3 de fev de 2014

A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino




Escrever sobre A Grande Beleza (La Grande Bellezza, no original) , filme italiano dirigido por Paolo Sorrentino e indicado ao Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro, é algo bem difícil para mim por um motivo muito simples: não consegui assistí-lo com distanciamento crítico. A história do bon vivant que não consegue mais escrever por não enxergar beleza no mundo me tocou de tal forma que fiquei paralisado vendo os créditos finais rolarem na tela. "Sem palavras" foi o frase que usei para descrever o filme e encontrar palavras para descreve-lo é o que tento fazer agora.

O filme é todo feito de opostos. Começamos acompanhando um grupo de turistas maravilhados com a arquitetura clássica de Roma e, simultaneamente, vemos a festa de 65 anos do protagonista Jep  Gambardella em uma cobertura moderna, repleta de gente esquisita da alta sociedade romana dançando ao som da versão de Bob Sinclar para o clássico italiano A Far  L'Amore Comincia Tu. Essa dualidade entre a Roma turística que encanta pessoas do mundo inteiro e a decadência da Roma atual repleta de pseudo-intelectuais sem perspectivas nenhuma é mostrada de forma poética, com imagens fortes e um texto contundente que foge do óbvio ao não ser extremamente depressivo ou panfletário. Não me parece que Sorrentino quer mudar o mundo (ou Roma) mostrando a banalidade das pessoas que vivem na cidade, mas senti como se ele estivesse pedindo para olharmos mais atentamente para o mundo que nos cerca.



"A descoberta mais importante que eu fiz alguns dias depois de fazer 65 anos é que não posso perder tempo fazendo coisas que eu não quero fazer."
Repleto de momentos que beiram o absurdo, e ainda assim fazem todo o sentido do mundo, A Grande Beleza ganha muitos pontos devido a interpretação de Toni Servillo, que mantém o ar blasé enquanto vê as tentativas desesperadas das pessoas que o cercam para se expressar. Pode ser uma stripper de quarenta e poucos anos tentando tirar a roupa de forma refinada, ou uma atriz se atirando contra uma parede, ou até mesmo uma girafa em um truque de mágica, nada o surpreende, nada o comove. É uma atuação precisa e que transparece muita emoção até mesmo no tédio.

A fotografia do filme também merece aplausos e não poderia ser diferente em um filme que fala sobre buscar a beleza nos momentos mais banais da vida. Aqui, cada enquadramento é uma obra de arte. As panorâmicas da cidade são deslumbrantes, os movimentos de câmera sutis que, aos poucos, revelam a grandiosidade que cerca os personagens impressionam. Meu "quadro" favorito é o do padre em um balanço no meio de um campo. Simples, mas belo.

Gostei tanto desse filme por isso. Ele é simples e belo. Profundo. Crítico. Sensível. Intelectual. Político. Humano. É um filme que merece ser visto.
"Quando, na juventude,  me perguntavam: o que há de mais belo na vida? E todos respondiam: a buceta. Somente eu respondia: o cheio das casas antigas. Eu estava condenado a sensibilidade!"

Leandro Faria  
Michael Oliveira, santista caiçara que abandonou a praia para tentar a sorte na cidade grande. Em São Paulo descobriu que Steven Spielberg não é Deus e que a Cultura Pop vai muito além das terras do Tio Sam. Atualmente consome tudo o que pode e tal qual Galactus está sempre em busca de novos universos que possam saciar essa fome eterna.
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