28 de jan de 2015

Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu




Tim Burton dirigiu o divertido e sarcástico Os Fantasmas se Divertem, em 1988 e, com o sucesso do filme, o orçamento para o novo Batman da época foi aprovado. O diretor iria comandar a produção e teve grandes dificuldades em encontrar o ator para personificar o personagem icônico. Depois de algum tempo, escolheu Michael Keaton, com quem trabalhara no mesmo Os Fantasmas se Divertem. O ator provocou uma onda negativa dos fãs, que não concordaram que um comediante franzino pudesse vestir o uniforme do Homem Morcego. Mesmo com tal reação, o filme foi um imenso sucesso, dando origem a uma franquia. Michael Keaton retornou na segunda parte e ficou por ali mesmo. O ator bem que tentou, mas ele seria o Batman dali pra frente, o Batman que ninguém queria se tornou um ator que ninguém queria. 

O premiado Alejandro González Iñárritu ficou conhecido pela trilogia do caos. Os filmes Amores Brutos, 21 Gramas e Babel catapultaram a visão do cineasta sobre o mundo, ora pessimista, ora realista, mas no fundo, otimista. O mundo é cruel, mas pode haver beleza. Em Birdman, o cineasta reinventa-se sem deixar de ser o que tornou conhecido. Ao contar a história de um ator que no passado fez sucesso como o Homem Pássaro, tornara-se celebridade e agora tenta provar seu talento como grande ator na Broadway, ele não apenas resgatou Michael Keaton, mas também mais uma vez traz para o grande público seu talento superlativo como realizador. 

É óbvio que se note as comparações entre o personagem principal e seu intérprete, e que elas sejam citadas a todo tempo. Tanto um quanto o outro viveram papéis que se tornaram maiores que eles mesmos. Porém, Birdman vai mais fundo, ao analisar não apenas o ator que quer dar a volta por cima na sua carreira, mas também como a fama pode ser cruel não apenas com o famoso em si, mas com quem convive com ele.


Em Birdman, Michael Keaton vive Riggan Thompson. Sua vida parece que está a desmoronar ou que uma bomba vai explodir. Ele está às vésperas de sua estreia na Broadway e precisa acertar muitas coisas antes. Uma filha recém saída da clínica de reabilitação que precisa de seu apoio, um novo ator egocêntrico que não aceita suas diretrizes, uma crítica de teatro que quer destruí-lo porque ele é uma celebridade, uma namorada que busca mais atenção e um produtor desesperado que só pensa no sucesso que a peça pode vir trazer. Em meio a tudo isso, ele ouve uma estranha voz e acredita que possui super poderes, entre eles a capacidade de voar. Iñárritu faz com que nós, espectadores, acreditemos nesses devaneios também (afinal, seriam devaneios?) e, ao usar longos planos-sequência, nos confronta a tentar entender o que cada um daqueles angustiados personagens querem nos dizer. 

Sabiamente, o roteiro se utiliza do humor, o humor negro, satírico, irônico, sarcástico, segue uma trajetória elíptica e é de fato interessante que o filme que resgate Michael Keaton à Hollywood, brinque com o mesmo humor sarcástico que o fez surgir na indústria. 

Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) concorre a nove Oscars e Alejandro González Iñárritu provou novamente que o cinema americano pode se reinventar sem fazer concessões e manter-se no mainstream

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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