27 de fev de 2014

A Graça da Coisa, de Martha Medeiros




Se você ler minha apresentação ali no Quem Somos, vai saber que Martha Medeiros é um dos meus grandes amores na literatura brasileira contemporânea. Gaúcha de Porto Alegre (minha conterrânea), descobri e me encantei pelos escritos de Martha em 2002, na última página do caderno Donna, dominical sobre moda e comportamento do jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul. Foi paixão à primeira lida. Dali em diante tornou-se um vício: todos os domingos eu comprava o jornal só pra ler a coluna de Martha.

Mas muito antes de se tornar colunista de Zero Hora, Martha Medeiros lançou nos anos 80 e 90 diversos livros de poesia. Porém, foi como cronista que ela alcançou reconhecimento nacional, discorrendo com seu jeito delicado e intimista sobre o cotidiano das coisas e das pessoas da forma mais simples, fascinante e envolvente que se possa imaginar. Martha transforma magicamente os assuntos mais triviais em leitura da melhor qualidade. Com sua linguagem coloquial e fácil, mas nunca simplista, ela sempre atinge o ponto exato da emoção de quem a lê.

Atualmente, Martha Medeiros escreve para a ZH duas vezes por semana, aos domingos e às quartas-feiras, e também é colunista do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Infelizmente, como não moro mais no RS, não consigo ler semanalmente sua coluna nos jornais, mas à cada dois anos Martha lança um livro com a coletânea de suas melhores crônicas escritas no ZH e O Globo; isso quando não resolve se enveredar pela ficção, aí o espaço de tempo entre um lançamento e outro diminui.

Desde 2010 ela tem lançado um título a cada ano, o que deixa os fãs como eu dando pulos de alegria. Em 2010 ela publicou o romance Fora de Mim; 2011 a coletânea Feliz Por Nada; 2012 uma novela curtinha chamada Noite em Claro e os relatos de viagem deliciosos Um Lugar na Janela; e em 2013 seu mais recente lançamento A Graça da Coisa, também uma coletânea das melhores crônicas de 2011 à 2013 e é sobre esse livro que vou falar já já. Antes, queria só dizer que Martha também é autora de Divã (2002), o romance que encantou Lília Cabral e a fez levar a história aos palcos, aos cinemas e à televisão, coroando de vez Martha Medeiros como uma das escritoras mais queridas da atualidade. Também já encenada por Cissa Guimarães (Doidas e Santas - 2008) e Ana Beatriz Nogueira (Tudo o Que eu Queria te Dizer - 2007).

Pois bem, toda essa apresentação é pra dizer que A Graça da Coisa foi lançado em agosto do ano passado e só consegui adquiri-lo pra minha coleção em janeiro último (sim, eu tenho uma coleção com os livros dela, não todos, mas muitos). Ele é composto por 81 crônicas que falam sempre ao coração de formas variadas, às vezes com humor, outras com melancolia, ora com revolta, ora com paixão. Martha Medeiros faz a gente parar pra pensar, ponderar, refletir, sem nem se dar conta disso, como num bate-papo descontraído na cozinha, enquanto se lava a louça e faz digestão após um almoço de domingo. Aliás, em uma crônica chamada A Mesa da Cozinha, ela discorre sobre um assunto aparentemente prosaico de maneira poética e cheia de charme:

" A mesa da cozinha é o lugar sagrado das conversas durante a madrugada, quando os irmãos chegam da balada com fissura por um gole de coca-cola e com histórias saindo pela boca: com quem ficaram ou não ficaram, o trajeto que fizeram para driblar a blitz, o preço da cerveja, e aí as amenidades evoluem para a filosofia, a necessidade de extrair da vida uma essência, a tentativa de escapar da insignificância, até que o dia começa a clarear e o cansaço avisa que é hora de ir pra cama. 
Para alguns casais, a mesa da cozinha já serviu de cama, aliás.
A mesa da cozinha ouviu confissões de amigas que juraram guardar segredo, mas não conseguiram. O amante, a traição, a culpa, o nunca mais. A mesa escuta e não espalha, reconhece a inocência das fraquezas alheias e se sente honrada por ser confidente de tantas vidas." 

Dentre as 81 crônicas separei 20 que foram as minhas preferidas: Autoajuda; O que acontece no meio; Vidas secas; Empregadas ou secretárias?; A capacidade de se encantar; As mães e os filhos do mundo; Carisma e inocência; Construção; Coragem; O encurtamento das durações; Falando sozinho; Não parecia eu; Nós; O dinheiro que grita; Pulsantes; A bota amarela; Apegos; Dialogando com a dor; Simples, fácil e comum e Verdade interior.

Não daria pra transcrever trechos de todos os textos que mais gostei porque a resenha ficaria longa demais, mas selecionei alguns trechos bacanas só pra deixá-los com água na boca:

"Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.
No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação e não destruição. Que certos riscos compensam - o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa. Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte." (Trecho da crônica "O que acontece no meio") 

"Muita gente diz que adora viajar, mas depois que voltam só recordam das coisas que deram errado. Não saboreiam nada. Estão diante das geleiras da Patagônia e não refletem sobre a imponência da natureza, estão sentados num café em Milão e não percebem a elegância dos transeuntes, entram em uma gôndola em Veneza e passam o trajeto brigando contra a máquina fotográfica que emperrou, visitam Ouro Preto e não se impressionam com o tesouro da arquitetura barroca -  mas se queixam das ladeiras, claro.
Vão à Provence e torcem o nariz para o cheiro dos queijos, olham para o céu estrelado do Atacama sofrendo com o excesso de silêncio, chegam em Trancoso e reclamam de não ter onde usar salto alto, viajam para a Índia sem informação alguma e aí estranham o gosto esquisito daquele hambúrguer: ué, não é carne de vaca, bem? Aliás, viajar sem estar minimamente informado sobre o destino escolhido é bem parecido com não ir." (Trecho da crônica "A capacidade de se encantar")

"Paixão é estágio, amor é profissionalização. Paixão é para ser sentida; o amor, além de sentido, precisa ser pensado. Por isso tem menos prestígio que a paixão, pois parece burocrático, um sentimento adulto demais, e quem quer deixar de ser adolescente?
A paixão não dura, só o amor pode ser eterno. Claro que alguns casais conseguem atingir o sublime - amarem-se apaixonadamente a vida inteira, sem distinção das duas "eras" sentimentais. Mas, para a maioria, chega o momento em que o êxtase dá lugar a uma relação mais calma, menos tórrida, quando as fantasias são substituídas pela realidade: afinal, o que se construiu durante aquele frenesi do início? Uma estrutura sólida ou um castelo de areia?" (Trecho da crônica "Construção")

"Quando eu era pequena, achava que coragem era o sentimento que designava o ímpeto de fazer coisas perigosas, e por perigoso, eu entendia, por exemplo, andar de tobogã, aquela rampa alta e ondulada em que a gente descia sentada sobre um saco de algodão ou coisa parecida. Por volta dos nove anos, decidi descer o tobogã, mas na hora agá, amarelei. Faltou coragem. Assim como faltou também no dia em que meus pais resolveram ir até a Ilha dos Lobos, em Torres, num barco de pescador. No momento de subir no barco, desisti. Foram meu pai, minha mãe e meu irmão, e eu retornei sozinha, caminhando pela praia, até a casa da vó.
Mas o que parecia medo, era a coragem me dando as boas-vindas, me acompanhando naquele recuo solitário, quando aprendi que toda escolha requer ousadia." (Trecho da crônica "Coragem")

"Sentimentos não são regidos por megabytes por segundo, não se vinculam a relógios, não obedecem a leis objetivas - é o curso da natureza que manda. E a natureza é surda e cega para o desatino. Exige a introspecção devida, sem a qual nada se resolve, só se mascara.
Diante da dor emocional, só há uma ordem a respeitar: paciência. De nada adianta inventar alegrias fajutas e se oferecer para a cobiça do mundo sem antes estar com a alma serenada e forte. É preciso saber esperar, do contrário a gente se atrapalha e só reforça a miséria existencial que preenche as madrugadas." (Trecho da crônica "O encurtamento das durações")  

"O ator Caio Blat disse em entrevista recente que fala muito sozinho, e que considera isso uma espécie de psicodrama - deu a nossa ansiedade um nome mais refinado. Mas está certo, é psicodrama, sim, concordo em defesa de todos os tagarelas solitários. Estamos ensaiando uma discussão, uma argumentação, um desabafo, que depois pode nem acontecer, o caso já ficou resolvido ali mesmo, enquanto se cruzava a faixa de pedestres. Falar sozinho é um ato de generosidade, antes de tudo. Vá saber o estrago que causaríamos se falássemos pra valer, olho no olho, tudo aquilo que mantemos guardado, todo o palavreado da raiva, do rancor e do desassossego que fica confinado dentro. Melhor soltar as frases ao vento." (Trecho da crônica "Falando sozinho")

"Além de limpo e honesto, dinheiro bom é dinheiro silencioso. Que não se exibe, não se pavoneia, não aponta para si próprio dizendo: olhem eu aqui! Conheço milionários que tem com o dinheiro uma relação discreta. Claro que moram bem, viajam, possuem um bom carro, mas não ostentam, não botam seu dinheiro no sol para brilhar e ofuscar os outros. O dinheiro tem que ser elegante como o seu dono. Ninguém precisa lidar com o dinheiro como se fosse um bicheiro." (Trecho da crônica "O dinheiro que grita")

"Só mesmo passando uma longa temporada num mosteiro do Tibete para desenvolver a capacidade de aceitar tudo o que nos tira do sério. Seu filho indiferente, seu marido pão-duro, sua mãe mal-humorada, sua amiga carente, seu chefe durão, seu zelador folgado, sua irmã fofoqueira, seu colega chatonildo - imagine que paraíso se pudéssemos relevar essas e tantas outras diferenças, comungando com os defeitos alheios sem nunca mais esperar que os outros mudem. Deixar de esperar é uma libertação." (Trecho da crônica "Apegos")

A Graça da Coisa não é nem de longe o melhor livro de Martha Medeiros. Mas, certamente, após sua leitura, você será irremediavelmente fisgado pela escrita displicente e saborosa dessa autora sensível, que consegue extrair do mais espinhoso tema a mais doce essência.

Autor: Martha Medeiros
Páginas: 215
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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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