1 de ago de 2014

#BaúPop: (500) Dias Com Ela




Talvez esse seja o #BaúPop mais difícil para eu escrever, visto que quando gostamos demais de alguma coisa a responsabilidade aumenta e tentamos passar o mesmo vislumbre que sentimos. E (500) Dias Com Ela é, sem dúvida, um dos melhores filmes que já assisti (confesso sou fã demais do filme, daqueles que sabem todas as falas e cenas).

O filme estreou em 2009, despretensioso e irresistível, com uma temática diferente das grandes “Comédias Românticas”. Sendo um dos gêneros mais populares do cinema em todo o mundo, sempre sabemos em um filme do tipo que o casal principal, quase inevitavelmente, termina junto no final. E não nos importa que a fórmula seja sempre a mesma: rapaz conhece a garota, rapaz perde a garota, rapaz recupera a garota. Esta clássica – e cansada – estrutura é um ponto de conforto para estúdios e cineastas, que temem ousar para não correrem o risco perder a fórmula e, por consequência, os milhões de dólares. O que, usualmente, faz uma comédia romântica funcionar ou não é a química entre o casal protagonista. São raros os filmes em que algo, além disso, é oferecido. 

(500) Dias Com Ela é um deles. A obra aborda 500 dias na vida de Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), um romântico escritor de cartões comemorativos. O primeiro dia da história contada aqui é aquele no qual ele conhece Summer (Zooey Deschanel), sua mais nova colega de trabalho. Fascinado pela garota, Tom aos poucos começa a se aproximar dela, o que acaba virando uma espécie de relacionamento. O problema, para ele, é que a moça não está disposta a oficializar essa relação, o que acaba gerando problemas entre os dois. 


Primeiro destaca-se a dupla de atores principais. Gordon-Levitt e Deschanel estão extremamente à vontade em seus respectivos papéis e a química flui de maneira gostosa. Os demais personagens são adereços que conduzem a história, mas ainda assim tem o tom humorístico das comédias de Judd Apatow, por exemplo. O que acaba constituindo um bom suporte para o casal principal, no qual se concentra a força do elenco, afirmando o quanto tem condições de manter o nível do filme. Seja Gordon-Levitt ou Deschanel, ambos fazem os diálogos adquirirem vida e seus papéis caminham sob uma linha tênue entre a realidade e a expectativa – especialmente o dela. O filme justamente foca nessa ruptura do que se idealiza e no sofrimento que é enfrentar as coisas na frieza que elas verdadeiramente consistem.

Unido a isso temos um roteiro original, não linear, lotado de referências pop, mas acima de tudo pessoal. Logo no início do longa vemos uma nota dos roteiristas, “dedicando” o filme a uma pessoa. Isso quer dizer que bem provavelmente eles passaram por situações semelhantes às do protagonista. É isso que faz o filme tão divertido: a identificação.

A construção da história reincide na genialidade devido à construção dos fatos. Desde o começo somos avisados que aquela “não é uma história de amor com final feliz”, o que possivelmente destruiria a leveza com que a história transcorre. Mas o filme é atemporal e na demonstração dos “500 dias” da relação, ele avança, retorna, avança novamente e dá uma continuidade cíclica à história, fazendo com que, de certa forma, ela não se acabe. 

Devido a essa possibilidade do roteiro, a montagem do filme consegue se desvencilhar de convenções e brinca constantemente com a organização dos fatos. E tudo de uma maneira clara e objetiva, que torna a história acessível a um grande público. A edição é eficiente e trabalha belamente em conjunto com os aspectos citados. 


Marc Webb, que veio da indústria dos clipes musicais, utiliza esses recursos em alguns momentos. Em uma cena musical em particular, vemos o completo estado de graça da equipe. A sequência contagiante demonstra além de talento, uma interação com o espectador, que provém de boa mão conduzindo toda a obra. Além disso, consegue apresentar também uma referência ao velho e bom cinema, onde o personagem Tom projeta-se em filmes de Ingmar Bergman, revivendo cenas de O Sétimo Selo, ou às referencias A Primeira Noite De Um Homem,  de Mike Nichols, por exemplo. E o êxito ao transmitir os vários sentimentos da história caracteriza essa competência. Competência que, mesmo mostrando situações dramáticas, consegue impor uma leveza sutil que traz personalidade ao filme. 

Deve ser notada também a excelente trilha sonora que percorre clássicos de The Smiths, passando por Regina Spektor, She and Him, Simon and Garfunkel, The Black Lips e Carla Bruni, e define sonoramente aquilo que se vê em tela. Completamente indispensável pelo equilíbrio e bom funcionamento que o longa tem. 

E o destino do casal é mais uma opção de coragem de Marc Webb e dos roteiristas, o que também acaba ajudando para diferenciar (500) Dias Com Ela da grande maioria dos filmes do gênero. Ao invés de fazer a plateia apenas acompanhar as dificuldades deles até ficarem juntos ao final, o filme prefere uma abordagem mais realista e original, surpreendendo o espectador pela intransigente dureza com a qual se encerra. (500) Dias Com Ela não é uma obra sobre um casal que se conhece para viver feliz para sempre, mas apenas uma história sobre duas pessoas que passaram um tempo juntos e aprenderam muito com isso. 

É a vida. É simples, sutil, complexa, real, bela. E, por isso, (500) Dias Com Ela merece ser lembrado não apenas como uma comédia romântica juvenil, mas um grande filme por si só.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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4 comentários:

Emilly Paiva disse...

Eu amo esse filme , e ler esse texto me deu vontade de rever .. mesmo sabendo cada parte do filme e as falas, o texto do Arthur foi simples,sincero e leal ao filme, fico feliz por ter um texto tão verídico do que realmente é o filme pq muitas pessoas deixam de assisti-lo por pensar que é aquele romance tradicional e chato, com este texto as pessoas podem ver ele como ele realmente é e assim se interessar ... Obrigada Arthur pelo texto simples , objetivo e esclarecedor .

(500) Dias Com Ela não é uma obra sobre um casal que se conhece para viver feliz para sempre, mas apenas uma história sobre duas pessoas que passaram um tempo juntos e aprenderam muito com isso. - ♥

Artur Lima disse...

Muito obrigado mesmo Emilly, o filme é simplesmente perfeito em toda a sua concepção e não apenas mais uma comédia romântica comum, onde o rapaz conhece a garota, perde a garota e reconquista a garota, mas sim um filme que tem muito mais a oferecer ^^

Ila Fox disse...

O mais curioso é que muita gente toma as dores do Tom e passa a odiar a Summer! Eu me reconheço muito nela (além da aparência, hehe). Já tive que terminar muito namoro, e sempre acabava ficando com a fama de coração gelado na história. :-P
Um post legal sobre o filme é este também: "Não, a Summer não era uma vadia" - http://www.judao.com.br/8/cinema/nao-a-summer-nao-era-uma-vadia/

Artur Lima disse...

Oi Illa, tudo bem? Nossa você realmente lembra muito ela mesmo, pode deixar que irei dar uma lida neste post que você indicou.

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