30 de out de 2014

#BaúPop: Cidadão Kane






Cidadão Kane (Citizen Kane, no original), de 1941, é considerado por muitos (eu incluso) um dos melhores filmes já feitos. Quem está na minha faixa etária, de certo já assistiu ao filme e, se não o fez, deve fazê-lo e depois voltar aqui e ler o resto do texto. Os mais novos que ainda não o viram, devem fazer o mesmo, pois é imprescindível vê-lo se você gosta mesmo de filmes. Por que ver? São várias as razões e, algumas delas, listo abaixo para que você tire suas próprias conclusões.


Orson Welles, em glória no rádio e na Broadway em Nova York, foi cortejado por Hollywood em 1939, logo após sua locução para o clássico A Guerra dos Mundos, de H.G.Wells, que causou um pânico generalizado na população, que realmente acreditou que marcianos invadiam a Terra. Incrivelmente para a época em que os grandes estúdios eram amos e senhores de tudo e todos na industria do cinema, Welles conseguiu um contrato para dois filmes com total liberdade e controle criativos, inclusa a opção do final cut (versão do diretor, e não a que o estúdio entende como comercialmente correta). 


O roteiro é inspirado na vida de William Randolph Hearst, barão da mídia impressa americana do início do século XX, e também possui pitadas autobiográficas de Welles, ainda que este nunca tenha admitido o fato. O filme narra vida de Charles Foster Kane (Orson Welles), magnata dos jornais americanos, através de depoimentos de pessoas próximas a ele, dados a um jornalista que busca o significado de 'Rosebud', as últimas palavras proferidas por Kane em seu leito de morte. Através desses depoimentos, surge a figura de um homem complexo, sedento de poder, egocêntrico e megalomaníaco mas, ao mesmo tempo, frágil, carente e em busca de uma felicidade há muito perdida e que julga ser possível reconquistar através do dinheiro, influência e manipulação de pessoas sejam elas amigos ou amores (quem ou o quê é 'Rosebud'? Assista e tire suas conclusões). 

Porém, em uma exibição fechada em NY, um Welles inflamado convenceu os executivos a lançarem o filme, além de uma leve ameaça de processá-los por cercear a liberdade de expressão tão laureada pela carta magna do país. Assim, Cidadão Kane foi lançado finalmente em 06/05/1941 em NY e, em 08/05/1941, em Los Angeles. Infelizmente, a polêmica do filme trabalhou contra Welles e muitos cinemas se recusaram a exibí-lo. Cidadão Kane foi recolhido após algumas semanas de exibição, mal se pagando, porém, a crítica louvou o longa e ele acabou recebendo nove indicações ao Oscar, levando apenas a de roteiro, num claro reflexo de que Hearst ainda dava as cartas. Depois de Cidadão Kane, Welles não conseguiu mais emplacar nenhum filme do mesmo nível, ainda que tenha produzido muito entre filmes bons e realmente ruins. 

Reza a lenda que Hearst teve acesso ao roteiro através do sobrinho de sua amante e, vendo sua vida exposta, começou uma campanha através de seus jornais contra Welles e o filme, inclusive boicotando a indústria caso o filme visse a luz do dia. Ainda que seu poder não fosse mais, à época da realização do filme, tão extenso, ainda era considerável em Hollywood e Cidadão Kane chegou realmente à beira da destruição e sua data de lançamento era postergada indefinidamente, vide o medo que Hearst infligia nos cartolas do cinema. 



Nos seus anos finais (1970-85), Welles fazia pontas por dinheiro, comerciais e dirigia qualquer coisa desde que fosse pago. Mas seu temperamento difícil era sempre obstáculo para qualquer trabalho que fizesse. Morreu em 1985 de ataque cardíaco, deixando uma série de projetos inacabados. 

Cidadão Kane inovou várias áreas do cinema. Rompeu a narrativa linear, contando em flashback a estória toda e não do ponto de vista de um, mas de vários narradores. Usou truques de cena para representar a passagem de tempo, sem que isso afetasse o entendimento da trama. Usou novas técnicas de filmagem, com ângulos pouco usados, e efeitos especiais pioneiros para a época. 

Há quem diga que o filme estava, no mínimo, quarenta anos a frente de seu tempo e diretores renomados da atualidade (Martin Scorsese, Ridley Scott, Francis Ford Coppola, Brian De Palma) o tem como um de seus filmes favoritos e influência/inspiração. 

Ou seja: ainda não assistiu Cidadão Kane? Corrija esse lapso em sua formação e veja o que o cinema tem de melhor. 

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Leandro Faria  
Alexandre Melo: da capital de São Paulo, é amante do centro velho decadente e dos botecos do centro. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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1 comentários:

Serginho Tavares disse...

Um filme difícil mas obrigatório para todos os amantes de cinema!

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