26 de jul de 2014

#BaúPop: C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor




Muito antes de concorrer ao Oscar 2014 com Clube de Compras Dallas, o diretor Jean-Marc Vallée foi o responsável pelo tocante e emocional C.R.A.Z.Y - Loucos de Amor, de 2005, um filme canadense, falado em francês e rodado em Quebec.

C.R.A.Z.Y. conta a história de Zachary Beaulieu, que cresce na turbulenta Quebec dos anos 1960/1970. Sendo o quarto filho de um pai com "mais do que o nível normal de hormônios masculinos" e criado entre outros quatro irmãos, todos homens, Zac luta para definir sua própria identidade e lidar com o conflito entre sua emergente sexualidade e seu intenso desejo de agradar a seu rigoroso, temperamental e conservador pai, Gervais Beaulieu, que seria considerado como homofóbico até nos dias de hoje.

No dia 25 de dezembro de 1960 Zac nasce. Sua infância é marcada por aniversários natalinos e lúdicos passeios de carro com o pai. A relação com Gervais é repleta de carinho e cumplicidade, o pai tem de fato um afeto especial pelo garoto, mas tudo muda quando Zac é flagrado por ele brincando com o bebê Yvan, o caçula da família, vestido com roupa, sapatos e acessórios da mãe, Laurianne. Neste episódio, Zac tem apenas seis anos, mas sente a rejeição imediata que o pai passa a dispensar a ele.

Na adolescência, tentando sufocar sua natureza pra não decepcionar o pai, Zac se torna um confuso e belo rapaz, que passa o tempo ouvindo seus discos favoritos, fumando maconha escondido e andando de motocicleta. Perdido, ele não sabe o que fazer pra disfarçar seus desejos, chegando até mesmo a espancar um colega de escola que demonstra interesse por ele, e travar um namoro com a melhor amiga, Monique. Mesmo assim, não consegue parar de pensar no namorado de uma prima, que conheceu em uma festa de família e passou a povoar todas as suas fantasias desde então.


Sentimos toda a angústia e o ressentimento de Zac por não poder ser quem ele é e ainda assim não conseguir suprir plenamente todas as expectativas do pai, pois o próprio acaba sentindo, de um jeito ou de outro, que tudo o que Zac faz é um grande teatro. Mas as intenções de Zac são as mais sinceras possíveis, ele quer que o pai se orgulhe dele e volte a amá-lo como um dia o amou quando era criança, incondicionalmente.

E assim, acompanhamos a história da família Beaulieu, desde o nascimento de Zac até seus 30 anos. Uma família numerosa, cheia de altos e baixos, com seus conflitos, crenças, brigas, comemorações, mágoas, mas acima de tudo repleta de amor, que luta pra se manter unida apesar de todas as diferenças. C.R.A.Z.Y  não é um filme sobre homossexualidade, é um filme sobre família e esse sentimento poderoso que a torna quase indestrutível. É sobre um filho que ama seu pai profundamente e sobre um pai que não consegue deixar de amar seu filho, mesmo que tente, mesmo sem conseguir entender seus sentimentos.

Além do roteiro, direção, produção, execução e figurinos (em especial do protagonista, super estiloso) maravilhosos, C.R.A.Z.Y. possui uma trilha-sonora que é uma personagem a parte. Nada seria tão especial em C.R.A.Z.Y. se não fosse sua trilha arrebatadora, que é parte fundamental do filme. Seu título, inclusive, é inspirado em uma canção de Patsy Cline, grande diva do pai de Zac, que coleciona todos os seus discos. E um dos grandes conflitos entre pai e o filho, aliás, é quando, revoltado pelo desprezo de Gervais, o menino destrói um de seus discos favoritos, que inclui a canção Crazy (regravada anos depois por Julio Iglesias, e que fez parte da trilha da novela A Viagem, lembram?). Um dos momentos mais emocionantes do filme é quando entendemos o porque de Gervais ser tão apaixonado por Patsy Cline e sua Crazy, e o título se justifica lindamente.


Outro momento que mexeu demais comigo, particularmente, é uma cena solo de Zac, em que pra fugir de seu desassossego, ele se fecha no quarto e mergulha em seu mundo perfeito, pintando o rosto como David Bowie e dublando sua música preferida, Space Odity. Quem nunca?

Parte considerável do orçamento do longa foi gasta adquirindo direitos para ter essas músicas maravilhosas na trilha. Além de Patsy Cline e David Bowie, ouvimos também durante a projeção Charles Aznavour, Pink Floyd e Rolling Stones.

Apesar de pouco conhecido, C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor é um grande filme, de final belíssimo, pra assistir com toda a família. Se ainda não viu, não perca mais tempo e corra atrás dessa preciosidade.

Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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1 comentários:

Marcelo disse...

Bacana ver alguém falando sobre C.R.A.Z.Y. De fato é um filme muito pouco conhecido, mas que vale a pena ser descoberto.
A primeira vez que eu assisti, eu ainda locava filmes e este foi descoberto por acaso na prateleira de cults. Hoje eu já o tenho na minha coleção e devo ter assistido pelo menos três vezes.
Que mais pessoas possam descobrir esta preciosidade.

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