11 de nov de 2014

#DocPop: Cazuza, O Poeta Exagerado




Há pouco tempo escrevi um #DocPop sobre Audrey Hepburn. Naquele texto divaguei sobre ídolos que não tive o prazer de conhecer enquanto estavam em vida. E hoje novamente escrevo sobre um ícone, este nacional e da década de 80 e início de 90. Seu nome? Agenor de Miranda Araújo Neto, popularmente conhecido como CAZUZA. 

Cazuza nasceu no dia 4 de abril de 1958, filho de João Araújo e Lucinha Araújo. Desde sua infância já estava rodeado por música, visto que seu pai já era produtor fonográfico nessa época. O nome de batismo veio de seu avô paterno; depois de muita insistência por parte de sua sogra e na esperança de ter outros filhos, Lucinha acabou concordando em batizar seu primeiro e, infelizmente único filho, com o nome de Agenor. Entretanto, antes mesmo de nascer, à criança já recebeu o apelido de Cazuza e até os primeiros anos de infância não sabia seu verdadeiro nome, tanto que não respondia a chamada no colégio. Só mais tarde, quando descobriu que um dos compositores prediletos, Cartola, também se chamava Agenor (na verdade, Angenor, por um erro do cartório), é que Cazuza começa a aceitar o nome. 

Como já dito, Cazuza nasceu no berço da música popular brasileira e desenvolveu sua preferência por canções dramáticas e melancólicas, como as de Cartola, Noel Rosa, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Dalva de Oliveira e Maysa. Quando seus pais saiam, normalmente Cazuza ficava com a avó materna e nessa, começou a escrever seus primeiros poemas, que mostrava para a avó. Devido ao ambiente profissional de seu pai, o jovem cresceu em volta dos maiores nomes da MPB, como Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Gal Costa, Novos Baianos, João Gilberto, entre outros. Sua mãe também adorava cantar e chegou a gravar três discos.   

Depois de um período em Londres, Cazuza conheceu o bom Rock ‘n’ Roll nas vozes de Janis Joplin, Led Zeplin e Rolling Stones; claro que amou tudo de imediato. Na adolescência, porém, o gênio rebelde do futuro roqueiro se manifestaria. Cazuza terminou o ginásio e o segundo grau a duras penas e, depois de prestar vestibular para Comunicação, só porque o pai lhe prometera um carro, desistiu do curso em menos de um mês de aula. Já vivia então a boemia no Baixo Leblon e o trinômio sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Que ele amasse Jimi Hendrix, Janis Joplin e os Rolling Stones, tudo bem. Mas vir a saber que se drogava e que era bissexual, isso, para a supermãe Lucinha, não foi nada fácil. Assim como não foi, para o pai, ter que livrá-lo de prisões e fichas na polícia, por porte e uso de drogas. 


Para evitar a vida fácil de Cazuza, João Araújo conseguiu um emprego para ele na Som Livre, empresa que fundou e era presidente. Lá, Cazuza trabalhou no departamento artístico, onde fez triagem de fitas de novos cantores. Logo depois trabalhou na assessoria de imprensa, onde escreveu releases para divulgar os artistas. No final de 1979 fez um curso de fotografia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos, onde descobriu a literatura da Geração Beat, os chamados poetas malditos, que mais tarde teria grande influência em sua carreira. 

Depois de muito se procurar e não se achar, Cazuza ingressou no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, no Circo Voador. Foi nessa época que Cazuza cantou em público pela primeira vez. Após ser indicado pelo cantor Leo Jaime, Cazuza foi encontrar um grupo de rock que precisava de um vocalista; desse encontro, o respeito e o entendimento foram imediatos, e assim surgiu uma das maiores bandas de rock brasileiro, o Barão Vermelho, que até então era formado por Roberto Frejat (guitarra), Dé Palmeira (baixo), Maurício Barros (teclados) e Guto Goffi (bateria). Depois de um tempo, Cazuza apresentou à banda algumas de suas letras, que logo agradaram aos integrantes.

Foi nesse período que surgiu uma grande parceria e amizade com Roberto Frejat. Ambos passam a compor juntos e a banda deixou de fazer covers para criar seu próprio repertório. Entretanto, sem a ajuda de duas pessoas muito influentes e importantes, Ezequiel Neves e Guto Graça Mello, talvez a banda não alcançasse o sucesso. Ezequiel foi fundamental na carreira da banda e, posteriormente, de Cazuza; ele era produtor da Som Livre e ouviu a banda pela primeira vez numa fita demo e ficou encantado, roubou a fita para si e apresentou a Guto Graça Mello, que na época era o diretor artístico da gravadora. Juntos, convenceram um relutante João Araújo a gravar o primeiro disco do Barão Vermelho, porém, com medo de represálias dos críticos por lançar a banda de seu filho, João Araújo decidiu lançar a banda por um selo independente da gravadora. 


Com uma produção baratíssima, Barão Vermelho, gravado em dois dias, obteve boa recepção da parte de artistas. Entre estes, um dos maiores ídolos de Cazuza, Caetano Veloso, que incluiu Todo Amor Que Houver Nessa Vida durante um show no Canecão e apontou Cazuza como o maior poeta da geração e criticou as rádios por não tocarem a banda. Todo Amor Que Houver Nessa Vida (cantada também, mais tarde, por Gal Costa, Caetano Veloso e outros intérpretes) foi um dos destaques de um disco que revelou ainda Down em Mim, Billy Negão e Bilhetinho Azul. No repertório predominavam rocks básicos, dançantes e juvenis, mas havia também blues, um gênero com o qual Cazuza se identificava desde que descobrira Janis Joplin.

Sobre essas músicas, o rouco cantor desfilava letras falando despudorada e escancaradamente de amor, prazer e dor. Porém, o primeiro disco da banda não foi bem comercialmente e vendeu aproximadamente sete mil copias, o que desapontou alguns integrantes da banda. Cazuza, entretanto, dizia que isso já era passado, notícia velha, que logo estariam no auge e com muito sucesso, e ele tinha razão. 

Bem melhor gravado, Barão Vermelho 2 foi lançado em julho de 1983. O álbum ainda não seria um sucesso comercial (vendeu cerca de 15 mil cópias, quase o dobro do primeiro), mas manteve o alto nível do repertório anterior, e arregimentou um público maior para a banda com músicas como Vem Comigo, Carne de Pescoço, Carente Profissional e Pro Dia Nascer Feliz. Essa última consolidaria a dupla Frejat-Cazuza, se tornando um grande sucesso no registro feito por Ney Matogrosso, a primeira estrela da MPB a gravá-los. A escalada do grupo nas paradas, contudo, estava prestes a acontecer.

Se com Bete Balanço, filme de Lael Rodrigues, o rock brasileiro dos anos 80 chegou às telas de cinema, com a música-título, feita sob encomenda para a trilha, o Barão Vermelho chegou ao grande público. Registrada num compacto do início de 1984, a canção estourou, virando um marco no trajeto da banda, que também contracenava no filme. A música acabou incluída no terceiro LP, lançado em setembro daquele ano, para ajudar a sua comercialização. O que talvez nem tivesse sido necessário, pois Maior Abandonado, impulsionado pela faixa homônima, atingiu em dois meses a marca das 60 mil cópias vendidas, e em seis, das 100 mil.

“Raspas e restos me interessam (…) Mentiras sinceras me interessam”, em Maior Abandonado; “Você tem exatamente três mil horas/ Pra parar de me beijar (…) Você tem exatamente um segundo/ Pra aprender a me amar”, em Por Que a Gente é Assim?; “A fome está em toda parte/ Mas a gente come/ Levando a vida na arte”, em Milagres. Com achados como esses, presentes no novo álbum, Cazuza foi ganhando fama de poeta do rock brasileiro. 


Com muita energia, ele foi superando suas limitações como cantor. Suas atitudes irreverentes e declarações espalhafatosas, fizeram com que aparecesse cada vez mais como artista e personalidade. A princípio, tudo isso só contribuía para chamar a atenção para o grupo todo. Entretanto, a estrela de Cazuza se ascendia de forma egocêntrica. Ele era a estrela do grupo e queria fazer as coisas ao seu modo, o que foi gerando diversos atritos com a banda e, com uma maior exigência de profissionalismo, as diferenças se ressaltavam. O temperamento irrequieto de Cazuza pouco se adequava a uma agenda cada vez mais sobrecarregada de ensaios e entrevistas. Os desentendimentos foram crescendo. 

Em janeiro de 1985, o Barão fez uma bem-sucedida participação no festival Rock in Rio, abrindo shows para grandes atrações do rock internacional. Entretanto, Cazuza se sentia cada vez mais pressionado por conta dos shows e compromissos do Barão; certa vez, antes de um show, revelou a Ezequiel Neves pela primeira vez a insatisfação que lhe afligia, queria naquele instante voltar a ser o que era antes, um cara descompromissado e boêmio, algo que o sucesso não lhe permitia mais. Cazuza deixaria a banda a fim de ter liberdade para compor e se expressar, musical e poeticamente. Em julho de 1985, durante os ensaios do quarto álbum, Cazuza deixou o Barão Vermelho para seguir carreira solo. 

Pouco depois da separação, Cazuza foi internado num hospital do Rio com 42 graus de febre. Diagnóstico: infecção bacteriana. O resultado do teste HIV, que ele exigiu fazer, dera negativo. Mas naquela época os exames ainda não eram muito precisos. 

Gravado com outros músicos, o álbum Cazuza apresentou uma sonoridade mais limpa que a do Barão. Lançado em novembro de 1985, o disco inaugurou a fase individual do cantor e uma série de parcerias. Entre os co-autores das músicas figuraram dois antigos colaboradores: Frejat, que continuou parceiro e amigo de Cazuza, e Ezequiel Neves, outro velho e grande amigo, co-produtor, desde os tempos do Barão, de todos os seus discos. 


A musica de estreia do álbum Exagerado é praticamente o reflexo de sua personalidade, o romântico-poético. Inicialmente, Cazuza compôs a musica em homenagem ao amigo Ezequiel Neves, porém, depois de concluída, percebeu que a música o retratava com perfeição, com seus versos ritmados e bem poéticos “Amor da minha vida, daqui até a eternidade/ Nossos destinos foram traçados na maternidade” foi o grande sucesso na estreia de sua carreira solo. 

Ainda compunha o álbum faixas como Medieval II, que fixou nas rádios seu auto-irônico refrão (“Será que eu sou medieval?/ Baby, eu me acho um cara tão atual/ Na moda da nova Idade Média/ Na mídia da novidade média”). E Só as Mães são Felizes, que teve sua execução pública proibida pela censura. Escandalosa (“Você nunca sonhou ser currada por animais? (…) Nem quis comer sua mãe?”), a letra homenageou artistas malditos, como o escritor beat Jack Kerouac, citado no verso-título.   

E com grata surpresa também estava no repertório desse primeiro disco uma das mais belas canções que Cazuza já compôs Codinome Beija-Flor, que trazia versos provocativos e instigantes “Pra que mentir/ Fingir que perdoou/ Tentar ficar amigos sem rancor/ A emoção acabou/ Que coincidência é o amor/ A nossa música nunca mais tocou”

Lançado em março de 1987, Só Se For a Dois foi o primeiro álbum de Cazuza fora da Som Livre, que resolvera dissolver o seu cast. Disputado por várias gravadoras, ele se transferiu para a Polygram, a conselho do pai. A essa altura, apesar da imagem de artista “louco”, sua postura profissional já era outra. O rompimento com o Barão, junto com a liberdade artística que almejara, trouxera também a exigência de mais seriedade. 


Neste álbum Cazuza explora mais suas nuances de poeta. Só Se For a Dois acrescentou novos sucessos à sua carreira, a começar pela canção-título, mas a música que estourou mesmo foi o pop-rock O Nosso Amor a Gente Inventa (Estória Romântica). Em seguida ao lançamento, uma turnê nacional mostrou um show mais elaborado que os anteriores, em termos de cenário e iluminação. Cazuza se aprimorava e decolava: seus espetáculos lotavam, suas músicas tocavam e a crítica elogiava seu trabalho. 

A essa época, contudo, ele já sabia que estava com AIDS. Antes de estrear o show Só Se For a Dois, tinha adoecido e feito um novo exame. A confirmação da presença do vírus iria transformar sua vida e sua carreira. 

Em outubro de 1987 após uma internação numa clínica do Rio, Cazuza foi levado pelos pais para Boston, nos Estados Unidos. Lá, passou quase dois meses críticos, submetendo-se a um tratamento com AZT. Ao voltar, gravou Ideologia, no início de 1988, um ano marcado pela estabilização de seu estado de saúde e pela sua definitiva consagração artística. O disco vendeu meio milhão de cópias. Na contracapa, mostrava um Cazuza mais magro por causa da doença, com um lenço disfarçando a perda de cabelo em função dos remédios.

No seu conteúdo, um conjunto denso de canções expressou o processo de maturação do artista. “O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll”, confessava ele, em Ideologia. E: “Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva”, em Boas Novas. Rico e diverso, o repertório trouxe ainda um blues, o Blues da Piedade, uma canção “meio bossa nova e rock ‘n’ roll”, Faz Parte do Meu Show, grande sucesso, e o rock-sambão Brasil, que faria um sucesso ainda maior com Gal Costa. Tema de abertura da novela Vale Tudo, da Rede Globo, Brasil fez um comentário social forte sobre o país, com versos como “meu cartão de crédito é uma navalha”. No disco, a temática social apareceu também em Um Trem Para as Estrelas, feita com Gilberto Gil para o filme homônimo de Carlos Diegues. 

Ainda em 1988, Cazuza recebeu o Prêmio Sharp de Música como Melhor Cantor Pop-Rock e Melhor Música Pop-Rock, com Preciso Dizer Que Te Amo, composta com Dé e Bebel Gilberto, e lançada por Marina. E apresentou no segundo semestre seu espetáculo mais profissional e bem-sucedido, Ideologia. Dirigido por Ney Matogrosso, Cazuza buscou valorizar o texto no show, pontuado pela palavra “vida”. Substituiu a catarse das performances anteriores por uma postura mais contida no palco. Tal contenção, porém, não o impediu de exprimir sua verve agressiva e escandalosa num episódio que causou polêmica. Cantando no Canecão, no Rio, cuspiu na bandeira nacional que lhe fora atirada por uma fã. 


Esse episódio repercutiu muito na época e o artista explicou em uma carta aberta que o motivo de ter cuspido na bandeira nacional não foi por falta de respeito ao país e sim ao momento que o Brasil passava naquela época, e relembrou que, ainda como integrante do Barão Vermelho no Rock in Rio em 1985, se enrolou na bandeira brasileira, celebrando a democracia que invadia o país e acabava com a ditadura militar, parafraseando a canção que alçou o Barão ao sucesso ele dizia “Pro dia nascer feliz pra todos amanhã, um Brasil novo, pra uma galera esperta”.   

O show viajou o Brasil de norte a sul, virou programa especial da Globo e disco. Lançado no início de 1989, Cazuza Ao Vivo – O Tempo Não Pára chegou ao índice de 560 mil cópias vendidas. Reunindo os maiores sucessos do artista, trouxe também duas músicas novas que estouraram: Vida Louca Vida, de Lobão e Bernardo Vilhena, e O Tempo Não Pára, de Cazuza e Arnaldo Brandão. Esta – título do trabalho – condensou, numa das letras mais expressivas de Cazuza, a sua condição individual, de quem lutava para se manter vivo, com a do povo brasileiro. 

Foi pouco depois do lançamento do álbum que ele reconheceu publicamente que estava com AIDS, sendo a primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Era então notória - e notável – a sua afirmação de vida. À medida que seu estado piorava, ao contrário de se deixar esmorecer ante a perspectiva do inevitável, Cazuza, ciente do pouco tempo que lhe restava, passou a trabalhar o mais que podia. Entrou num processo compulsivo de composição e gravou, de fevereiro a junho de 1989, numa cadeira de rodas, o álbum duplo Burguesia, que seria seu derradeiro registro discográfico em vida.

Em outubro de 1989, depois de quatro meses seguindo um tratamento alternativo em São Paulo, Cazuza viajou novamente para Boston, onde ficou internado até março do ano seguinte. Seu estado já era muito delicado e, àquela altura, não havia muito mais o que fazer. Foi assim que ele morreu, pouco depois – em 7 de julho de 1990. O enterro aconteceu no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua sepultura está localizada próxima às de astros da música brasileira como Carmen Miranda, Ary Barroso, Francisco Alves e Clara Nunes. 


Cazuza nos deixou ainda jovem, com 32 anos e apenas nove de carreira. Mas deixou como seu legado 126 canções gravadas, 78 inéditas e 34 para outros interpretes. Das canções que foram gravadas após sua morte, destaco duas que são simplesmente memoráveis Malandragem, que alavancou a carreira de Cássia Eller, canção essa que foi composta pela dupla Cazuza-Frejat; e Poema, interpretada por Ney Matogrosso. 

Cazuza era irreverente, boêmio e genial. Sua vida louca custou uma vida breve, porém vivida ao máximo. Muitos podem questionar suas ações quanto pessoa, entretanto seu talento foi e é inegável, suas músicas continuam encantando gerações com o passar do tempo, tanto que esse que vós escreve não teve o prazer de ver Cazuza em vida, visto que quando o artista faleceu eu tinha apenas três anos, porem sou um fã confesso, e apaixonado por esse artista que continua cada vez mais atual e vivo no coração dos fãs.

 #VivaCazuza!

Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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1 comentários:

Alexandre Melo disse...

Nunca foi dos meus favoritos mas, sempre admirei sua poesia

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