14 de mar de 2015

Império: Considerações Finais





Império estreou prometendo ser uma novela repleta do melhor texto do veterano autor Aguinaldo Silva. Mestre em armar situações que prendem o público, seus sucessos no horário nobre são antológicos. Parecia que ele queria expiar o pecado por Suave Veneno, de 1999, um tropeço que homens acostumados como o sucesso como ele não suportam ter no currículo. Falei sobre isso aqui. Ele usou as mesmas fontes de inspiração e possuía um verdadeiro arsenal de grandes ideias e um elenco charmoso e competente também.

Ao longo da novela pudemos ver o herói (não tão herói assim) José Alfredo lidando com sua família disfuncional e sua fortuna tão cobiçada. José Alfredo foi um personagem muito bem defendido por Alexandre Nero, que não saiu do tom jamais. Obviamente, não foi uma tarefa fácil, mas ele teve ao lado dele uma inspirada Lília Cabral, que soube transformar a megera Maria Martha numa personagem querida pelo público. O tom humano fez com que muitos se identificassem com aquele jogo de gato e rato que os dois atores protagonizaram e, nessa questão, o texto de Aguinaldo Silva caía como uma luva.

Outro grande personagem foi a Lorraine, de Dani Barros, que agarrou o touro à unha e construiu uma mulher cheia de fases que divertiu o público e sempre roubava seu jeito tresloucado. E vale também ressaltar os desempenhos de Caio Blat, Othon Bastos, Zezé Polessa, Tato Gabus, Marjorie Estiano e Drica Moraes. Paulo Vilhena, apesar dos exageros, pode sair da figura dos personagens que sempre lhe eram característicos, e Viviane Araújo foi uma grata surpresa, tanto nos momentos dramáticos quanto cômicos ela sempre esteve bem e poderia ter brilhado mais se não tivesse ficado num núcleo tão ridículo.



E provavelmente é aí que Império deslizou. Novelas nunca tiveram essa preocupação com coerência, mas ao escrever uma novela que se parecesse com o real, o autor acabou se perdendo em demasia com situações que o público não reconhecia, ou entendia.  Principalmente os personagens gays, que mudavam de comportamento a cada hora e parecia que não sabiam o que queriam.  O público hoje em dia está antenado e cobrou massivamente uma conformidade com os fatos reais. Personagens como a Xana, de Aílton Graça, Cláudio, de José Mayer, Leonardo, de Klebber Toledo, e Téo Pereira, de Paulo Betti, soaram falsos para o público, principalmente os que assistem e comentam nas redes sociais. Por mais que conheçamos pessoas assim, a forma como o autor exagerou ou tentou contar suas histórias passaram longe do que o público esperava. Uma pena, era a chance de ouro para estes atores que, em trabalhos anteriores, sempre mostraram competência.

Vários outros personagens tiveram suas histórias mal desenvolvidas. Por exemplo, a Tuane de Nanda Costa que ficou praticamente esquecida. Um grande ator como Jackson Antunes recebeu um papel que não tinha importância nenhuma ao longo da novela. Lastimável também ver um bom profissional como Rafael Cardoso servir apenas de joguete entre as personagens de Leandra Leal e Andreia Horta. Não tem muita função e fica apenas como figura decorativa. Andreia Horta começou a novela como a filha preferida do Comendador, mas do meio para o fim sua doçura deu lugar a uma moça mimada e chatinha. Marina Rui Barbosa também não teve muito o que fazer, a não ser ir pra cama com seu homem, cena sim, cena não. Ísis era apenas um bibelô e, por mais que a atriz se esforçasse, não tinha outra função além disso.

Em alguns momentos parecia que autor e produção não falavam a mesma língua. Mesmo muitas cenas tendo uma qualidade excepcional, em outras o amadorismo falava mais alto, coisas de quem trabalha em escala industrial pelo visto. Cenas desconexas e sem sentido deixando a ideia de que quem escrevia o texto não tinha experiência. Não é o caso de Aguinaldo Silva mas, vale frisar, a novela sofreu uma forte censura interna bem no seu começo. Não sei até hoje o porquê, mas isto acarretou em vários problemas que o autor teve que se virar para consertar depois. E a fatídica barriga (tragédia muito comum em novelas, quando não se tem muito o que fazer e fica-se enchendo linguiça) foi outro problema mal resolvido. Durante muito tempo, tramas interessantes deixaram de ser contadas ou foram apressadas e toda novela ficou em cima apenas das aventuras e desventuras do homem de preto.


O resultado final não teve nenhuma surpresa além daquilo que foi anunciado há alguns dias pela imprensa. Talvez a grande surpresa mesmo tenha sido a aparição do autor na noite de autógrafos de Téo Pereira. Entretanto, a morte de José Alfredo, assassinado pelo próprio filho, não foi lá uma das melhores cenas escritas por Aguinaldo. Longa, teve diálogos toscos que pareciam melodramas mexicanos.

A trama, de um modo geral, foi superior a Em Família, de Manoel Carlos, teve audiência melhor e personagens mais interessantes, mas o trem descarrilhou em algum momento e ninguém mais soube colocá-lo no lugar. Mesmo com uma boa audiência, Império tinha todos os ingredientes para parar o público em frente à TV, mas acabou sendo mais um arroz com feijão. E requentado, diga-se de passagem.

Que venha Babilônia.

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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