24 de mar de 2014

Pop 5ive: Personagens Gays Marcantes das Novelas




Já estava com saudade da minha coluna preferida! E o assunto de hoje é algo que sempre rende longos e bons papos, ou não: novela e a sexualidade alheia. Com essa onda de casais do mesmo sexo dominando a cena nas atual e anterior das novelas das nove, acho que nada mais oportuno e gostosinho pra passar o tempo que listar as cinco novelas que tiveram os personagens gays mais cativantes na história de nossa teledramaturgia. 

Como bom noveleiro que sou, não deixaria passar essa oportunidade, ainda mais depois do sucesso absoluto de Félix e Niko em Amor à Vida (2013) que, acho eu, dificilmente será superado por Clara e Marina, de Em Família (2014).

A história teledramatúrgica da nossa TV está cheia de personagens homossexuais, de todos os tipos, cores e tamanhos, do caricato ao enrustido, do afeminado ao másculo, homens ou mulheres. Sempre tivemos gays pra todos os gostos na telinha, muitas vezes amados, tantas outras odiados. O fato é que para o bem ou para o mal, tais personagens quase sempre rendem ótimas tramas com situações e diálogos ora hilários, ora emocionantes, mas sempre envolventes.

Antes mesmo de eu nascer (sou praticamente um baby) já haviam tramas abordando, ainda que sutilmente, o tema homossexualidade nas novelas. Como, por exemplo, em O Rebu (1974) e o personagem Conrad Mahler, vivido por Zimbinski; ou em Brilhante (1981), onde Dênis Carvalho dava vida à Inacio Newman. Ainda criança, sem ter muita noção de nada, foi exibida, em 1986, Roda de Fogo, em que Cécil Thiré fazia o vilão enrustido Mário Liberato, e Vale Tudo, de 1988, apresentava o casal lésbico Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin). A partir dos anos 1990 e 2000 (já mais espertinho), surgiram muitos personagens LGBT's em nossas novelas, aliás, uma curiosidade interessante, é que nos anos 2000 todas as novelas das 19 horas, com exceção de Guerra dos Sexos (2012), tiveram pelo menos um personagem "colorido".

Obviamente gostei de muitos desses gays, sapatinhas, trans e travestis desde os anos 90, como por exemplo a transexual Ramona (Claudia Raia em As Filhas da Mãe, de 2001); Uálbert Cañedo (Diogo Vilela) e Edilberto (Luís Carlos Tourinho), em Suave Veneno, de 1999; Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), em América, de 2005; Samovar (Cássio Scapin) e Dona Roma (Miguel Magno), de A Lua me Disse, de 2005;  Zé Maria (Guilherme Piva), em Xica da Silvade 1996; Nirdo (Guilherme Piva), de Pé na Jaca, de 2006; Rafael, em Por Amor, de 1997; o núcleo de Insensato Coração, em 2011; Stela (Paula Burlamaqui), de A Favorita, em 2008; e Miss Pirangi (Gero Camilo) em Gabriela, de 2012. 

De outros não gostei tanto, como o Crô (Marcelo Serrado) em Fina Estampa, de 2011; Bernardinho (Thiago Mendonça), de Duas Caras, em 2007; Marcelo (Thiago Picchi) e Rubinho (Fernando Eiras), em Páginas da Vida, de 2006; e Orlandinho (Iran Malfitano) em A Favorita, de 2008. 

Em minisséries também tivemos personagens memoráveis como Cintura Fina (Matheus Nachtergaelle) em Hilda Furacão, de 1998; e Benny (Guilherme Weber), de Queridos Amigos, em 2008.

Mas como sempre tem aqueles que tocam a gente de um jeito especial, o Pop 5ive hoje é deles:

Sandro e Jeferson (A Próxima Vítima / 1995)

Eu tinha 14 anos e estava no turbilhão de uma adolescência cheia de tentações, medos e dúvidas. A novela das 8 era A Próxima Vítima, uma trama de suspense policialesca onde, entre um assassinato e outro, o autor Sílvio de Abreu contava de forma discreta e delicada o romance de Sandrinho (André Gonçalves) e Jeferson (Lui Mendes), numa época em que as pessoas não eram tão abertas a histórias homo-afetivas e o preconceito ainda era mais forte do que hoje. 

Mas Sílvio e sua equipe (Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira) souberam conduzir muito bem a trama dos meninos apaixonados que tiveram de enfrentar o preconceito e a rejeição da família de Jeferson - a primeira família de negros de classe média bem sucedida, retratada em novelas no Brasil - pra ficarem juntos. 

Lembro que em casa não se fazia nenhum comentário à respeito, mas aquela trama gay mexia muito comigo. Secretamente eu torcia desesperadamente pelos dois garotos, em silêncio, com uma felicidade contida, por ver meus sentimentos retratados com tanta dignidade no horário nobre. Pra quem não viu ou quer rever, a novela A Próxima Vítima está sendo reprisada no canal Viva, de segunda à sábado às 14:30.

Clara e Rafaela (Mulheres Apaixonadas / 2003)

Com toda a delicadeza e elegância que lhe é peculiar, Manoel Carlos retratou em sua Mulheres Apaixonadas o amor lésbico de duas lindas adolescentes: a bela e superprotegida Clara (Aline Moraes) e a segura e independente Rafaela (Paula Picarelli). 

Em meio ao bullying escolar, com direito a barracos homéricos entre Clara e a detestável Paulinha (Ana Roberta Gualda), e a marcação cerrada da ultra preconceituosa mãe de Clara, fomos brindados com um romance puro e cheio de ternura entre duas meninas doces e apaixonadas que cativaram o público.

Cássio (Caras & Bocas / 2009)

O que mais me fascinou nesse personagem de Walcyr Carrasco, foi a naturalidade e a verossimilhança que o ator Marco Pigossi deu ao seu pintoso Cássio. Em tempos onde gays afeminados demais são achincalhados pelos "discretos" que abominam os caricatos, Marco Pigossi acertou o tom exato do carismático Cássio, certamente muito bem conduzido pelo diretor Jorge Fernando. 

Ele me conquistou, subindo no meu conceito como um excelente ator. Tão boa era sua interpretação, que era difícil de acreditar que Marco não era daquele jeito. Pintoso, fashionista, apaixonado pelo luxo e pelo glamour, baladeiro e dono de um vocabulário cheio de bordões deliciosos como "cho-quei" e "fiquei rosa-chiclete", Cássio foi comendo pelas beiradas e viu sua história crescer consideravelmente, passando por uma fase hétero onde teve um divertido romance com a "perua" Léa (Maria Zilda Bethlem) e terminando a trama nos braços do milionário e cobiçado André (Ricardo Duque). 

Cássio era leve, solar e sem dramas, por isso tenho um carinho especial por ele. É daqueles personagens que dá vontade de levar pra casa. E pode ser conferido mais uma vez no Vale a Pena Ver de Novo, da Globo.

Eleonora e Jenifer (Senhora do Destino / 2004)

Nesse grande sucesso de Aguinaldo Silva, acompanhamos outro sofisticado romance lésbico, dessa vez entre a madura médica Eleonora (Mylla Christie) e a jovem estudante Jenifer (Bárbara Borges). 

Lésbica bem resolvida, Eleonora se encanta pela meiga e ingênua Jenifer, ainda não muito segura de sua sexualidade. Ironicamente, quando resolvem assumir sua paixão, a família de Jenifer, que foi a que mais sofreu pra se aceitar, encara sem dramas o relacionamento da garota, que é filha do inesquecível bicheiro Giovanni Improtta (José Wilker), enquanto que a família de Eleonora, que sempre foi forte e segura, vem abaixo, pois ela nunca se assumiu perante os pais, devido ao machismo e moralismo exacerbados do pai Sebastião (Nelson Xavier). Ela então rompe com a família e vai viver com Jenifer. Ao final reconciliada com o pai e feliz no amor, Eleonora e Jenifer adotam um filho. 

A química entre Mylla e Bárbara foi linda de se ver e a elegância natural de Mylla Christie com o frescor de Bárbara Borges foi um plus ao casal homo-afetivo de Senhora do Destino.

Julinho, Thales e Osmar (Ti Ti Ti / 2010)

Confesso que minha medalha de ouro vai para os personagens extremamente bem escritos e conduzidos por Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari e maravilhosamente defendidos por André Arteche, Armando Babaioff e Gustavo Leão (em participação mais que especial) no saborosíssimo remake de Ti Ti Ti

Sou suspeitíssimo pra falar deles, porque pra mim são os melhores personagens gays de toda a teledramaturgia brasileira. Talvez seja um exagero da minha parte, mas não se trata de lógica, mas de emoção. 

O texto de Adelaide e Vincent por si só já é rico e requintado e, quando se trata de uma trama gay, recebe um tratamento todo especial. Maria Adelaide Amaral é uma autora sensível e inteligentíssima e o jovem Vincent Villari um enfant terrible, com grande futuro pela frente, que não só fizeram uma nova versão personalíssima de um grande sucesso do passado, como retrataram com muito cuidado e carinho o amor entre homens. 

Primeiro, Julinho (André Arteche) vivia feliz ao lado de seu querido Osmar (Gustavo Leão) em Belo Horizonte, longe da família do segundo, que vivia em São Paulo e não sabia de sua condição sexual, mas depois de um grave acidente de carro, Osmar morre, deixando Julinho desolado e só no mundo, pois Osmar era toda sua família. Porém Julinho é acolhido pela família de Osmar, que acredita que ele era apenas um grande amigo de seu filho. Quando a verdade vem à tona, o drama se instala em toda a família, abalando a bonita relação que se criou entre Julinho e sua "sogra" Bruna (Giulia Gam), que não aceita a história de amor entre este e seu filho Osmar. Depois de acalmados os ânimos, o amor e a paz reinando entre Bruna e Julinho novamente, e o luto da perda de seu companheiro sendo amenizado, Julinho começa a sentir falta de um novo amor, o que o leva a se envolver emocionalmente com o dr. Eduardo (Josafá Filho), que torna-se um grande amigo e confidente, mas na verdade é hétero, deixando o coração de Julinho partido. Até que surge o belo Thales (Armando Babaioff), com quem Julinho se envolve numa relação complicada e tumultuada, cheia de meandros e, no fim, revela-se um novo grande amor em sua vida. 

Sem beijo no final, mas com muitas cenas de carinho explícitos e olhares cheios de paixão, Julinho e Thales é o meu casal gay mais marcante e inesquecível das novelas.
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E os seus personagens LGBT's prediletos, quem são?
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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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