25 de fev de 2015

#BaúPop: Foi Apenas Um Sonho





A triste constatação de que todos os desejos, as metas e os planos acalentados e almejados por toda uma vida não passaram apenas de sonhos inconcretizáveis permeia toda a história do casal Frank e April Wheeler no fantástico e angustiantemente melancólico Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road, no original), de Sam Mendes. E Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, que conquistaram o mundo no estrondoso sucesso Titanic (1997), revivem nesse drama contundente de 2008, a parceria encantadora de 11 anos antes.

April e Frank são dois jovens cheios de sonhos, que se casam apaixonados e empolgados com os planos de sucesso e felicidade que têm em comum. Ela, uma atriz medíocre, sonha em ser grande, reconhecida, aplaudida de pé. Ele sonha em viver em Paris e encontrar sua vocação, fazendo o que lhe dá prazer. Porém, o tempo passa, os filhos surgem, a rotina se instala e April e Frank se veem presos a uma vida muito distante daquela que sonharam.


Frank bate o ponto todos os dias na mesma empresa que seu pai trabalhou por muitos anos. Um emprego que detesta, pois se sente repetindo a vida sem graça e emoção que sempre desprezou. Mas tem um salário razoável com o qual consegue manter a família com conforto e dignidade. Já April tornou-se “apenas” uma simples dona de casa, sempre às voltas com as crianças e os afazeres domésticos. Sufocada pela rotina insípida e os sonhos não realizados, ela começa a questionar sua vida e seu casamento, tornando-se fria e distante, mas ainda existe uma faísca daquela paixão que a levou a se casar e fazer planos com aquele homem.

Pensando nisso, April tem uma ideia brilhante pra salvar seu casamento e seus sonhos. Propõe ao marido que abandonem tudo na América: casa, emprego, rotina. E se mudem pra Paris, onde ela trabalhará como secretária, enquanto ele procura algo de que goste pra fazer, como sempre quis. A princípio, Frank acha a ideia insensata, mas contagiado com a empolgação da esposa, logo se convence de que pode dar certo.


Ao saberem das novidades, os vizinhos, que acreditam que o casal tem uma vida perfeita, com uma grande e bonita casa, filhos lindos e saudáveis e um bom salário que os mantem numa vida tranquila, não entendem absolutamente nada ao verem-nos tão empolgados com tamanha loucura. Afinal, para um jovem casal na década de 1950, nada poderia ser mais perfeito do que uma vida como a deles. April e Frank até tentam explicar, mas desistem ao perceberem sua incredulidade, entendendo que são muito diferentes dos demais. Seres especiais que correm atrás dos sonhos, não se importando com as convenções.

Tudo vai bem, até que em meio aos preparativos da mudança, April descobre-se grávida do terceiro filho, fato que muda tudo na cabeça de Frank, mas não na dela. Por causa do novo bebê, Frank desiste da viagem, deixando April inconformada. Uma terrível crise se instala entre o casal, provocando muito choro, brigas, acusações, traições e agressão física.

Foi Apenas Um Sonho é um massacre emocional, me levou a nocaute e deixou meu coração em frangalhos. O assisti em um momento em que passava pelos mesmos questionamentos de April. De que vale a vida se não for pra perseguir e realizar nossos sonhos? Nada parecia dar certo, as coisas não aconteciam, não saíam do lugar, não importa o esforço que se fizesse, parecia que o universo conspirava contra. Era deprimente e doloroso, um sentimento de fracasso e inutilidade. Nunca me identifiquei tanto com uma personagem de cinema na vida. Se me perguntarem hoje qual personagem de cinema eu seria, sem sombra de dúvida, April Wheeler, mesmo com as coisas um pouco melhores agora.


O filme tem diálogos que me marcaram profundamente, April disse coisas que pareciam ter saído da minha boca. Como esse: “Nós nunca fomos especiais, ou destinados ou qualquer outra coisa”. Em que ela constata, num amargo desabafo com o vizinho, que não é especial como achava ou gostaria de ser.

Ou outro da mesma sequência, em que diz estar sem saída, porque não pode ir, mas também não pode ficar. Pra mim, essa é a sentença mais fabulosa do filme, pois justifica toda a sua angústia, desespero e amargura. Eu me sentia igual.

Em minha humilde opinião, Foi Apenas Um Sonho é um grande injustiçado pelo Oscar. Naquele ano de 2009, ele nem sequer foi indicado como melhor filme, a maior das injustiças. Kate (perfeita) Winslet foi indicada como melhor atriz por ele, mas ganhou por sua atuação em O Leitor, grande interpretação, mas não maior do que esta. E Léo DiCaprio, também excepcional, não foi indicado.

De qualquer maneira, Foi Apenas Um Sonho ganhou o Oscar do meu coração e da minha alma, num arrebatamento eterno. Sem exageros, posso dizer que esse é o grande filme da minha vida!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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