15 de jul de 2014

Primeiras Impressões: O Rebu



O ano era 1974. O Brasil estava imerso numa terrível ditadura. A censura cada vez mais atuante. Em meio a tudo isso, Bráulio Pedroso escreveu talvez a novela mais inventiva da época: O Rebu, uma trama excepcional e, sobretudo, ousada. Durante uma festa do jet set tupiniquim, um empresário organiza um recepção em homenagem a uma princesa italiana. O que ninguém podia contar é que um crime aconteceria e todos, obviamente, são suspeitos. A novela estreava exibindo um corpo ainda não identificado sendo resgatado da piscina e depois vemos todos os acontecimentos envolvidos.

O bacana de O Rebu era que toda a história era dividida em três tempos: a festa, a investigação na manhã seguinte e flahsbacks contando os motivos que levaram cada personagem a comparecer ao malfadado evento. E toda a trama praticamente girava em torno daquela festa. Outro fator curioso é que até o capítulo 50 não se sabia nem quem havia morrido. Ou seja, além do famoso jargão do "quem matou?" havia outra pergunta no ar: "quem morreu?". Ao final, o público descobria que o verdadeiro assassino havia sido o anfitrião da festa, Conrad Mahler, motivado por ciúme. Ele matou a jovem Sílvia (Bette Mendes), porque ela se colocara entre ele e  seu amante, o jovem Cauê, interpretado por Buza Ferraz. Ou seja, fora um crime passional.

Eis que agora, quarenta anos depois, a Rede Globo refaz O Rebu.  Trazendo de volta os responsáveis pelo sucesso da minissérie Amores Roubados (o autores George Moura e Sérgio Goldenberg para a adaptação, e o comando da direção a cargo de José Luiz Villamarim), o que pode ser visto no capítulo de estreia foi que a emissora não poupou gastos nem esforços para exibir uma novela rica. Ostentação (nunca esta palavra esteve tão em voga), esmero e luxo, aliados a um elenco refinado (apenas o alto escalão da emissora), fotografia de cinema e trilha sonora perfeita deram as mãos à lúxuria, lascívia e ao suspense, claro.


Nesta nova versão temos uma anfitriã no papel que outrora havia sido de Ziembinski. Patrícia Pillar é Ângela Mahler, uma milionária que está disposta a entregar seu sócio, Braga, papel do sempre ótimo Tony Ramos, à polícia federal. Logo de imediato vemos uma Ângela tensa, amedrontada e, para quem já assistiu vários filmes de Hitchocock percebe-se que eles foram beber na fonte do mestre ao caracterizarem uma protagonista ambígua. E Patrícia mais uma vez tem um excelente papel em mãos para defender, já que ela tem uma lâmina afiada sobre a cabeça e consegue transmitir isso apenas com poucos elementos cênicos. 

Outra que também não fez feio foi Sophie Charlotte, que ainda provou que sabe cantar ao interpretar (praticamente se desmanchando em lágrimas) a canção Sua Estupidez, de Roberto Carlos, durante um determinado momento da festa. Sempre fazendo papéis parecidos, ela agora pode tentar fugir da imagem de menina chatinha, apesar que para os olhares mais desatentos, a personagem bem pode seguir seguir por esse caminho. Porém, ela não fez feio perante uma descontrolada Cássia Kis Magro, que aqui vive Gilda, o braço direito de Ângela. Aliás, Cássia Kis tem tido realmente excelentes papéis na televisão, diga-se de passagem, e este pode ser mais outro muito bem defendido por ela. Destaque também para Jesuíta Barbosa. Depois do sucesso na minissérie Amores Roubados (e no cinema com Tatuagem e Praia do Futuro), ele repete aqui o personagem que fora de Lima Duarte.


Quanto à história, o suspense do "quem morreu?" foi deixado de lado e os responsáveis pela adaptação preferiram se concentrar apenas no "quem matou?", já que esta versão será mais condensada (a original possuía 112 capítulos, contra os 36 desta). Assim sendo, vemos o corpo de Bruno, ou seja, Daniel de Oliveira, boiando na piscina da mansão de Ângela Mahler logo nos momentos iniciais da trama. Outro fator que chamou atenção, principalmente para quem conhece a trama original, foi que o romance gay foi devidamente abandonado. Entretanto, discordo de quem disse que esta trama seria conservadora. Pelo que foi exibido em seu primeiro capítulo, esta palavra não se aplica a essa nova versão de O Rebu.

É obvio que ainda é muito cedo para falar da novela baseado apenas num único capítulo, mas uma coisa a Globo deixou bem clara: quando o assunto é fazer novela, a emissora é a única que sabe realmente construir um produto de extrema qualidade e bom gosto. E se a produção de O Rebu mantiver o nível apresentado em sua estreia, vai ser bem difícil para qualquer fã de um bom folhetim ir dormir mais cedo e se desgrudar da telinha depois das 23 horas.

Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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