6 de jun de 2014

The Normal Heart, de Ryan Murphy




Ao terminar de assistir The Normal Heart eu só tinha uma certeza: precisava escrever sobre ele. Despejar minhas impressões, expor minha análise de telespectador mediano, soltar na tela em branco o aperto no peito e o nó na garganta que o filme de Ryan Murphy me causou. E eu queria fazê-lo muito, logo, tinha urgência de dividir com vocês, queridos leitores, o impacto e as emoções que a história me provocou. Mas um filme como esse é impossível de ser analisado (por mais simples que seja essa análise) de bate e pronto.

The Normal Heart é um filme que precisa ser digerido lentamente, a cada cena assistida e, mais ainda, após os créditos finais. É um drama feito para a televisão, dirigido por Ryan Murphy, o pai das séries de sucesso Glee American Horror Story, também diretor do "água com açúcar" Comer, Rezar, Amar (2010) com Julia Roberts. Só que agora Murphy pega pesado no drama e nos dá um soco na boca do estômago com seu mais recente trabalho, que estreou no último dia 31 de maio no canal por assinatura HBO.

Pois bem, após alguns dias digerindo The Normal Heart já me sinto bem pra escrever sobre ele, pois conforme um dos muitos comentários que li sobre o filme "ele te mastiga e depois te cospe" e eu acrescentaria a frase: completamente mexido e atordoado. Estando eu então, devidamente cuspido, devo dizer que, primeiramente, o que te chama a atenção no longa é seu extraordinário elenco. O diretor conseguiu reunir uma verdadeira constelação para contar uma história baseada em uma peça teatral de mesmo nome escrita por Larry Kramer em 1985.


Estrelam o telefilme Julia Roberts, Mark Ruffalo, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina e Jonathan Groff. Todos em atuações impecáveis, num drama que trata do auge da disseminação do vírus HIV, quando este ainda nem tinha nome, na Nova York do início da década de 80.

Em 1981 os nova iorquinos gays vivem um desbunde homossexual. O escritor e ferrenho ativista Ned Weeks (Ruffalo) vai passar um fim de semana com amigos em uma "praia gay". Lá é recepcionado pelo melhor amigo Bruce Niles (Taylor Kitsch) e seu namorado Craig Donner (Groff); o velho amigo Mickey (Joe Mantello), um gay mais coroa com barba e cabelos grisalhos, também está lá. O fim de semana é de liberação total, muitos corpos sarados e festas regadas à muita bebida e orgias sem fim.

Nesse cenário, Ned, que diferentemente de seus amigos não se entrega aos prazeres desenfreados da carne, pois faz uma linha mais "sou sério, não curto promiscuidade e acho que vocês se excedem demais...", presencia juntamente com seus amigos o primeiro sintoma da AIDS se manifestar em Craig, que sente tonturas e mal-estar à beira-mar. Logo em seguida, Craig morre em decorrência da doença, encerrando a participação especial de Jonathan Groff e iniciando a jornada de Ned e seus companheiros por um maior entendimento sobre o vírus e pra despertar o interesse do governo em estudar um tratamento adequado, quiçá uma cura para o chamado câncer gay.

Julia Roberts faz a empática dra. Ema Brookner, cadeirante que trata dos muitos primeiros pacientes que aparecem com os sintomas, mas completamente no escuro também não sabe do que se trata tal vírus. A eterna linda mulher, bendito o fruto entre tantos atores lindos e talentosos, faz uma interpretação segura e madura de uma médica que enfrenta o drama silencioso e angustiante de nada poder fazer para salvar seus inúmeros pacientes condenados à morte.

Mark Ruffalo (o homem dos meus sonhos), na pele de seu incansável e inconformado Ned Weeks, mais bonito e elegante do que nunca, está feroz e intenso numa composição perfeita e extremamente natural. Ora nos fazendo ficar à seu favor, ora contra, em seus posicionamentos intensos e radicais.

Matt Bomer, de tão lindo que é não precisava fazer muito. Bastava apenas uns bons closes de seu belo rosto e seus faiscantes olhos azuis em suas cenas e já estaria maravilhoso. Mas ele vai muito além de sua beleza estonteante e nos entrega uma das interpretações mais sensíveis e difíceis do longa, como Felix Turner, o grande amor de Ned, que também se descobre infectado. E juntamente com Ruffalo, arrasa em uma cena de sexo de extrema sensualidade e bom gosto.

Jim Parsons, com sua eterna cara de nerd bobão, consegue se desvencilhar de Sheldon Cooper, compondo seu Tommy Boatwright com uma serenidade extrema em meio à uma desesperadora mortandade de amigos queridos. É dele, aliás, uma das falas mais simples e mais dilacerantes do filme, quando em um discurso de despedida num dos muitos velórios que comparece, ele se pergunta por que o governo está deixando que eles morram, e ele mesmo responde em prantos: "...porque eles não gostam de nós." Simples e cruel.

E com esse elenco de encher os olhos e a alma, somos enredados em uma trama que nos dá um respiro mais leve nos momentos românticos do casal protagonista Ned e Felix e nos situa no dramático e efervescente momento através de uma nostálgica trilha-sonora (aquela delícia do finalzinho dos anos 70 e comecinho dos 80).


The Normal Heart é uma experiência muito particular pra cada um. Em mim desencadeou uma série de questões dolorosas. A principal delas é o tamanho da maldade humana em se tratando da falta de empatia, e o ódio ao diferente e àqueles que vivem a plenitude de sua liberdade, a capacidade de um governo simplesmente ignorar uma epidemia assustadora só porque ela atinge apenas uma pequena camada da população que "fez por merecer" tal tragédia. E em nenhum momento me senti imune a esse tipo de atitude por estar vivendo em 2014, muito pelo contrário. Trinta e dois anos se passaram, eu nascia exatamente no mesmo ano em que todo esse movimento de luta contra o desprezo e a indiferença governamental aos doentes de AIDS (apenas e tão somente porque estes eram gays, num primeiros momento) começava a se manifestar. E se eu tivesse nascido não em 1981, mas em 1951 ou 1961? E hoje o ódio e a indiferença podem ter diminuído minimamente, mas continua firme e forte por meio de outras vertentes. 

Não consigo ver The Normal Heart com o distanciamento de uma outra época. Tudo está muito presente, muito vivo ainda: preconceito, ódio, homofobia. Fiquei dilacerado porque simplesmente não me conformo, assim como Ned Weeks, que os humanos ainda se recusem a agir como humanos. E você também se sentirá como eu, se tiver um coração normal.

Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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1 comentários:

prof pierre Cmpa disse...

"The Normal Heart"(EUA,dir.Ryan Murphy, 2014), que acabo de assistir,um filme sobre a gênese da AIDS/HIV na Nova Iorque dos anos 1980 é uma das experiências estéticas mais contundentes que tive em minha vida.

Baseado numa peça teatral escrita por Larry Kramer em1985, nos narra as lutas políticas sobre o então "câncer gay". Os regimes de verdade produzidos sobre a epidemia; as dificuldades da comunidade gay em abdicar de sua liberdade sexual tão duramente construída, em prol da contenção da doença; a negligência do poder público diante da questão proposta pelas lideranças gays protagonistas do filme.

É preciso sublinhar que "naquele momento histórico, silêncio, armário e vergonha significavam morte", lembra o diretor, a partir das conversas que teve com o roteirista Larry Kramer, que fez a obra com tons assumidamente biográficos.A atuação do Comitê da Crise da Saúde dos Homens Gays, fruto dos movimentos sociais pelos direitos civis homossexuais estadunidenses na década de 1980.

"Os tempos mudaram, mas a discussão sobre a epidemia global da Aids é ainda tão importante e contemporânea quanto o debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a luta por termos, todos nós, o direito de sermos amados e aceitos como cidadãos, independentemente da afetividade sexual. A História provou que Larry estava certo. De herético, ele se transformou em um dos heróis do movimento pelos direitos civis dos gays nos EUA", nos diz Murphy."

"The Normal Heart" é uma sequência de imagens sobre a vida, a morte, a vulnerabilidade, o governo e os governamentos dos corpos, da saúde coletiva ... mas também dos silêncios, dos "armários" que sujeitam, das lutas dos movimentos sociais e as tensões dentro dos próprios grupos societários com "identidade" de gênero e de orientação sexual... não bastasse tudo isso, é uma bela narrativa sobre o amor que OUSA dizer seu nome, fazendo um trocadilho com a célebre citação de Oscar Wilde.

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