16 de nov de 2014

#BaúPop: Blade Runner




O #BaúPop de hoje resgata um clássico filme de 1982, que tem a primorosa direção de Ridley Scott. E estou falando de nada mais, nada menos, que Blade Runner, meus caros, uma verdadeira aula de como se fazer ficção científica.

Scott acabara de dirigir Alien (1979 – assisti no cinema, tá?), filme que já pode ser considerado um clássico da ficção científica, e saía frustrado da tentativa de adaptação do romance Duna, de Frank Herbert (que depois seria levado às telas em 1981, por David Lynch). Como ainda estava, após ter assistido Star Wars (1977 – também assisti no cinema, sou dessas), enamorado de filmes com efeitos especiais em grande escala, aceitou dirigir a adaptação do livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick,  que é a origem do filme, obviamente. 

Philip K. Dick, por sua vez, já negara outros tantos pedidos de Hollywood para adaptar seus livros, inclusive este, que já fora roteirizado anteriormente, mas em versões que desgostaram o autor nutrindo ainda mais seu desalento para com a indústria do cinema. Segundo ele, até mesmo Scorsese teve interesse em filmá-lo mas, por razões desconhecidas, nunca avançou com o projeto. Quando Scott assumiu o comando, o orçamento para o filme aumentou, o roteiro foi reescrito e, dessa vez, K. Dick aprovou, pouco antes de morrer, o novo roteiro, assim como os testes dos efeitos especiais que lhe foram enviados em vídeo, sendo que confessou a Scott que ele havia capturado a essência de seu universo, como ele o havia imaginado. 


A seleção de elenco foi árdua e nomes pesados como Jack Nicholson e Paul Newman eram cotados para o papel principal do longa, mas foi Harrison Ford que levou o papel, devido à sua participação em Star Wars e recomendação de Spielberg, que acabara de fazer com ele Os Caçadores da Arca Perdida. Reza a lenda que, meses antes da estréia, o estúdio não estava satisfeito com a versão do filme apresentada por Scott e, à sua revelia e temeroso de que o tom mais autoral não agradasse às platéias, montou a versão que foi usada como final para ir às telas, sendo que essa é até hoje renegada por Scott. Somente em 2007, Scott, no 25º aniversário do filme, soltou a versão final do diretor (segundo ele, essa é a versão definitiva de Blade Runner, a que ele desejava), acompanhada por outras seis versões do filme, incluindo a montada pelo estúdio, com a narração em off e final idílico rejeitados pelo diretor. 

Blade Runner já é considerado um clássico moderno e um cult movie. Sua ambientação futurista-retrô-decadente, seu tom de filme noir (a versão montada pelo estúdio, como dito acima, usa a narração em off, recurso muito comum nos filmes noir), além das questões sobre manipulação genética, criação, religião, meio ambiente e futuro apocalíptico, garantem ao filme um status de obra-prima, ainda que seja bem diferente do romance que lhe deu origem, em um dos poucos casos onde o filme é muito melhor que o livro. Um filme é bom quando você o assiste vezes seguidas, ano após ano e ele continua sendo atual e lhe dando novas possibilidade de interpretação ou uma nova luz sobre assuntos vigentes. Blade Runner faz isso sempre. 

Na trama, a terra está um caco e é dominada por corporações gigantescas (atente no filme como apenas poucos nomes de empresas são onipresentes e como não estamos lá muito distantes disso hoje em dia) e quem pode, muda-se para as colônias distantes. Nesses lugares, para o trabalho duro ou perigoso, existem andróides (Nexus 6) que são a exata semelhança de humanos adultos. Criados pela Tyrell Corp, é praticamente impossível distinguí-los dos humanos e os andróides são chamados de replicantes. Na Terra, os replicantes são proibidos e, quando quatro deles voltam para a casa, Deckard (Harrison Ford), um policial 'aposentado' é forçado a caçá-los. Os replicantes por sua vez, voltam para tentar descobrir, junto ao criador (o homem, mais especificamente o dono da Tyrell Corp), porque este os fez com data de validade, pois duram apenas quatro anos, um mecanismo de segurança implantado a fim de evitar que desenvolvam emoções e se rebelem. 


Durante a caçada, Deckard descobre Rachel (Sean Young, diva!), um novo tipo de replicante e chega mesmo a ter dúvidas se ele mesmo não é um deles. Os replicantes, numa evidente alegoria criador/criatura (o jogo de xadrez entre Roy e o Dr. Tyrell é emblemático), demandam de seu criador mais tempo, revoltando-se quando o criador não pode fazer nada a não ser aconselhar que vivam bem o tempo que tem. Não vou contar o final, pois é uma das cenas mais belas da história do cinema. 

Enfim, não temos nós mesmos um prazo de validade (incerto, mas existente)? Não gostaríamos de bater um papo com o criador e pedir mais tempo, ou entender dele qual nosso propósito aqui? Provavelmente, receberíamos respostas que não seriam as que desejávamos. Em nosso desejo de imortalidade, não criamos mecanismos que preservam nossa memória no mundo, incluso nisso as tentativas de emular a criação em si? E, quando finalmente conseguirmos criar algo tão complexo como um ser humano, quais respostas lhe daremos quando as mesmas perguntas que nos fizemos a vida toda ele nos fizer? Não lhe responderíamos com as mesmas respostas de nosso criador? 

No final, tudo se perderá como lágrimas na chuva... 
  • Nota 1: esse filme merece ser visto em sua versão ORIGINAL do diretor e, se possível, numa dessas TVs HD e Bluray. 
  • Nota 2: a trilha sonora foi composta por Vangelis e é um primor! Só o tema romântico você já deve ter ouvido uma centena de vezes nos motéis ou nesses programas de rádio da alta madrugada e com locutores de voz aveludada (se é que isso ainda existe).
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Leandro Faria  
Alexandre Melo: da capital de São Paulo, é amante do centro velho decadente e dos botecos do centro. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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1 comentários:

Serginho Tavares disse...

acredite! estes programas ainda existem
e eu adoro a

mais um primor de texto, mas vindo de você é normal que sejam sempre excelentes!

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