28 de dez de 2014

#DocPop: Cássia Eller, Quem Sabe Ela Ainda é Uma Garotinha




Ela nasceu em 10 de dezembro de 1962, Cássia Rejane Eller, e morreu aos 39 anos, no dia 29 de dezembro de 2001, simplesmente Cássia Eller, no auge de uma carreira visceral e brilhante. E hoje, o último #DocPop do ano homenageia a eterna intérprete de Malandragem Por Enquanto em seus 13 anos de morte.

Cássia Eller nasceu no Rio de Janeiro, filha de um sargento pára-quedista do exército e de uma dona de casa. Seu nome foi sugerido pela avó, devota de Santa Rita de Cássia, mas que graças a Deus, de santa não teve nada. Aos 6 anos, a pequena carioca, mudou-se com a família para a capital mineira, Belo Horizonte. Aos 10, foi para Santarém no Pará e, aos 12 anos, voltou para o Rio. O interesse pela música começou aos 14 anos, quando ganhou um violão de presente. Tocava principalmente músicas dos Beatles. Aos 18, chegou à Brasília, para onde sua família se mudou. Ali, cantou em coral, fez testes para musicais, trabalhou em duas óperas como corista, além de se apresentar como cantora de um grupo de forró. Também fez parte, durante um ano, do primeiro trio elétrico de Brasília, denominado Massa Real, e tocou surdo em um grupo de samba. Trabalhou em vários bares, tocando e cantando. Despontou no mundo artístico em 1981, ao participar de um espetáculo de Oswaldo Montenegro.

Aos 19 anos, querendo sua liberdade pessoal, foi para BH atrás de um lugar para morar e um emprego, o que conseguiu assim que chegou, passando a trabalhar como servente de pedreiro. "Fiz massa e assentei tijolos", contava. Lá, morava em um pequeno quarto. Na escola, não chegou a terminar o ensino médio, por causa dos shows que fazia, cada dia num turno diferente, não tinha horário para se dedicar aos estudos.

Caracterizada pela voz grave e ecletismo musical, interpretou canções de grandes compositores do rock brasileiro, como Cazuza e Renato Russo, além de artistas da MPB, como Caetano Veloso e Chico Buarque, passando pelo pop de Nando Reis, do rap de Xis e o incomum de Arrigo Barnabé e Wally Salomão, até sambas de Riachão e rocks clássicos de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Rita Lee, Beatles, John Lennon e Nirvana.

Cássia teve uma trajetória musical bastante importante, embora curta, com algo em torno de dez álbuns próprios gravados no decorrer de 12 anos de carreira. De fato, somente em 1989 sua carreira decolou. Ajudada por um tio, gravou uma fita demo com a canção Por Enquanto, de Renato Russo. Este mesmo tio levou a fita à PolyGram, o que resultou na contratação de Cássia pela gravadora. Sua primeira participação em disco foi em 1990, no LP de Wagner Tiso intitulado Baobab.


Porém, minha primeira lembrança de Cássia Eller, que ficou cristalizada em minha memória como ferro em brasa, é o clipe de 1993, onde ela divide os poderosos vocais com Edson Cordeiro, num medley de Rainha da Noite I Can't Get No (Satisfaction), algo surreal, deslumbrante e inesquecível.

Mas foi com a canção Malandragem, de Cazuza, gravada em 1994 para seu terceiro álbum, Cássia Eller, que Cássia despontou para o sucesso. A música foi incluída na trilha da primeira temporada de Malhação, no ano seguinte, e tocou à exaustão nas rádios e como tema da doce e apaixonada Luísa (Fernanda Rodrigues), que cultivava um amor platônico por seu professor de jiu-jitsu. Versos simples e tocantes como "quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola sozinha", "quem sabe o príncipe virou um chato que vive dando no meu saco, quem sabe a vida é não sonhar" e "eu só peço a Deus um pouco de malandragem, pois sou criança e não conheço a verdade", marcaram a vida de toda uma geração. Ironicamente, a canção que foi composta especialmente para Ângela Ro Ro e rejeitada pela mesma em 1988, que recusou-se a gravá-la, acabou sendo o estopim para a popularização de Cássia Eller seis anos depois.

Cássia Eller foi gravado no estúdio pessoal de Guto Graça Mello, sem que a PolyGram soubesse. Isso aconteceu porque a cantora, após o pouco sucesso comercial de seus dois primeiros trabalhos (Cássia Eller O Marginal), estava decidida a pedir demissão, desanimada com tal situação. O disco foi o primeiro gravado após o nascimento de Chicão, filho de Cássia. Segundo Guto, ela parava as gravações pra amamentar o filho, até o disco ficar pronto. A influência de Chicão, porém, foi enorme. Segundo Maria Eugênia, companheira de Cássia, ele gostava de ouvir o disco Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão, da cantora Marisa Monte, o que acabou por inspirar Cássia na seleção do repertório e na gravação. Uma vez apresentado a gravadora, Cássia Eller foi imediatamente aprovado. Com a pretensão de ser um álbum de apenas regravações, canções inéditas como Malandragem E.C.T fizeram grande sucesso e releituras de Partners, do RPM, Lanterna dos Afogados, dos Paralamas do Sucesso e Pétala, de Djavan, tornaram Cássia Eller a grande revelação da MPB naquele ano.

Daí em diante, Cássia só colheu os louros da fama batalhada desde muito jovem. Tornou-se grande amiga de Nando Reis, o que transformou-se numa parceria de muito sucesso. Num depoimento sobre Cássia, Nando comparou sua relação com ela com a de Gal e Caetano, pois tal e qual essa dupla, Nando também compôs diversas músicas para Cássia. E Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo, de 1999, foi um trabalho realmente especial, pois além de composições de Nando como O Segundo Sol, Infernal, As Coisas Tão Mais Lindas e Meu Mundo Ficaria Completo, o álbum também foi produzido por ele. Neste CD também está incluída Gatas Extraordinárias, presente de Caetano Veloso, que fez grande sucesso como tema na novela Laços de Família, em 2000. A capa de Com Você... foi uma surpresa para os fãs de Cássia, pois a mesma, sempre de cabelos curtos e masculinizada, estampava o álbum numa foto sensual só de camiseta e calcinha, com longos fios de cabelo cobrindo parte do rosto.


Com o Brasil já absolutamente arrebatado pela voz gutural e as canções sentimentais e provocantes de Cássia Eller, eis que chega o maravilhoso e fatídico ano de 2001 para a cantora, um ano bastante produtivo. Em janeiro de 2001 apresentou-se no Rock in Rio 3, num show em que baião, samba e clássicos da MPB foram cantados em ritmo de rock. Neste dia, o organograma de apresentação foi o seguinte: R.E.M, Foo Fighters, Beck, Barão Vermelho, Fernanda Abreu e Cássia Eller. 190 mil pessoas compareceram a esta apresentação.

Em março, a cantora gravou um DVD, nos moldes de sua preferência, ao vivo, o Acústico MTV, no qual Cássia contou com um grupo de alto nível técnico e artístico. Este álbum foi composto por 17 faixas, acrescidas do Making Of, galeria de fotos, discografia e iClip. Entre maio e dezembro, Cássia Eller fez 95 shows. O álbum vendeu até hoje mais de um milhão de cópias e se tornou o maior sucesso da carreira de Cássia, sendo que até então, apesar das boas vendagens e da experiência, ela não era considerada uma cantora extremamente popular. E mais uma vez, uma canção deste álbum, composta por Nando Reis, foi sucesso absoluto, Relicário.

No mesmo ano de 2001, ela se apresentou ao lado de Rita Lee, Roberto de Carvalho e Nando Reis com Top Top d'Os Mutantes, presente em seu Acústico MTV.

No fim do ano, ela se apresentaria na Praça do Ó, na Barra da Tijuca, no Rio, em comemoração aos festejos do Réveillon. Faleceu dois dias antes em 29 de dezembro, sendo substituída por Luciana Mello. Em vários pontos do Rio de Janeiro, fez-se um minuto de silêncio durante a homenagem da passagem do ano em memória de Cássia Eller. Vários artistas também prestaram homenagem à cantora em seus shows, na virada do ano.

Cássia veio a falecer em razão de um infarto do miocárdio repentino. Foi levantada a hipótese de overdose de drogas, já que era usuária de cocaína desde adolescente. A suspeita foi considerada inicialmente como causa da morte, porém foi descartada pelos laudos periciais do IML do Rio de Janeiro após necropsia.


Nos palcos, Cássia Eller parecia bruta, agressiva, transgressora e libertária, mas fora dele era tímida, doce e suave. Eu, que fiquei enlouquecido por ela nos últimos anos de sua existência, pude conferir a um show seu em novembro de 2001, um mês antes dela partir e, quando recebi a notícia, não consegui acreditar, era ironia demais. Uma artista que eu começava a amar profundamente desaparecia para sempre, da mesma forma como aconteceu com seu amigo Renato Russo, que se foi pra nunca mais voltar no mesmo ano em que eu começava a descobrir suas canções perfeitas. E foi de Renato uma das composições mais lindas feitas para Cássia, 1° de Julho onde, encantado pela composição familiar de Cássia, Chicão e Maria Eugênia, escreveu os versos: 
"Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher / Sou minha mãe e minha filha / Minha irmã, minha menina / Mas sou minha, só minha e não de quem quiser / Sou Deus, tua deusa, meu amor / Alguma coisa aconteceu / Do ventre nasce um novo coração."
Até hoje, ninguém superou Cássia Eller, porque sua força está em ser insuperável. E como cantou a própria em uma de suas belas canções, nesta, uma versão de Cole Porter para Every Time You Say Goodbye: 
"Toda vez que eu digo adeus, eu quase morro!" 
E seus fãs continuam morrendo um pouquinho mais, cada vez que ouvem essa voz inigualável, que nos deixou tão cedo. Morrendo de tristeza e de saudade!
Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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