16 de jul de 2014

Pop 5ive: Personagens Chegados na Manguaça




Em Família está em sua última semana (Deus seja louvado!!!), e a última novela de Manoel Carlos será lembrada como uma de suas tramas mais pífias. Ainda que os núcleos não passassem de mais do mesmo, Maneco sempre soube, com maestria, reciclar suas histórias e prender o público na frente da televisão. Dessa vez não conseguiu. Tudo na (ainda) atual novela das nove ficou muito aquém do esperado. Um enorme clichê, de quase tudo que já foi visto em suas tramas (e também na de outros autores). Chato, chato, chato! Cardápio requentado da pior qualidade.

Além do casal de lésbicas, mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem, a mulher desesperada pra ser mãe, a doença de um personagem importante e consequentemente os médicos com seus conflitos pessoais, o merchandising social em cima do racismo e de uma doença degenerativa, também não podia faltar o "bom" e velho alcoolismo, sempre tão presente nas crônicas cotidianas de Maneco em outras novelas e que já renderam ótimas tramas, personagens e cenas antológicas. Por isso, nada mais justo, é esse o assunto de nosso Pop 5ive de hoje.

Já que Felipe (Thiago Mendonça), o alcoólatra da vez, é bem sem graça, eu fiquei pensando em outros personagens que eram chegados numa birita e que foram inesquecíveis. Decidi então, fazer nossa amada listinha para relembrar esses papéis defendidos com tanta dignidade por excelentes atores que, mesmo se tratando de um assunto sério e delicado, em muitos momentos nos divertiu e arrancou boas gargalhadas.

Renata (Bárbara Paz - Viver a Vida / 2009)

Começamos com uma trama de Manoel Carlos que lidera, quase absoluto, o nosso ranking. Em Viver a Vida tínhamos Renata, defendida com garra por Bárbara Paz, estreando em novelas da Globo. Ela tinha bulimia alcoólica, queria ser modelo e, pra se manter magra, trocava a comida pelo álcool, onde depositava todas as suas frustrações, como o fim de um namoro ou o insucesso na carreira. 

Com um rosto de expressão peculiar, Bárbara passava bastante veracidade em suas cenas, principalmente as de barraco. Uma estreia com o pé direito em uma das novelas menos badaladas do autor, mas sem sombra de dúvidas, bem mais marcante que Em Família.

Bira (Eduardo Lago - Páginas da Vida / 2006)

O ator Eduardo Lago esteve presente em várias novelas de Manoel Carlos, como Mulheres Apaixonadas Por Amormas foi como o alcoólatra Bira, em Páginas da Vida, que ele teve seu papel de maior destaque na Rede Globo. 

Divorciado da mulher Carmen (Natália do Vale) e ainda apaixonado, ele, que já tinha tendência ao vício, não aceita a união da ex com outro homem e perde o prumo de vez, se afundando na cachaça e provocando grandes escândalos na numerosa família de Tide (Tarcísio Meira), seu ex-sogro, chegando ao ponto de até mesmo ameaçar a ex com um revólver. Em meio a muitos barracos e dramas, Bira consegue encontrar forças no amor da filha Marina (Marjorie Estiano) para procurar ajuda e se livrar do vício. 

Páginas da Vida também foi uma novela que muito prometeu e pouco cumpriu, mas o núcleo de Bira teve tamanho destaque, que alçou Marjorie Estiano a protagonista em seu trabalho seguinte na casa, coroou Natália do Vale como a grande atriz que sempre foi e carimbou o passaporte de Eduardo Lago para a Record, onde já fez diversos trabalhos de destaque.

Santana (Vera Holtz - Mulheres Apaixonadas2003)

Vera Holtz é magnífica e, dentre a galeria de personagens marcantes que ela coleciona, Santana, a professora de geografia de Mulheres Apaixonadas, é uma das mais inesquecíveis. 

Santana era solteirona, morava sozinha e não resistia a um engasga-gato. Sempre acompanhada de seu inoxidável cantil de bolso, ela começou discretamente dando suas bebericadas inocentes, mas quando a educadora começou a cochilar na sala de aula e chegar calibrada, a coisa começou a ter contornos mais dramáticos. O ápice que desencadeou uma campanha dos colegas e alguns alunos para que a professora iniciasse um tratamento, foi quando, em uma cena antológica, Santana encheu a cara numa festa dentro da escola e deu um show à beira da piscina com direito a uma queda memorável dentro d'água. 

Apesar do excelente trabalho dramático de Vera, a personagem ganhou contornos de humor irrevogáveis quando a turma do Casseta & Planeta, à época, satirizou a personagem, rebatizando-a de Sócana.

Orestes (Paulo José - Por Amor1997)

Em um de seus últimos grandes papéis em novela, Paulo José foi o protagonista de um dos mais fortes merchandisings sociais da novela Por Amor, um grande sucesso de Manoel Carlos. 

Orestes era um pai de família desempregado, que lutava para voltar ao mercado de trabalho, mas o vício o atrapalhava e, cada oportunidade perdida de uma recolocação profissonal agravava seu problema com o álcool. Sem contornos cômicos, Orestes era um homem completamente humanizado, que carregava o drama do alcoolismo de longa data. Foi por causa dele, que a ex-mulher Helena (Regina Duarte) o deixou, e a filha Eduarda (Gabriela Duarte), traumatizada com os escândalos que o pai fazia em sua infância, cortou relações com ele. Orestes refez sua vida ao lado da batalhadora Lídia (Regina Braga), cabeleireira de Niterói, mãe de Nando (Eduardo Moscovis) e da pequena Sandrinha (Cecília Dassi), apaixonada pelo pai. Mas depois de um tempo sem emprego, Orestes passa a perder as esperanças e volta a beber. 

Dentre inúmeras cenas marcantes, as que ele quase estraga o casamento de Eduarda, pedindo perdão à filha mais velha na porta da igreja, completamente bêbado, e a que ele destrói a festinha de aniversário de Sandrinha, pondo toda a decoração e a mesa do bolo abaixo, são as mais dramáticas e deploráveis que minha memória consegue lembrar. Ótima novela, excelente personagem.

Heleninha Roitman (Renata Sorrah - Vale Tudo / 1988)

E quebrando a hegemonia de Manoel Carlos, temos, talvez, a mais emblemática das pesonagens alcoólatras em novelas. A inesquecível, impagável e absoluta Heleninha Roitman, cria de Gilberto Braga, juntamente com Leonor Basséres e Aguinaldo Silva, na já clássica Vale Tudo

Heleninha era rica, frágil, sentia-se relegada pela mãe e depressiva, além de gostar de uma bebidinha. Quando foi abandonada pelo marido, que alegou ter se casado por interesse no dinheiro dela, ficou mais íntima da bebida; mas quando descobriu que o segundo marido, por quem era apaixonada, amava outra, aí desceu ladeira abaixo mesmo. 

Heleninha tinha um perfil psicológico riquíssimo, talvez de todas, a personagem que mais tivesse motivos perfeitamente justificáveis pra encher a cara, chutar o pau da barraca e meter o pé na jaca. E ela fez tudo isso! Em meio à porres homéricos e barracos inclassificáveis, Renata Sorrah pintou e bordou na pele da pobre mulher rica, Heleninha, sempre em embates maravilhosos com Beatriz Segal, Reginaldo Faria e Antonio Fagundes, entre outros. Deixando pra sempre sua marca de estupenda atriz no rol de estrelas do Brasil. 

E pra finalizar, em homenagem a nossa bêbada mais amada: toca um mambo aí DJ, um mambo bem caliente!!!
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Agora me digam, diante do deprimente desempenho do atual alcoólico das nove: é ou não é pra sentir saudade desses adoráveis manguaceiros de outrora?

Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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