5 de set de 2014

Baiano de Todos os Santos, de Paulo Daltro



Há algum tempo eu falei aqui sobre o livro Baiano de Todos os Santos, de Paulo Daltro, lembram? O livro é composto de sete contos ambientados em Salvador, Bahia. O autor é feliz em mostrar cada canto da cidade onde se passam as histórias e descreve com riqueza de detalhes cada bairro e a história do local.

A cidade não é apenas um pano de fundo para contar as proezas de personagens em busca do amor, da felicidade. Ela também é uma personagem.  Percorremos as ruas da capital baiana como ávidos leitores e, mais ainda, nos deparamos com uma cidade mágica, poética e que inspirou tantos escritores. Paulo não foge à regra ao retratar Salvador desta forma.

Além disso, o autor não apenas faz uso do candomblé como uma intersecção entre o sagrado e o profano, mas também o faz com profundo respeito. Seus personagens são filhos e filhas de diversos orixás e em determinados momentos parecem saltar com vida por entre as páginas do livro.

Mesmo para quem nunca pôs os pés na Bahia, como eu, por exemplo, a forma didática que ele expõe sua terra natal, nos torna íntimos dela. Em Menino do Rio, vemos os encontros e desencontros de um amor adolescente. Santa Mainha observa o amor de uma mãe controladora pelo filho, algo que com certeza muitos leitores irão se identificar, principalmente no quanto o demasiado zelo pode ser deveras sufocante. Entre Pai e o Filho talvez seja o conto mais ousado ao narrar os desejos de um jovem apaixonado pelo pai adotivo desde a tenra infância até sua fase adulta. Paulo aqui percorre um caminho difícil, mas se sai bem.

Temos também A Vendedora da Baixa do Sapateiro, que é, para mim, o mais fraco dos contos; não deixa de ser interessante, mas ganha ares mais divertidos no seu fim. Na verdade, me parece que esse conto específico contém duas histórias dentro da mesma trama e, por assim dizer, me deu a impressão de falta de um acabamento mais requintado. Já O Vip da Liberdade retrata a necessidade de um jovem de se afirmar perante uma sociedade fútil, enquanto Prisioneiros do Porto talvez seja o mais romântico conto do livro.

O último, Milagre do Tempo é, para mim, a única história que foge da temática apresentada pelos demais, ao ilustrar com ironia e sarcasmo o que uma pessoa é capaz de fazer para continuar jovem. Facilmente poderia fazer parte de outro livro de contos ou a história poderia ser desmembrada dando origem a um romance, já que é possível notar neste último, a influência de Franz Kafka, o que acaba ganhando o leitor tranquilamente.

Dessa forma, dá pra ver claramente em Baiano de Todos os Santos, que Paulo Daltro bebeu da fonte e fez muito bem o dever de casa. Seus contos tem influência não apenas de Kafka e Machado de Assis, mas também dos seus conterrâneos Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. 

Não tem erro: Paulo Daltro merece sua atenção e, se você for esperto, corria já pra conseguir o seu ebook e se divertir nesse mergulho na cultura e em toda a magia da Bahia.

Baiano de Todos os Santos
Autor: Paulo Daltro
Páginas: 142
Editora: Digital Books

Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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