26 de jan de 2014

Tatuagem, de Hilton Lacerda






Tatuagem ainda está em cartaz em alguns cinemas e,  finalmente, consegui conferir o super elogiado filme brasileiro de Hilton Lacerda, que narra a história de uma trupe de teatro nordestina chamada Chão de Estrelas. O filme independente é muito bem feito. Envolvente, entrete, diverte e ainda nos põe a refletir sobre algo que até bem pouco tempo atrás era uma tosca realidade em nosso país: a ditadura militar.

O ano é 1978. Em Recife, o grupo teatral Chão de Estrelas é apresentado como a Moulin Rouge do subúrbio, a Brodway dos pobres e o Studio 54 da favela. Liderado por Clécio e tendo a impagável Paulete como estrela principal, a trupe apresenta shows debochados e politizados, cheios de sarcasmo, nudez,  crítica e bom-humor.


Em meio à todo o clima de liberdade e alegria que cerca o Chão de Estrelas, surge de repente o tímido e reprimido Arlindo/Fininha. Cunhado de Paulete (o garoto é namorado da irmã de Paulete, que mora no interior), Fininha conhece o grupo quando vai entregar presentes da namorada ao irmão. Surpreso e encantado com esse novo mundo até então desconhecido, o rapaz imediatamente deixa-se seduzir pelo fascinante Clécio. Inicia-se um tórrido romance entre ambos. Acontece que Fininha é um soldado do exército e deixa todos os integrantes do grupo com a pulga atrás da orelha, achando que ele pode ser um espião, mas não é verdade. Fininha é só um jovem confuso, tentando achar seu lugar no mundo, e ele encontra sua identidade nos braços e no amor de Clécio.

O pano de fundo de Tatuagem é bastante sério, mas em nenhum momento chato ou revoltante, pois tudo é tratado com tamanha leveza pela ótica pura e simples da arte, do prazer e da liberdade, que nos dá vontade de estar lá, se jogando junto com aquele grupo, dominados pela mais lúcida loucura, em nome da democracia.

Sem falar nas atuações fantásticas, de total entrega dos protagonistas. Irandhir Santos (Clécio), que eu tinha visto pela primeira vez em Tropa de Elite 2, e Jesuíta Barbosa (Fininha), recentemente puderam ser vistos em Amores Roubados como João e Fortunato, respectivamente. Mas quem os viu na microssérie e não conferiu Tatuagem, mal pode imaginar o que é a química dos dois em belíssimas cenas de profunda intimidade. A atuação de Irandhir é fabulosa, sensível e poética. Já Jesuíta, menos experiente, atua com os olhos, impossível descrever o que é o olhar desse menino, de voz mansa e jeito carente que arrebata a ternura de todos.




Agora, Paulete, vivido pelo ator Rodrigo Garcia, merece um parágrafo à parte. Puro luxo, glamour e carisma, a personagem é sensacional e a atuação de Rodrigo é tão incrível,  que rouba todas as cenas em que aparece. Diva absoluta da companhia, Paulete é um passarinho livre e despudorado, que vive intensamente e arranca escandalosas gargalhadas do público de dentro e de fora da telona.

Destaque também pra bonita relação de Clécio com seu filho pré-adolescente Tuca e a mãe do menino, Deusa. Um trecho que gosto muito e define bem a relação de amor, respeito e honestidade entre os três é quando Deusa leva o filho pra ver o pai em dia de apresentação e enquanto se arruma no camarim Clécio diz: "Não gosto quando você trás ele aqui, já disse que não é lugar adequado pra uma criança." O menino diz: "Eu não sou mais criança." E a mãe rebate: "E eu já disse que não existe lugar adequado e sim educação adequada." Simples, direto e reconfortante saber que mesmo sendo ficção, existem pessoas que pensam assim de verdade.

Tatuagem, enfim, é isso: uma história divertida, emocionante e reflexiva, que fala basicamente de liberdade. É pura arte, e nada liberta mais que a arte. Saí do cinema orgulhoso de ver uma coisa tão nossa, tão artística, tão libertadora.
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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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