra demais Battleship, e o longa como um todo lembra demais Harry Potter no espaço.


Os atores são subaproveitados. Harrison Ford e Viola Davis, fantásticos, só estão no filme para deixarem claro a mensagem da história para o público. Abigail Breslin, A Pequena Miss Sunshine, deveria ter umas aulinhas com sua amiga Chloe Moretz para ver se aprende a interpretar. Hailee Steinfeld não tem muito o que fazer a não ser servir como um possível interesse romântico e esperar para apertar um botão, então nem tenho o que comentar. Os outros coadjuvantes infantis são só estereótipos infantis que nem ao menos sei o nome. Acredito que o maior desperdício seja Ben Kingsley, que possui o personagem mais estúpido e sem função de todos. Me fala se faz sentido: o cara derrotou todo um exército sozinho e sabe como deter os aliens mas, por algum motivo, ele agora é escolhido para treinar crianças para fazer exatamente o que ele faz, ao invés de simplesmente atacar os aliens.

Talvez esses furos de roteiro sejam explicados no livro, mas a verdade é que no filme tudo fica muito corrido e superficial. Por exemplo, o filme dá a entender que todo o treinamento de Ender durou alguns meses, mas logo em uma das cenas iniciais do treinamento o personagem do Harrison Ford vê em uma tela o exército Formic se agrupando e um contador aparece na tela: T - 28D. Ou seja, eles só tem mais 28 dias. O que deixa tudo mais confuso é pensarmos que, no livro, Ender só se torna o grande salvador depois de mais de seis anos de treinamento árduo...

Apesar de tudo o que falei, Ender's Game - O Jogo do Exterminador não é um filme ruim. O grande culpado disso é o protagonista, Asa Butterfield, que cria um personagem carismático, complexo e envolvente. Palmas para ele por segurar o filme inteiro nas costas. Veria esse garoto interpretando por mais duas horas. Inclusive, se não fosse o seu carisma, as quase duas horas de projeção teriam sido uma tortura. Por causa dele, o filme vale muito a pena.
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Leandro Faria  
Michael Oliveira, santista caiçara que abandonou a praia para tentar a sorte na cidade grande. Em São Paulo descobriu que Steven Spielberg não é Deus e que a Cultura Pop vai muito além das terras do Tio Sam. Atualmente consome tudo o que pode e tal qual Galactus está sempre em busca de novos universos que possam saciar essa fome eterna.
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