21 de abr de 2015

Babilônia: O Que Se Passa?







Babilônia estreou prometendo ser umanovela repleta de fortes emoções no horário nobre da Globo. Primeiro, porque possuía o selo Gilberto Braga. Um autor querido pelos noveleiros de plantão. Ao lado de Ricardo Linhares e João Ximenez Braga, o primeiro capítulo foi uma verdadeira aula para o espectador de como fazer uma excelente novela com fortes ganchos que prendiam o público. Excepcional.

Assistindo o capítulo de ontem, 20 de abril, percebi que a novela continua excelente. Há espaço para todos do elenco se exibirem. Os diálogos são muito bem construídos e a trama se mantém fiel ao que eles exibiram em seu início. Entretanto, essa é apenas a minha opinião, porque, infelizmente, Babilônia capenga no Ibope. Tem sofrido boicote por parte de alguns conservadores que não aceitaram o relacionamento homoafetivo de duas senhoras e até os maiores fãs do gênero tem rejeitado sua história. Mesmo com muito frisson nas redes sociais, o que acontece com a novela que tem registrado uma baixa audiência?

Lembro sempre da autora Janete Clair ao definir uma novela. 
Novela é um novelo que vai se desenrolando ao longo dos capítulos.” - Janete Clair
A mestra também preferia ter poucos atores em seu elenco, porque preferia ganhá-los a perdê-los. Babilônia possuí um excelente elenco, grandes autores, uma direção ágil e segura e, mesmo assim, o novelo não desenrola. E talvez seja isso mesmo. O novelo. Ele, o público, precisa saber imediatamente para quem torcer, para quem não torcer e onde se passa toda história. Babilônia tem vilões demais e não possui uma trama única ambientada num só lugar.


Vejamos os recentes sucessos do horário. Avenida Brasil, Amor à Vida e Império tinham espaços bem delimitados de ação. Em Babilônia está tudo espalhado em vários cenários diferentes. Outro fator que parece afugentar o público é o excesso de maldade. Beatriz (Glória Pires), Inês (Adriana Esteves), Murilo (Bruno Gagliasso), Aderbal (Marcos Palmeira), Consuelo (Arlete Salles) e Guto (Bruno Gissoni) são apenas alguns dos vilões que tem comandado as ações até agora. Restou pouco para os bonzinhos da história. Como disse antes, o público precisa saber para quem torcer. 

A trama de Rafael (Chay Suede) e Laís (Luísa Arraes), que deveria ser secundária, é muito mais interessante do que a trama do par central, Regina (Camila Pitanga) e Vinícius (Thiago Fragoso). Regina, por sinal, é uma mocinha chata. Gilberto Braga parece sofrer desse mal. O Dono do Mundo, Paraíso Tropical e Insensato Coração tiveram mocinhas assim. A diferença é que a mocinha de Camila Pitanga tem atrativos melhores que suas antecessoras e tem mais força para brilhar, mas sua interpretação está muito over. Dar uma suavizada pode fazer com que ela conquiste o público. 

Outra personagem interessante, a Alice de Sophie Charlotte, ainda está perdida. O que é natural para o seu personagem, mas o público gostaria que ela se achasse logo. Talvez agora que encontrou carinho nos braços de Evandro ela consiga isso.

Mudanças em novelas são coisas naturais, às vezes desnecessárias, mas qual autor não passou por isso? Afinal, é uma obra aberta e depende do público para se manter. Se ele for embora, os anunciantes também vão. Entendo isso. Babilônia, para mim, não mudaria nada (cá pra nós, se eu tivesse que fazer uma mudança, seria apenas na abertura, achei péssima e não faz jus a novela), mas pode mudar sem se descaracterizar, porque possui elementos fortes. Teresa e Estela são uma prova disso. Seus diálogos são sempre os melhores, mas quando você tem Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, impossível não estar inspirado.



Não podemos esquecer que nos últimos anos, o público brasileiro tem ficado cada vez mais retrógrado. Falta educação e instrução até para ver televisão. A Globo apostou alto em sua novela das nove. Comemora 50 anos e quis oferecer ao seu público cativo um produto esmerado. Ela conseguiu. Babilônia é um presente para aquele fã de telenovela que cresceu assistindo ao gênero e que possui a mente aberta. Talvez o problema seja esse. O grande público que assiste novelas ainda não está preparado para algo que o faça pensar e se sente incomodado ao se ver naqueles espelhos tão bem emoldurados. 

E se um povo não está preparado para ver um beijo entre duas pessoas que verdadeiramente se amam, o problema está nesse povo, não na novela.

Leia Também:
Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
FacebookTwitter

/div>

0 comentários:

Share