20 de dez de 2014

Boa Sorte, de Carolina Jabor





Há cerca de três anos, quando li uma nota com foto de Deborah Secco, assustadoramente magra para interpretar um personagem HIV positivo no cinema, imaginei que seria um filme punk, barra-pesada, com muito sexo, muita droga e muita desgraça. E mesmo assim fiquei muitíssimo ansioso para conferí-lo, porque só a caracterização de Deborah, parecia valer o ingresso.

Com maiores detalhes do filme, finalmente sendo divulgados em seu ano de estreia, descubro que Boa Sorte se trata tão somente de uma história de amor, baseada no conto Frontal Com Fanta, de Jorge Furtado. O longa, dirigido por Carolina Jabor, narra a história de João, adolescente de 17 anos, que é internado pelos pais em uma clínica de reabilitação de toxicômanos por ter se viciado em Frontal, um ansiolítico que age deprimindo o sistema nervoso central, produzindo efeito tranquilizante. Na clínica, João conhece Judite, mulher de 30 anos, com quem cria um vínculo imediato, não demorando muito à se apaixonar por ela.

Judite não conheceu o pai. Perdeu a mãe muito cedo e foi criada pela avó Célia. Com as rédeas soltas da avó, logo caiu no mundo experimentando tudo o que queria e, consequentemente, viciando-se. Diagnosticada com AIDS e com seu sistema imunológico rejeitando os coquetéis, Judite internou-se para esperar a morte. O que ela não imaginava é que lá também encontraria o amor.


João, que era inexistente para os pais, e Judite, que nunca soube o que era ter uma família de verdade, encontram-se num ponto crucial da vida de ambos. Pra ele, a estadia na clínica e o romance com Judite representam um novo começo, de onde ele sairá recuperado, mais forte e amadurecido. Pra ela, a história de amor com João significa um novo fim, uma forma bonita e poética de dizer adeus e se despedir da vida.

Boa Sorte tem alguns pontos que valem à pena ser considerados. Primeiro, é um alívio, em meio à tantas comédias e filmes-favela, ver um bom drama brasileiro. Segundo, tinha tudo pra ser um drama rasgado, meloso, tristíssimo, na mesma pegada dos americanos com histórias de amor protagonizadas por personagens com doenças terminais (em sua maioria câncer) como Tudo Por Amor A Culpa é Das Estrelas, mas embora a melancolia ronde todo o tempo a narrativa, o humor se insere na trama de forma bem dosada, deixando o filme leve na medida do possível, e a doença da mocinha é mais polêmica, diretamente ligada ao sexo, o que causa um frisson a mais. Terceiro, o elenco, além da sempre arrebatada Deborah Secco (ainda bonita, mesmo seca e com seios belíssimos, exibidos em muitas cenas), trás o frescor do novato João Pedro Zappa, que já havia feito na TV as séries Cinquentinha (2009) Segunda Dama (2014), com destaque para personagens rebeldes e revoltados, aqui mostra uma interpretação mais suave; sem falar nas luxuosas participações de Cássia Kis Magro e a soberana Fernanda Montenegro como a avó de Judite, que em poucas cenas nos faz agradecer aos céus por ainda estar entre nós, podendo nos agraciar com tamanho talento. Ainda tem Gisele Fróes, Felipe Camargo, Enrique Diaz e Pablo Sanábio, todos ótimos.

O final, que remete a O Pequeno Príncipe, é de uma beleza lúdica e tão doce, que é difícil não arrancar ao menos uma lagrimazinha bem discreta, pois como já disse, não é um filme pra você se descabelar de chorar, mas pra pensar e refletir no significado da vida e da morte, dos encontros, das escolhas, do amor. Pelo menos foi assim pra mim.

Mas pra você tirar suas próprias conclusões, vá ao cinema e Boa Sorte!
Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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