5 de fev de 2015

O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum




É uma pena que as chances de Benedict Cumberbatch ganhar o Oscar de Melhor Ator estejam tão prejudicas por conta de um filme robotizado que é O Jogo Da Imitação. Aliás, a única forma de humanização do filme vem justamente da atuação de Cumberbatch. 

O Jogo da Imitação (The Imitation Game, no original) relata a trajetória de Alan Turing, o matemático que foi o grande responsável por decodificar o sistema quase infalível de comunicação dos alemães durante a Segunda Guerra, mas cujo heroísmo foi segredo durante muitos anos. Sua trajetória é ainda mais complicada quando se adiciona o fato de que Turing era homossexual e chegou a ser condenado a um tratamento hormonal na década de 1950, quando as relações entre pessoas do mesmo sexo eram proibidas por lei na Inglaterra. 

É uma pena, portanto, que nem a direção do norueguês Morten Tyldum, nem o roteiro de Graham Moore pareçam preocupados em fazer algo além do “arroz com feijão”. A câmera é apenas correta; a trilha sonora de Alexandre Desplat não enaltece a trama como poderia; os diálogos são inconstantes – alguns são inspirados, mas há frases muito repetitivas; e até mesmo a montagem final é apenas regular. Afinal, o longa não precisava de tantas idas e vindas no tempo para mostrar a investigação policial na década de 1950 e o período em que o protagonista trabalhava na base militar britânica: bastava um ou dois cortes para apresentar um paralelo interessante, mas as interrupções chegam ao ponto de fazer o protagonista repetir uma frase totalmente inútil ao policial. 


Aliás, de comodismos a narrativa está repleta, e quando Turing é ameaçado de demissão, toda sua equipe parte em sua defesa, ainda que ninguém fosse com sua cara ou acreditasse no potencial de sua máquina (o roteiro não nos dá pistas disso), no momento emblemático em que a trilha sonora de Alexander Desplat – boa e esquecível – aposta no sentimentalismo barato. De forma semelhante, o clímax antecipado da narrativa – estou sendo generoso, pois não há nenhum – está ensaiado desde quando um personagem alerta que o período dado para resultados está chegando ao fim.

Entretanto, a menção expressa à sexualidade de Turing é o que mais me incomodou, sobretudo porque a partir de certo instante a decisão mostra-se contraproducente, dando luz a uma narrativa indecisa entre retratar a quebra do código de Enigma ou expor a dificuldade de seu protagonista em assumir a sexualidade em uma Inglaterra preconceituosa. Sem conseguir ser um ou outro Morten Tyldum atropela um dilema moral mais interessante do que o estudo do personagem: manter em segredo o sucesso da equipe, ainda que isto signifique novas mortes, a fim de dar aos Nazistas a falsa ilusão de que sua máquina era invencível e aos Ingleses um leque amplo de decisões estratégicas para vencer a guerra. 

Assim, é uma pena que um cientista tão importante (e injustiçado) tenha ganhado filmes que não tenham a qualidade que ele merece. “O Jogo da Imitação” é um filme essencial para a sociedade, mas definitivamente não precisa de nenhum Oscar, talvez apenas o de melhor ator.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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1 comentários:

melo disse...

Também achei bem mediano, filme de Oscar.

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