17 de out de 2014

Pop 5ive: As Loucas e Deliciosas Vilãs de Aguinaldo Silva




Aguinaldo Silva é um autor experiente, popular e talentoso. Salvo alguns equívocos de sua extensa carreira, como Fina Estampa (2011) Duas Caras (2007), seu currículo é recheado de grandes sucessos. E, como toda novela de sucesso quase sempre, invariavelmente, vem acompanhada de um vilão daqueles, que a gente ama odiar, os de Aguinaldo, em especial as vilãs, são sempre um imenso deleite (embora o próprio autor já tenha declarado que seu vilão favorito seja um homem, Cândido Alegria, de Pedra Sobre Pedra, de 1992, vivido pelo saudoso Armando Bógus).

O atual cartaz das 21h, na Globo, Império, de sua autoria, conta com dois ótimos exemplares desse espécime de vilãs "aguinaldianas": a rica e poderosa Maria Marta Medeiros de Mendonça e Albuquerque e a pobre e gananciosa Cora, deliciosamente defendidas pelas igualmente excelentes  Lília Cabral e Drica Moraes.

Mas, antes dessa dupla de megeras invadir nossa telinha nesse ano, outras sórdidas maravilhosas saídas da mente de Aguinaldo Silva marcaram época e se tornaram inesquecíveis em nossas memórias.

É em homenagem à elas, às loucas e deliciosas vilãs de Mr. Silva, o nosso Pop 5ive de hoje. Porque de novelas e vilãs, a gente gosta!

Perpétua (Tieta, 1989)


A icônica personagem de Joana Fomm fazia parte de um dos maiores sucessos de Aguinaldo Silva, a novela Tieta, um clássico inquestionável e amado por muitos. Em meio a tantos personagens impagáveis, inspirados na obra de Jorge Amado, a eterna viúva encruada Perpétua, que só se vestia de preto e vomitava falsos moralismos encarnando a persona de uma mulher honesta e extremamente religiosa, usava a "palavra de Deus" para distribuir impropérios a toda a população de Santana do Agreste e ser a grande pedra no sapato da irmã quenga Tieta (Betty Faria).

Vilã absolutamente divertida, apesar de seu péssimo caráter, Perpétua figura entre as personagens mais emblemáticas da talentosa Joana Fomm, principalmente por dois motivos em especial, que marcaram sua personagem:

  • a inesquecível cena em que Tieta, no meio de uma acalorada briga, no altar da igreja, arranca a peruca da irmã maléfica, revelando sua carequice, pra toda a cidade e pro público, no último capítulo. 
  • a revelação do maior segredo de Perpétua, que permeou toda a trama, o conteúdo de uma caixa branca, que ela guardava como um verdadeiro tesouro dentro do guarda-roupa, era nada mais, nada menos que os genitais do falecido marido, que ela cultuava como relíquia. Uma nojeira que mostrava o quão sórdida e perturbada era essa vilã de Aguinaldo Silva.
Altiva (A Indomada , 1997)


Seu nome era Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque (seria uma parente distante de Maria Marta?). De família aristocrata, ela ostentava a pose de mulher fina e requintada, mas já não tinha mais nenhum tostão pra manter seus luxos. Diante de um cenário de falência, ela infernizava a vida do marido Pedro Afonso (Cláudio Marzo), a quem culpava pela ruína financeira da família, atormentava à todos em sua volta soltando frases e bordões cafonas e divertidíssimos em inglês, usava a sobrinha Lucia Helena (Adriana Esteves), a quem no fundo detestava, para manter um padrão de vida confortável, fingindo-se de tia prestimosa.

Era preconceituosa, racista, interesseira, ardilosa. Abandonou e renegou um filho bastardo ao nascer, e conviveu com ele depois de adulto tratando-o como um empregado, sem que ninguém soubesse a verdadeira origem do rapaz. Maltratou a nora desbragadamente apenas por ser negra. Tentou matar a sobrinha. E eternizou o bordão "Oh xente, my gódi".

Dando assim a excepcional Eva Wilma uma de suas personagens mais marcantes em novelas, Altiva era odiosa e hilária.

Maria Regina (Suave Veneno, 1999)


Após o estrondoso e absoluto sucesso como a manicure periguete Babalú, em seu primeiro papel de destaque no ano de 1994, na novela Quatro por Quatro, Letícia Spiller demorou 5 anos para fazer uma personagem tão marcante quanto, e foi com a tresloucada Maria Regina Cerqueira de Berganti e Figueira, de Suave Veneno, que ela apagou de vez a imagem de eterna manicure gostosa do subúrbio carioca.

Mais linda do que nunca, com um visual a la Isabella Rossellini, de cabelos negros curtíssimos, destacando profundamente seus belíssimos olhos azuis, Letícia surpreendeu com as insanidades cometidas pela herdeira primogênita de um império de mármores, obcecada pelo poder e disposta a tudo para obtê-lo, até mesmo destruir o próprio pai. Além de investir pesado em suas falcatruas para assumir a presidência da Marmoreal, seu maior objetivo, Maria Regina se achava inatingível e era um poço de arrogância e prepotência. Passava como um trator por cima de seus desafetos, maltratava e humilhava empregados, menosprezava o pai por ser nordestino, tinha alergia à pobreza e acabou se apaixonando perdidamente por seu motorista, o que a fazia tratá-lo como seu serviçal também na cama, usando como fetiche a submissão e a dominação.

Maria Regina torturou o marido, se negando a dar-lhe o remédio enquanto ele sofria um ataque cardíaco, estilhaçou com uma barra de ferro os vidros de um carro que bloqueava sua passagem, chantageou, subornou, surtou de todas as maneiras e teve um final apoteótico ao lado de seu amado Adelmo (Ângelo Antonio), tal e qual Thelma e Louise, lançando o carro do alto de um precipício direto para a morte, em uma fuga da polícia.

Adma (Porto dos Milagres, 2001)


Em 1993, Cássia Kis (ainda sem o Magro) conquistou o coração dos telespectadores com a senhorita Ilka Tibiriçá, personagem ingênua, romântica e muito divertida, em Fera Ferida, também de autoria de Aguinaldo Silva. Nessa trama, Cássia mostrou de forma definitiva que era uma atriz fascinante  e cheia de artifícios. Oito anos depois, ela voltava a trabalhar em parceria com Aguinaldo, na pele da tenebrosa vilã Adma Guerreiro.

Já cientes do poder de fogo da atriz, nos vimos diante de uma vilã cruel e assassina, talvez a mais séria e odiosa das vilãs do autor. Adma não tinha o subterfúgio do humor, como suas outras colegas de maldade. Ela cometia as piores atrocidades em nome do amor à família. Pelo filho único, Alexandre (Leonardo Brício), e principalmente por seu venerado marido, Félix Guerreiro (Antonio Fagundes), Adma era capaz de qualquer coisa, até mesmo se tornar uma assassina em série.

A verdade é que a família Guerreiro conquistou sua riqueza e prestígio através de um grande golpe, resultante de uma rede de mentiras e maus feitos. Pelo caminho ficaram testemunhas do passado, que o casal acreditava, nunca reencontrariam, mas quando o passado voltou pra cobrar seus dividendos, Adma tratou de colocar em cena um inesquecível anel, e servir sempre muito simpática a seus convidados extorsores, um refrescante suco de fruta, muito bem temperado com o poderoso e fatal conteúdo do anel, um veneno em pó, que fazia com que as vítimas de Adma agonizassem em sua frente, enquanto ela tripudiava em cima de quem atravessava seu caminho e o de sua família. Com uma família de bandidos e psicopatas, Adma Guerreiro deixou um longo rastro de morte em seu caminho e no final morreu agonizando, vítima do próprio veneno.

Nazaré  (Senhora do Destino, 2004)


Se esta lista fosse um ranking, certamente a medalha de ouro seria dela, a raposa felpuda, pegadeira, gostosa pra caramba, Maria de Nazaré Tedesco, ou simplesmente Naza para os mais íntimos. E todos nós nos tornamos íntimos da saborosíssima vilã, eternizada por Renata Sorrah, no mega sucesso Senhora do Destino.

Nazaré juntou o melhor de todas as vilãs "aguinaldianas" e, aliado ao carisma e talento monstro de sua intérprete, a química ficou perfeita. Naza era falsa, ambiciosa, tarada, ladra de bebês, cínica, despudorada, assassina e engraçada, muito engraçada. Fingia-se de mãe dedicada e ilibada, mas adorava fazer um michê nas horas vagas, sua antiga profissão. Dona de bordões e frases hilárias que jamais serão esquecidas, Naza pintou e bordou com seus golpes e tramoias pra conseguir dinheiro e não perder a filha Isabel (Carolina Dieckmann) para a anta nordestina.

Renata Sorrah divou e sambou na cara da sociedade com uma vilã que provou que um texto inspirado nas mãos de uma atriz excepcional, pode ser absurdamente amada por gerações e gerações. Dúvida nenhuma de que assim será com a  rainha da escada e dona da tesoura mais temida da TV brasileira.

Renata Sorrah já era uma atriz tarimbada, mas sem dúvida nenhuma Nazaré Tedesco foi um divisor de águas em sua carreira; depois dela a atriz adquiriu um outro status. E posso dizer sem medo de errar: não é a melhor vilã de Aguinaldo Silva, é a melhor vilã de todas.

E viva Nazaré Tedesco, porque até hoje não se soube se seu corpo foi encontrado, quando ela, em seu último ato de diva do mal, jogou-se da ponte do rio São Francisco.
___

E aí, gostaram de mais uma lista noveleira?

Beijos na alma e até a próxima!

Leia Também:

Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter

2 comentários:

Serginho Tavares disse...

Nazaré é a minha preferida!
Adorei matar as saudades de todas essas loucas admiráveis!

Parabéns Esdras

Robson Pereira disse...

Eu acrescentaria aí a Silvia de Duas Caras

Share