27 de jul de 2014

Primeiras Impressões: Império



Aguinaldo Silva é um autor de muitos e expressivos sucessos da nossa teledramaturgia. Ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bassères escreveu a inesquecível Vale Tudo; adaptou com maestria duas obras de Jorge Amado (Tieta e Porto dos Milagres); se inspirou na obra de Lima Barreto para criar Fera Ferida; escreveu Pedra Sobre Pedra e A Indomada, sempre brincando com o realismo fantástico herdado do mestre Dias Gomes; e foi brilhante ao abandonar a velha fórmula rural e idealizar a urbana Senhora do Destino.

Entretanto, no meio de tudo isto parecia haver uma pedra no sapato deste fazedor de sucessos. E esta pedra atendia pelo nome de Suave Veneno. A novela prometia muito, mas entregou pouco e não alcançou o mesmo sucesso e reconhecimento das outras e Aguinaldo Silva talvez nunca tenha se perdoado por isto. Ele mesmo confessara na época que não tivera tempo para criar a novela como gostaria e que faria diferente se houvesse outra oportunidade.

Quinze anos após Suave Veneno, o autor anunciara sua nova novela. Pela sinopse, muitos perceberam ecos de Suave Veneno. Estava ele tentando uma redenção? Bem, se estava, conseguiu, pelo menos no que pode ter sido visto nesta primeira semana de Império. A novela, substituta da insossa Em Família, de Manoel Carlos, surgiu ágil e com personagens em busca do poder e do amor, aqueles velhos clichês que varrem a literatura por séculos e de que Aguinaldo Silva sabe usar muito bem. Se Suave Veneno tinha como inspiração as peças Rei Lear, de William Shakespeare, e O Leão no Inverno, de James Goldman, estas mesmas obras serviram de inspiração para Império, como claramente pode-se perceber.


Entretanto, vale ressaltar, expedientes como este sempre fizeram parte da nossa teledramaturgia. A maior novelista de todos os tempos, Janete Clair, usara isso com propriedade ao incorporar à espinha dorsal de Selva de Pedra, o romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. E a trama de Romeu e Julieta é usada a exaustão até hoje por um incontável número de autores, vale salientar.

Mas, voltando à Império, Aguinaldo além de saber usar estas ferramentas, recheou a novela com uma trama ágil. Ao contrário da sua antecessora, ele centrou a 1º fase em apenas quatro enxutos capítulos, com um pequeno e seleto número de personagens. Havia apenas o núcleo Zé Alfredo de um lado, e Eliane e Cora, do outro. E, claro, ele pode contar com um time de profissionais inspiradíssimos.

Para começar, a direção escolheu o elenco a dedo, onde se destacaram os nomes de Chay Suede e Marjorie Estiano. O primeiro estava muito à vontade em cena ao encarnar a figura do nordestino ambicioso ressentido pelo desprezo de seu amor. Um achado na caracterização do seu personagem foi o sotaque pernambucano, já que, ao contrário do que muitos pensam, em cada Estado das regiões Norte-Nordeste, são bem distintos. Assim que Chay Suede, ou melhor, Zé Alfredo, abre a boca, percebe-se que ele veio de Recife na hora.


Já Marjorie provou que, se haviam dúvidas a cerca de seu talento, elas foram todas postos de lado. Sua Cora foi pérfida, dissimulada, porém sem caras e bocas. Em determinados momentos, parecia gostar da irmã, mas no fundo ela gosta é de si mesma, mas fazia isto com pequenos gestuais, comedida, coisa que só uma grande atriz poderia fazer.

Ao passar para a segunda fase, Aguinaldo Silva não apenas mostrou a que veio, mas exibiu praticamente todo seu elenco (que, ao contrário das novelas anteriores, é bem menor, o que mostra que a emissora aprendeu a lição de que gente demais trabalha menos). Ganharam merecidos espaços os filhos já crescidos de Zé Alfredo e Maria Martha, seus empregados e os vizinhos de Eliane e Cora.

Podemos ver que alguns destes personagens, por sinal, parecem ter vindo de outras novelas do escritor. O pintor que falsifica quadros é um deles. Nada que desmereça o trabalho do novelista, claro. Talvez o Théo, personificado pelo ator Paulo Betti, esteja muito forçado na caracterização, porém, se lembrarmos de várias outras novelas do referido autor, sempre existiram personagens assim. Ele mesmo já dissera que conhece muitos homossexuais com trejeitos exagerados e, talvez, ele queira homenageá-los; de qualquer forma, se aposta muito que este seja mais um personagem que caia nas graças do público assim como os demais (quem não se lembra do mordomo Crô?).


Tivemos ainda Aílton Graça, vindo com outro personagem que promete agradar muito ao público. Viviane Araújo, pelo que exibiu até agora, parece ter mesmo feito o dever de casa; sua personagem não compromete em nada. Alexandre Nero, Lília Cabral e Drica Moraes possuem papéis feito sob medida para seus respectivos talentos, principalmente Drica Moraes, que tem tudo para ser outra vilã inesquecível do autor, que já nos mostrou anteriormente ser mestre em criar mulheres sórdidas, maléficas e com eventual carisma e humor, afinal quem não se recorda de Nazaré Tedesco? Gabarito para tal empreitada a atriz tem de sobra.

E, para fechar este post, o que dizer da excelente edição de capítulos, que criou ganchos agradáveis para os seguintes? Fora a trilha sonora que vai de Cartola, Beatles, Bread e Rihanna, sendo um grande achado!

Império, a nova novela das 21h da Globo já está no ar. E, se continuar cumprindo tudo que prometeu até aqui, será uma novela imperdível!

Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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1 comentários:

Esdras disse...

Ótima resenha, Sé! Sintetizou bem o que foi a novela essa semana. Tomara que continue nesse ritmo, pois a última do Agui (Fina Estampa) foi péssima. Tbm achei Chay Suede perfeito, além de lindo e carismático, e quanto a Marjorie, eu nunca tive dúvidas de seu talento, sou louco por ela desde Páginas da Vida. Sobre Maria Marta e Cora, nesse primeiro momento me deliciei mais com a primeira e sua maldade refinada, mas tenho certeza que a segunda vai abalar as estruturas novelísticas. Gostei de Téo, apesar do exagero característico das bichas de Aguinaldo, que tanto detestei em Crô. Achei Ailton Graça e sua Xana, a cara do Lafayette de True Blood, e curti o tipo discreto e sempre sedutor de Zé Mayer na pele de Cláudio Bolgari! Acho que teremos mto pra curtir e comentar nos próximos sete meses.

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