29 de out de 2014

#DocPop: Star Wars, um Clássico Absoluto do Cinema





Alguns filmes são atemporais; os anos voam feito aves migratórias e eles permanecem intocados, sem sequer ameaçar ficarem datados, seja pela atualidade recorrente do tema que abordam ou por terem sido marcos que influenciaram a maneira de se contar uma estória. Em 1977, o gênero da Ficção Científica não era lá muito respeitado em Hollywood e, salvo casos como 2001: Uma Odisséia no Espaço e seu tom por demais autoral e complexo para a grande totalidade das platéias (até hoje é motivo de interpretações das mais diversas e absurdas) ou Alien, de Ridley Scott, que é mais um filme de terror ambientado no espaço, pouco havia para dar novo fôlego ao gênero.

O mundo também vivia tempos pouco animadores, os anos de 'paz e amor' e experimentações, fossem sociais, sexuais ou sensoriais já estavam agonizando e, em breve, teríamos os tempos sombrios da Era Reagan, ou seja, sonhar era algo que não estava muito em voga ainda mais com toneladas de mísseis nucleares pairando sobre as cabeças de todos.

Mas então, um visionário egresso do curso de cinema da USC (University of Southern California) e amigo de Coppola, começava a galgar seu rumo aos anais do cinema mundial; seu nome era George Lucas. Amparado pelo mestre, Lucas angariou fundos para seu primeiro longa THX 138, um fracasso retumbante, mais pela interferência do estúdio que pelos méritos do roteiro ou diretor mas, em sequência, acertou a mão (ainda que o estúdio tenha interferido muito no resultado final, segundo o próprio Lucas afirmaria anos mais tarde) com American Graffiti, comédia juvenil sobre a década de 50, de onde estrelas como Harrison Ford e Richard Dreyfuss saíram para a fama.


Com a burra relativamente cheia com os lucros desse longa, Lucas então decidiu empenhar todas as suas fichas no sonho de filmar a saga que mudaria para sempre a indústria cinematográfica e influenciaria gerações e gerações. Inspirado pela obra de Joseph Campbell (As Máscaras de Deus e O Heróis de Mil Faces, que abordam a mitologia ocidental, seus arquétipos e modelos), Lucas saiu batendo em todas as portas para vender Star Wars, numa época em que um roteiro sobre batalhas espaciais, heróis puros de coração, cafajestes bem intencionados, princesas em perigo e vilões maquiavélicos não estavam certamente em alta. Foi na trave.

À muito custo e com ajuda de amigos do meio, finalmente a Fox aceitou bancar a loucura, ainda mais quando Lucas abriu mão de seu 'salário' como diretor em troca dos direitos para uma sequência (ninguém botava fé que aconteceria) e de total controle e participação no merchan do filme. Os altos executivos riram pelas costas de Lucas e já planejavam como recuperar o dinheiro que iriam perder com a empreitada e como enterrar o cadáver de Lucas que, após esta furada, não conseguiria mais filmar nem comerciais de televisão.

Com cerca de US$ 8 milhões, Lucas foi à luta e não foi fácil, pois não havia à época qualquer tecnologia capaz de realizar a sua visão, restando então, como saída ao diretor, nada menos que criar sua própria empresa de efeitos especiais; nascia assim a ILM (Industrial Light and Magic). O filme estourou seu orçamento, o estúdio berrava e batia o pé ameaçando cancelar o longa, demandava revisões no roteiro e no elenco, mas Lucas permaneceu irredutível pois sabia o tinha nas mãos. Então, em 25/05/1977, Star Wars viu a luz das telas pela primeira vez e o resultado, bem, todos nós sabemos, não?

Lucas deu um magnífico tapa com luvas de pelica na indústria que lhe torcia o nariz, enchendo as salas de cinema por semanas consecutivas, vendendo artigos dos mais diversos relacionados ao filme (foi o primeiro filme a realmente explorar seu potencial de mercado fora das telas de cinema e, com o acordo que havia fechado, Lucas encheu os bolsos de grana como nunca outro diretor o tinha feito antes) e criando uma legião de fãs mais dedicados e fanáticos de fazer inveja a muita igreja protestante por aí. Depois disso, se Lucas desejasse filmar uma pessoa defecando, os estúdios lhe lamberiam as botas afinal ele era a galinha dos ovos de ouro.


Mas, por que Star Wars possui todo esse fascínio? Por que até hoje ainda é popular e passado de geração a geração (sou prova disso, pois eu e meu irmão fomos criados em seu seio e meus sobrinhos já são devotos dedicados), num estranho tipo de tradição? Não creio que exista uma resposta simples mas, posso arriscar alguns palpites.

Star Wars é, em suma, um filme de capa-espada/faroeste/samurai, onde os arquétipos estão bem delimitados e delineados; quem é bom é bom, inocente, puro de coração, é nobre e honrado; quem é mau é mau mesmo, mente, deturpa, mata e não tem a menor consideração pela vida ou por conceitos básicos de moralidade.

Fora isso, o filme trata da saga de um herói (Luke Skywalker) que é tirado de seus sonhos de aventura distantes para um torvelinho onde essas mesmas aventuras são reais, travando na viagem conhecimento de seu lugar no mundo, de seu verdadeiro potencial e de sua origem e passado levando a uma catarse libertadora no final avassalador. Ele não é uma vítima das circunstâncias; antes, anseia por desvendar o universo pois sabe lá no fundo que tem potencial para muito mais do que sua vida modesta lhe fornece. Quem de nós não anseia realizar algo que nos destaque ou deixar nossa marca no breve tempo que passamos aqui? Mas ele carece de guia, direção e treinamento e daí temos a figura do mestre que vai lhe ajudar a entender como funciona o universo (A Força) e como ele pode usar sua determinação para atingir seus objetivos (Obi-Wan e Yoda).

Como todo bom capa/espada, o filme possui também a donzela em perigo (Princesa Leia), o 'vagabundo' bem intencionado e que finge não se importar com nada além de si (Han Solo) e uma dupla que serve como alívio cômico (R2D2 e C3PO), além de uma galeria de seres e lugares tão pitorescos que é simplesmente impossível não se ver transportado e envolto pelo universo criado por Lucas. Impossível não vermos ecos das Sagas do Graal e dos Cavaleiros Templários da Idade Média e de temas religiosos, já que um Jedi se aproxima e muito de algum tipo de monge. Ao lidar com conceitos que já são parte do inconsciente coletivo fica praticamente impossível não gostar do filme, não torcer pelo mocinho e não se entregar a essa fábula que é contada desde o princípio da humanidade.

Mas, associações e análises à parte, Star Wars é magia em celulóide, que trouxe novamente o sonho ao cinema, a torcida pela vitória do mocinho e suspiros e sussurros às salas. Lembro até hoje do sonoro 'Oh!' na sala do cinema quando, em O Império Contra-Ataca, Lorde Vader revela seu verdadeiro papel na trama (não vou contar, ainda que julgue ser de domínio público) e como todos vibraram quando Luke resgata seus amigos das garras de Jabba em O Retorno de Jedi (originalmente, o título seria A Vingança de Jedi mas, um Jedi não possui esse tipo de sentimento negativo; esse é o tipo de cuidado que Lucas possui com sua obra e, assim, o nome foi alterado sendo que ainda restam raros e disputadíssimos cartazes com o título original).


Há quem diga que a saga completa engloba nove episódios dos quais, como sabemos, seis já foram filmados, acrescentando à trilogia clássica supra citada os filmes Episódio I - A Ameaça Fantasma, Episódio II - O Ataque dos Clones e Episódio III - A Vingança dos Sith. Lucas nega peremptoriamente mas, quando terminou a primeira trilogia, ele também chegou a negar que haveriam mais filmes e deu no que deu. Prefiro pensar que ele, cansado, preferiu dar passagem aos fãs que virarem diretores de cinema e desejavam ardorosamente filmar a estória de seu ídolo.

Agora, resta aguardar pelo resto da saga com a estréia prometida para 2015 do Episódio VII mas, sem ter a mão direta de Lucas, ainda que J.J. Abrams seja muito competente, fica para fãs mais tradicionais e dedicados como eu, um certo receio de que jamais a saga original será suplantada e de que nunca mais alguém contará uma fábula como George Lucas.

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Leandro Faria  
Alexandre Melo: da capital de São Paulo, é amante do centro velho decadente e dos botecos do centro. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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1 comentários:

Serginho Tavares disse...

Eu sou suspeito, não gosto de George Lucas, não gosto da saga. Aliás, gosto apenas de o império contra-ataca que por sinal nem foi dirigido por ele!

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