20 de mai de 2015

#BaúPop: Farenheit 451







Uma parte considerável de todo o conhecimento humano já produzido (em todas as áreas) simplesmente deixou de existir, seja pelas mãos de catástrofes naturais ou, mais comumente, vítima de conflitos internos ou externos. Não faz tanto tempo assim, temos os exemplos da Alemanha Nazista e da Rússia de Stalin, que promoveram gigantescos expurgos culturais a fim de justificar seus respectivos regimes.

Ainda que, como disse, todas as áreas da produção cultural humana tenham sofrido perda tão irreparável, é na literatura onde, entendo eu, essa perda se faz mais sentida, gritante e impossível de repor. Tomemos como exemplo a extinção da Biblioteca de Alexandria, uma porcentagem ínfima de todo o conhecimento ali angariado (e falamos de milhares e milhares de documentos, tomos, papiros e afins) sobreviveu a seguidas destruições, possibilitando aos estudiosos de hoje apenas intuir a gama total abrangida por tão rica instituição.

Mas por que os livros? Não desmerecendo as demais artes, estes possuem uma característica ímpar, que, aliada a outros fatores, pode empossar o ser humano de uma consciência e poder que talvez julgasse não possuir ou ser capaz. Não fosse assim, as religiões e governos em geral (totalitários, certamente) não os tratariam como armas, destruindo-se sem dó ou piedade.

Façamos então um exercício de imaginação: imaginem comigo uma sociedade onde, por uma série controversa e fortuita de eventos, livros são proibidos, sob qualquer forma ou espécie. A simples posse de um tomo pode representar um grande desagravo com penas severas. Imaginemos que esta mesma sociedade vive agora harmonicamente, tendo como base de sua cultura a mídia eletrônica, de conteúdo insosso e raso e onde as pessoas vivem à base de pílulas para relaxar, dormir, acordar e levar uma vida sem preocupações ou problemas.

Os laços de amizade são mais frágeis que um fio de cabelo e o conteúdo das conversas nunca se distanciam do que a mídia eletrônica ‘informa’ ou de jogos banais e infantis, emprestando a todos uma aura de paz e estabilidade plenas. Nessa mesma sociedade, houve uma inversão de papéis: os que antes prestavam serviços apagando incêndios, agora são responsáveis por iniciá-los sempre que uma biblioteca clandestina é denunciada ou localizada, são literalmente os ‘homens do fogo’.

Esse é o cenário base de Farenheit 451, a obra-prima de Ray Bradbury publicada em 1953 e que refletia o temor do autor em plena Era McCarthy, além de sua preocupação com as constantes repetições da história (vide o início do texto). Além de visionária no quesito tecnológico, com suas TVs planas e comunicadores (celulares), a obra foi profética no quesito controle de massas através da tecnologia e mídia, basta ver como hoje vivemos em função de redes sociais, celulares e meios de comunicação, desaprendendo o hábito de pensar e formar opinião e simplesmente compartilhando coisas que nem mesmo sabemos de onde saíram.



O livro ganhou uma excelente adaptação cinematográfica em 1966, dirigida por François Truffaut e, ainda que divergindo do livro em alguns quesitos, manteve a ideia original intacta e até mesmo mais poética, como na cena em que os ‘homens do fogo’ descobrem uma idosa (Bee Duffell icônica) que escondia em sua casa caindo aos pedaços uma vasta biblioteca. Ante a possibilidade de ter sua cara coleção destruída, ela não hesita e ateia fogo em si mesma e seus amados livros. Não vou adiantar mais nada, pois seria estragar o prazer imenso de primeiro ler o livro e depois assistir ao filme (faça nessa ordem, será muito mais prazeroso).



Acima de tudo é uma ode a cultura da leitura e literatura, essa arte cada vez mais menosprezada e pouco praticada por tantos.

Leia Também:
Leandro Faria  
Alexandre Melo: da capital de São Paulo, é amante do centro velho decadente e dos botecos do centro. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
FacebookTwitter


0 comentários:

Share