19 de fev de 2014

Ela, de Spike Jonze





Há pouco mais de 10 anos, causava estranheza afirmar que se conheceu alguém pela internet e que se estava namorando por causa disso. Hoje, entretanto, a internet é apenas mais um meio de se conhecer pessoas e de se relacionar com elas. Dessa forma, é com absoluta naturalidade que podemos assistir ao filme Ela (Her, no original), sem achar que sua premissa possa soar absurda. Afinal, pelo andar da carruagem, quem garante que não será possível em um futuro próximo um sistema operacional como Samantha, a grande estrela do filme?

Escrito e dirigido por Spike Jonze (de obras como Quero Ser John Malkovich, de 1999, e Adaptação, de 2002), Ela se passa em um futuro não especificado, mas bastante parecido com os dias atuais. É nessa realidade que conhecemos Theodore, que trabalha como escritor de cartas para desconhecidos e que nunca superou o fim de seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Com o lançamento de um novo sistema operacional baseado em inteligência artificial, Theodore acaba se vendo envolvido com Samantha, a voz desse programa (uma espécie de Siri, da Apple, de última geração), acabando em uma inusitada história de amor para ambos.

Parece muita viagem lendo apenas essa pequena sinopse, mas o filme é de uma poesia incrível. Quase um tratado sobre a solidão e o egoísmo humano, Ela usa a relação homem-máquina para falar de sentimentos e da experiência que é ser humano, sendo impossível não se colocar no lugar de Theodore em diversos momentos da projeção.


Pausa necessária. Theodore não é nenhum exemplo de homem bem sucedido e que sirva de inspiração. Pelo contrário, o personagem é chato, bobo e, muitas vezes, tremendamente infantil. Mas, quem de nós não é assim vez ou outra, tornando-nos até mesmo prisioneiros de um passado que existe apenas na nossa cabeça? Quantas vezes não ficamos presos em nossas cascas, não permitindo que as pessoas reais se aproximem, continuando mergulhados em experiências virtuais? Não dá para condenar Theodore, exatamente por ele ser um homem falho como qualquer um de nós. 
"O passado é só uma história que contamos para nós mesmos..."
Vivido por Joaquin Phoenix com grande entrega (e um bigode ridículo), Theodore é um homem perdido em si mesmo e nas lembranças que guarda consigo. Exatamente por isso, é fácil para nós embarcarmos na história de Ela, mesmo sabendo que, pelo menos atualmente, seria impossível que aquilo acontecesse (será?). A carência de Theodore, aliada à grande empatia desenvolvida com Samantha tornaram palpável (e agradável) a experiência vivida por ambos e acompanhada por nós.

Sendo assim, é impossível falar de Ela, sem citar o excelente trabalho feito por Scarlett Johansson. Inserida de última hora no projeto (a atriz inglesa Samantha Morton já havia gravado todo o filme como a voz de Samantha e acabou sendo dispensada para dar lugar à Scarlett), a atriz certamente vive uma de suas melhores atuações, ironicamente, sem aparecer em nenhum momento na tela. O aprendizado constante de Samantha, seu envolvimento com Theodore, o ciúme e todos os sentimentos que a atriz passa apenas com a voz (entrecortada aqui e ali por algum "ruído mecânico" ao final, em um trabalho de edição de som perfeito) é de um preciosismo incrível e serve para que nossa experiência com o filme seja ainda mais envolvente.


Claro que tudo isso se deve à boa mão do diretor Spike Jonze, que surpreende com um roteiro crível (e que está sendo acusado de plágio), apesar de se passado em uma outra realidade, e com um trabalho de direção bastante competente. Se a dublagem de Scarlett Johansson está sendo elogiadíssima, a atuação de Joaquin Phoenix é econômica e certeira, ao passo que Rooney Mara e Amy Adams (que brilha também em Trapaça, outro dos indicados ao Oscar e já conferido por nós do PdB) é bastante consistente e coerente com a trama apresentada.

Indicado ao Oscar 2014 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção e Melhor Canção Original (pela encantadora The Moon Song, de Karen O), Ela é, certamente, um belíssimo filme. 

Mais do que isso, Ela é uma experiência envolvente, que o fará sair do cinema com questionamentos diversos sobre o seu próprio cotidiano, o que é um feito e tanto para um filme que pode ser taxado por muitos como "apenas" um sci-fi romântico. 

Tolos os que pensam assim e não se deixam envolver pelo magnetismo e por toda a poesia que o filme traz de maneira tão singela e sutil, que apenas aqueles que se permitirem, poderão ser tocados.
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Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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