16 de set de 2014

Dias Perfeitos, de Raphael Montes





Conhecemos mil possibilidades diferentes para uma história de amor começar. Menina conhece menino e se apaixona loucamente. Menino conhece menina e se encanta eternamente. Também existem algumas variáveis nesse terreno do amor. Por exemplo: garoto se apaixona por garota que é loucamente apaixonada por outro. Ou garota se apaixona loucamente por garoto, que só tem olhos para outra. Secretamente, torcemos pelo rejeitado da situação. Afinal, quem nunca sofreu por amor? É clichê dizer isso? Talvez. Mas todo mundo já experimentou em algum momento na vida o gosto amargo da rejeição. E eu pergunto: e se de alguma maneira a história fosse sobre um rapaz rejeitado que encontra uma maneira de provar para a garota que ele gosta que é o cara certo? Até soa bonitinho, né? Eu sei. Mas, e se a maneira encontrada for de sequestrar essa menina e mantê-la refém até que ela se apaixone por ele? Sim! É com essa perspectiva que apresento Dias Perfeitos, de Raphael Montes.

Quando a sinopse do livro me foi apresentada, na mesma hora quis comprar e devorar todas as páginas. O que não imaginava era me deparar com um enredo totalmente surpreendente e que me fez mergulhar em um turbilhão de emoções desenfreadas. A história é sobre Teodoro, um cara recluso em seu próprio mundo. Filho único, mora com a mãe, Patrícia, em um apartamento em Copacabana. Téo é solitário, mas não se sente triste por isso, ao contrário, aliviado por evitar pessoas e suas infinitas lamentações invariáveis. Só que, como todo ser humano, ele tem uma ligação de afeto com alguém. Uma amiga. Sua única amiga chamada Gertrudes, que ele sempre encontra nas aulas de anatomia. Não como uma das alunas da turma, professora ou até mesmo monitora. O que pode ser melhor do que o complexo corpo humano aberto em uma mesa fria, pronto para ser explorado por estudantes de medicina para criar um laço de afeto, não é mesmo? Sim, a única pessoa com quem Téo divide um tipo de afeto, está morta.

Um belo dia... Existe sempre um belo dia nas histórias de terror, nos thrillers policiais ou nos crimes passionais. Mas foi em um belo dia que Téo conheceu Clarice. O encontro foi bem rápido, mas bastante instigante. Principalmente para mim, que tudo o que fazia era ler. Ler e acompanhar aquela troca de palavras. Ele, tentando parecer normal, e ela sendo simplesmente alguém que bebeu algumas cervejas e se diverte em um churrasco na casa de amigos. Aconteceu ao acaso, mas foi ali que se iniciou um jogo de gato e rato.

Depois de ficar completamente encantado, Téo invade a vida de Clarice sem pedir permissão e sem ser notado. Descobre onde ela mora, com quem se relaciona e o que pretende fazer da vida nas próximas semanas. O que consiste basicamente em se isolar em Teresópolis para finalizar o roteiro de um filme que anda escrevendo. E assim tudo acontece. Sem ser planejado e nem nada do gênero. Em uma fração de segundos o mundo como Clarice conhecia é tirado e Téo acaba tomando para ele a tarefa de cuidar dela. Cuidar para que perceba que ele é o verdadeiro homem de sua vida.

Clarice, por outro lado, não desiste sem lutar. Tenta de todas as maneiras argumentar. Mostra que é uma loucura total o que está acontecendo e que não vai contar nada para ninguém. Téo só precisa tirá-la dali sem medo de ser preso ou qualquer coisa do tipo. Ninguém ia saber, ela prometeu. Jurou. Mas a única coisa que de fato poderia ser feita é parar de lutar e deixar as coisas irem acontecendo da melhor maneira possível...

Dias Perfeitos nada mais é do que uma batalha psicológica constante. De um lado, Téo, tentando criar momentos para que Clarice tenha sentimentos por ele; do outro, Clarice querendo sua liberdade. Mas, será mesmo que isso pode acontecer? Ela poderia se apaixonar pelo seu sequestrador? E essa guerra de forças entre alguém que insiste em amar uma pessoa que não quer ser amada, é nada menos do que fascinante.

Raphael Montes criou uma trama tão complexa e tão envolvente, que não é possível desgrudar das páginas do livro. A cada novo acontecimento, nova reviravolta, me via entrando mais e mais na trama. Em alguns momentos ficava sem saber se sentia pena, odiava ou até mesmo entendia as atitudes de Téo. E isso, francamente, me assustou um pouco. Afinal, ele era o vilão da história, certo? Talvez não...

Segundo o próprio autor, Dias Perfeitos é uma história de amor. Uma história de amor à sua maneira. E para quem já leu seu primeiro livro, intitulado Suicidas, percebe que não seria um simples “garoto conhece garota e vivem felizes para sempre”. Mais que uma excelente leitura, Dias Perfeitos me apresentou um novo autor brasileiro. Alguém com sangue novo para criar tramas e personagens memoráveis.

Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Páginas: 278
Editora: Companhia das Letras
Leandro Faria  
Você curte cultura pop e também quer dividir suas impressões com o resto do mundo? Se gosta de escrever e está preparado para ser lido, entre em contado conosco através do email popdebotequim@gmail.com e teremos o maior prazer em publicar suas críticas e textos sobre o mundo pop. Não perca tempo e venha já fazer parte da nossa equipe!
FacebookTwitter
Para receber os artigos do PdB por email e ficar por dentro de tudo que rola em nosso botequim, basta inserir seu contato abaixo e, pronto! Os melhores artigos, servidos de bandeja para você, da maneira mais cômoda e prática da internet:



0 comentários:

Share