26 de abr de 2014

7 Caixas, de Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori




7 Caixas (7 Cajas, no título original), o filme de maior influência do Paraguai lançando em 2012, chegou nesta última semana ao cinemas tupiniquins. É um filme urbano, movimentado, que conta com um dinâmico (mais não excessivo) trabalho de câmera e que fisga fácil o espectador com sua bem azeitada mescla de gêneros.

O longa conta a história de Victor (Celso Franco), um rapaz de 17 anos que trabalha como carregador no Mercado 4, a mais movimentada feira da capital do Paraguaia, Assunção. A trama se desenvolve no sonho do protagonista em ser famoso, ser filmado e aparecer na TV, assim como os astros de cinema que idolatra. Por isso, o rapaz vê num celular com câmera a oportunidade de ser gravado, aproximando-se assim do seu sonho de Hollywood. Sem ter dinheiro suficiente para adquirir o aparelho que lhe permitira realizar seu sonho, Victor aceita realizar a entrega de sete caixas, sob a promessa de ganhar 100 dólares como recompensa.

Daqui em diante a trama se envereda pelo suspense, que envolve o carregamento misterioso, e ação, proveniente de uma perseguição frenética pelos corredores do mercado. Com a ajuda de sua amiga Liz (Lali Gonzalez), Víctor se empenha em proteger as caixas e garantir seus US$ 100, mas aos poucos vai descobrindo que a tarefa não vai ser nada fácil – há outros interessados no carregamento. 




O que faz 7 Caixas funcionar é que todos os aspectos estão a serviço do excelente roteiro, que junta ironia, crítica social e reflexão sobre o poder da imagem; tudo muito bem amarrado num pacote feito para agradar tanto o espectador que busca apenas diversão quanto aquele que quer algo mais.

O longa é dinâmico e conta com excelentes atuações, trilha sonora esperta, que mistura música eletrônica com ritmos locais. A fotografia, a cargo de Richard Careaga, que colocou câmeras no protagonista e no carrinho, tem a agilidade e a “sujeira” adequadas para esse tipo de proposta. A decisão de filmar tudo em locação dá mais autenticidade, assim como os diálogos, que mesclam guarani e espanhol. Os personagens maus são estereotipados, mas isso faz parte da visão irônica dos seus criadores.

Esta é uma história ambientada no Paraguai, mas que poderia facilmente ser contada numa grande cidade brasileira. Victor é um menino pobre atrás da sobrevivência diária, enquanto sonha com dias melhores. Como muitos, tanto lá quanto aqui, vive próximo da fronteira com o crime e, muitas vezes, cruza a linha por pura inocência ou por estar na hora e lugar errados. 


De tomadas nervosas e estética febril, 7 Caixas não se perde em situações banais e segue numa lógica coerente, apesar da enorme quantidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo: crimes, perseguições, subornos, brigas, romance e até mesmo um parto. O caos urbano é refletido na dinâmica agitada e o filme consegue captar muito bem a desarrumação perturbadora da vida numa grande capital do Terceiro Mundo.

O filme possui uma proposta audaciosa: utilizar os moldes da indústria americana de produção, subvertendo seus valores e realizando uma abordagem crítica à pretensa soberania dos Estados Unidos a todo o sistema de comércio mundial. O recurso que melhor ilustra essa perspectiva é a cédula de 100 dólares, que é rasgada duas vezes durante o longa.

Com uma estrutura muito bem arrumada, o filme certamente agradará ao grande público, desde os que procuram apenas um entretenimento simples e descompromissado, quanto aos mais críticos à sétima arte. Vale a pena conferir.

Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
FacebookTwitter

0 comentários:

Share