1 de out de 2014

#BaúPop: Medianeras - Buenos Aires da Era do Amor Virtual




De vez em quando, somos surpreendidos por alguma obra cinematográfica que parece ser feita sobre medida para nossa vida. Recentemente assisti a um filme argentino de 2011, com o qual me identifiquei muito com a história de seus protagonistas, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual.

Filmes a respeito da solidão existem aos montes por aí. O que diferencia Medianeras é a abordagem. Ele não mostra os clichês comuns de filmes a respeito do tema. Ninguém se afunda em álcool, ninguém come compulsivamente, ninguém se torna misantropo. A solidão que vemos é vivida a seco. Em casa. É a solidão de não se fazer nada porque não se tem nada a fazer. A solidão do anonimato das ruas. Despida de qualquer glamour ou fuga. 

Entre construções mal elaboradas de Buenos Aires, vive Martin (Javier Drolas), um web designer que trabalha em casa e que foi abandonado pela namorada, tem fobia a tudo e por isso não sai de seu apartamento. Ele acredita que os males da sociedade estão diretamente vinculados à arquitetura da cidade, mal planejada, que cresce sem lógica, que nos separa e, como consequências, nascem esses indivíduos isolados, nasce à violência, a falta do desejo, a falta da comunicação, a depressão e até mesmo o suicídio. 

Sem saber, porém, no prédio ao lado, mora Mariana (Pilar López de Ayala), uma arquiteta, que após o término do curso não conseguiu engrenar na profissão e hoje é vitrinista e tem depressão e passa suas horas em frente seu Mac, assim como Martin. E esta mesma cidade que os separa será também aquela que os une e, entre constantes desencontros, o irônico destino dos dois fará de tudo para colocá-los frente a frente. 


É quase que impossível ver Medianeras e não se sentir representado, pelo menos por algum diálogo, um personagem, um momento, algo que remeta rapidamente à nossa própria vida. É daqueles filmes que falam muito mais sobre nós do que gostaríamos de admitir. Duas pessoas com coração partido, vivendo na triste rotina diante de um computador, onde a internet os possibilitou conhecer o universo e, a cada dia a mais, é como se esquecessem de como é realmente a vida, trancafiados no apartamento, prisioneiros de uma cultura que o próprio filme denominou de "a cultura do inquilino", a cultura do desapego, do desafeto. Sozinhos. Sozinhos neste mundo tão repleto de gente, de opções, a solidão que surgiu como consequência de um mundo cada vez mais tecnológico, mais necessitado de ações rápidas e fáceis, a internet que nos conecta ao mundo e nos afasta da vida. Ver Martin e Mariana na tela é um reflexo nítido da nossa atual existência, denunciam de forma realista (e poética) o triste modo como vivemos.

Porém, esse filme passa longe de oferecer uma visão pessimista sobre qualquer coisa. Se eu tivesse que usar uma palavra para definir o olhar de Gustavo Taretto, o diretor, sobre qualquer um dos temas tratados, eu usaria realismo. Ele não dá ao público expectativas de um romance hollywoodiano, bem nos moldes Nicolas Sparks. Ou falsas ilusões de que o encontro daqueles dois é algo mágico e que já estava previsto há muito tempo. Sabemos desde as primeiras cenas de Medianeras que, de algum modo, Mariana e Martin vão se encontrar e ficar juntos. Seja pela proximidade absurda de seus apartamentos, seja pelo fato de se passarem um pelo outro constantemente… Enfim. Mas, tudo isso está mais relacionado a uma sensação do expectador do que a algo concreto, oferecido pelo roteiro. E as coisas permanecem dessa maneira até que uma cena específica tem início. 


Percebemos, então, que boa vontade não importa. Não importa o seu empenho. Não importa o quão otimista você está a respeito de um encontro com alguém aleatório. O outro lado também não faz diferença: não importa se você já não acredita mais ou se, simplesmente, perdeu o interesse por qualquer envolvimento romântico. Essas conexões instantâneas e grandes simplesmente acontecem e independem da vontade. É exatamente como o título da canção diz: o amor vai te encontrar no fim das contas. Independente dos esforços para atrair ou repelir. 

Medianera é, mais precisamente, aquele lado dos edifícios que não servem de nada, ocupado muitas vezes por propaganda, uma parede lisa, sem janelas. É interessante, então, quando os personagens decidem quebrar parte desta medianera, abrindo um buraco ilegal, mas que de certa forma lhes devolve a luz que faltava em suas vidas, dando esperança à trama que até este momento era melancólica. 

Por fim, Medianeras é mais realista do que gostamos de admitir, fala claramente de uma solidão e uma prisão que nós mesmos criamos. Entretanto, nos mostra como, às vezes, alguns encontros estão fadados a acontecer e que mesmo que queiramos nos prender e sufocar num quarto isolado e escuro, sempre haverá uma saída, que no caso do filme é a janela, a luz no fim do túnel que une os dois protagonistas e faz que ambos se complementem.

Recomendo a todos que assistam essa boa obra cinematográfica do cinema contemporâneo Argentino. E é facinho de fazer isso, já que o filme está disponível via streaming, no Netflix. Vale a pena ser visto.

Leia Também:

Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
FacebookTwitter

0 comentários:

Share