17 de mar de 2015

#DocPop: Elis Regina, A Voz da Emoção





Não quero acender um debate sobre quem foi à maior ou melhor cantora que o Brasil já teve. Porém, assim como muito já foi discutido sobre esse tema, o #DocPop de hoje é justamente sobre uma musa que morreu cedo demais e sempre foi dita como a maior cantora do país, Elis Regina. Que, se estivesse viva, estaria completando hoje, 17/03/2015, 70 anos de idade. 

Se ela foi a maior eu já não sei, mas que está no hall das maiores e melhores, isso afirmo sem sombra de dúvidas. Elis Regina Carvalho Costa, conhecida popularmente como Elis Regina, nasceu em Porto Alegre, em 17 de março de 1945, filha de Romeu Costa e Ercy Carvalho. 

Aos onze anos de idade começou a cantar e já demonstrava um talento nato, participando de um programa de rádio para crianças chamado O Clube do Guri, na Rádio Farroupilha, apresentado por Ari Rego. Em Porto Alegre, sua família morava em um apartamento na chamada Vila do IAPI, no bairro Passo d'Areia, na Zona Norte da cidade. Revelando enorme precocidade, aos dezesseis anos lançou o primeiro LP da carreira. 

Foi contratada pela rádio Gaúcha em 1960, entretanto, só gravou seu primeiro disco no ano seguinte intitulado Viva a Brotolândia. Lançou ainda mais três discos enquanto morava no Rio Grande do Sul.

No ano de 1964, Elis partiu definitivamente para o eixo Rio – São Paulo, com sua agenda já lotada de shows. Sendo assim, assinou um contrato com a TV Rio para participar do programa Noites de Gala; também foi levada por Dom Um Romão para o Beco das Garrafas, sob a direção da dupla Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, com os quais ainda realizaria diversas parcerias, e um casamento com Bôscoli, em 1967.


Elis participou do espetáculo Fino da Bossa, organizado pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, que ficou conhecido também como Primeiro Demti-Samba, dirigido por Walter Silva, no Teatro Paramount, atual Teatro Abril (São Paulo). Ao final do mesmo ano (1964), conheceu o produtor Solano Ribeiro, idealizador e executor dos festivais de MPB da TV Record. Um ano glorioso, que ainda traria a proposta de apresentar o programa O Fino da Bossa, ao lado de Jair Rodrigues. O programa, gravado a partir dos espetáculos e dirigido por Walter Silva, ficou no ar até 1967 (TV Record, Canal 7, SP) e originou três discos de grande sucesso: um deles, Dois na Bossa, foi o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias. Era dela agora o maior cachê do show business

Elis Regina foi forjada no berço da bossa nova e, por conta disso, explorou bastante esse estilo. Porém, sendo ela uma artista completa e de uma técnica apurada, se aventurou na MPB, no Jazz, no Rock e até mesmo no Samba. Por intermédio dela foram lançados grandes artistas que não passavam de desconhecidos na época, tais como Milton Nascimento, João Bosco e Ivan Lins. 

Elis Regina criticou muitas vezes a ditadura brasileira, nos difíceis Anos de Chumbo, quando muitos músicos foram perseguidos e exilados. A crítica tornava-se pública em meio às declarações ou nas canções que interpretava. Em entrevista, no ano de 1969, teria afirmado que o Brasil era governado por gorilas (há ainda controvérsias em relação a essa declaração. Existem arquivos dos próprios militares onde ela se justifica dizendo que isso foi criado por jornalistas sensacionalistas). A popularidade a manteve fora da prisão, mas foi obrigada pelas autoridades a cantar o Hino Nacional durante um espetáculo em um estádio, fato que despertou a ira da esquerda brasileira. 


Sempre engajada politicamente, Elis participou de uma série de movimentos de renovação política e cultural brasileira, como voz ativa da campanha pela Anistia de exilados brasileiros. O despertar de uma postura artística engajada e com excelente repercussão acompanharia toda a carreira, sendo enfatizada por interpretações consagradas de O Bêbado e o Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc), a qual vibrava como o hino da anistia. A canção coroou a volta de personalidades brasileiras do exílio, a partir de 1979. Um deles, citado na canção, era o irmão do Henfil, o Betinho, importante sociólogo brasileiro.

Elis era deslumbrante no palco, com uma emoção que poucos intérpretes tem ou conseguem fazê-lo. Me impressiono em como tinha uma postura muito à frente do seu tempo; suas apresentações eram enlouquecedoras, isso porque ela transmitia com veemência o que estava sentindo ao cantar, passando por um misto de emoções, a melancolia, a tristeza, a felicidade, a alegria, todo esse torvelinho numa única pessoa. 

Suas canções continuam vivas e memoráveis até hoje. Como não se lembrar de obras de arte pura tais como a já citada O Bêbado e a Equilibrista e outras como Madalena, Como Nossos Pais, Cartomante e suas parcerias com Tom Jobim que renderam as Águas de Março, simplesmente marcante. Sua presença artística mais memorável talvez esteja registrada nos álbuns Em Pleno Verão (1970), Elis & Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Transversal do Tempo (1978), Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980). 

Elis Regina partiu muito cedo, no alto de seus 36 anos, em decorrência de uma overdose de cocaína, remédios para depressão e uísque. Uma perda irreparável para o cenário musical nacional. Fica aqui nossa homenagem e eterna lembrança de uma grande artista e grande mulher.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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