5 de mai de 2015

O Dono do Mundo: Pílulas Nostálgicas da Novela dos Anos 90





Para quem não sabe, a novela O Dono do Mundo, exibida originalmente pela Rede Globo no começo da década de 1990, está sendo reapresentada pelo canal Viva. Escrita por Gilberto Braga, foi um calo na programação da emissora na época. Enquanto a Globo comemorava o sucesso de Vamp perante o público jovem, a novela das oito era boicotada pelo público, que não aceitava sua história. Recentemente, o mesmo Gilberto Braga vê isso acontecer com Babilônia, entretanto, O Dono do Mundo só manteve a audiência porque na época a concorrência era quase inexistente. Mesmo com o SBT fazendo barulho com suas novelas mexicanas. 

O Dono do Mundo partia de uma trama principal frágil. A professora Márcia (Malu Mader) ia se casar virgem com Walter (Tadeu Aguiar), ambos residentes no subúrbio carioca de Madureira. O patrão de Walter, o cirurgião-plástico Doutor Felipe Barreto (Antônio Fagundes), ao descobrir que a jovem se casaria virgem, aposta uma caixa de champanhe com melhor amigo, Júlio (Daniel Dantas), que manteria relações sexuais com Márcia antes de Walter. Para isso, armou um plano (cheio de falhas, mas não vamos focar nisso) e conseguiu seduzir a moça, a ponto que ela se entregou a ele antes do marido. Apaixonada, mas cheia de culpa, Márcia conta tudo para o marido que, desesperado, se mata. 

Como disse antes, a trama era frágil e, por isso, não empolgou o público, que não aceitou ver a heroína bater na porta de Felipe para se entregar a ele. Por mais sedutor que ele tivesse sido, os valores morais do público (que não mudaram tanto assim ao longo dos anos) falaram mais alto e repudiaram Márcia durante toda a novela. Mesmo com o autor tentando, ninguém engolia a jovem. O mais engraçado era que a garota de programa Taís (Letícia Sabatella), e a cafetina de luxo Olga (Fernanda Montenegro) eram personagens queridas por esse mesmo público. Vai entender a cabeça do povo, não é? Mas enfim... 


Com audiência caindo, a luz vermelha se acendeu e o autor foi obrigado a mudar tudo. A novela então teve várias fases. Na primeira, víamos Felipe Barreto mostrando como era fácil levar as mulheres para cama com seu charme e poder. Stela (Glória Pires), sua esposa, aparecia como uma dondoca boboca e apaixonada, que acreditava em tudo que o marido dizia. A única trama paralela que parecia importar era a do amor entre Taís e Beija-Flor (Ângelo Antônio). Ela queria se dar bem a qualquer custo, ele queria vencer trabalhando honestamente. Quaisquer semelhanças com as personagens de sua novela anterior, Vale Tudo (Maria de Fátima e Raquel) não são mera coincidência. 

Na segunda fase, Márcia se vinga de Felipe Barreto e consegue colocar o médico atrás das grades, além de caçar seu registro de médico. Nesta fase, ela se apaixona por outro médico, o correto Doutor Otávio (Paulo Gorgulho estreando na Globo depois do sucesso de Pantanal, na Rede Manchete). Porém, ela ainda nutre uma paixão mal resolvida por Felipe, que a essa altura está no fundo do poço e tentando provar que é um ser humano capaz de se arrepender de suas atrocidades. Taís se casa com o milionário William (Antônio Calloni), para tristeza de Beija-Flor. O melhor aqui fica por conta dos personagens Vicente (Cláudio Corrêa e Castro) e Almerinda (Beatriz Lira), que de pobretões do subúrbio viram novos ricos deslumbrados com aparelhos de fax e celular. Nesta fase, a grande protagonista foi Stela, que deixou de ser apenas uma socialite, arregaçou as mangas e arrumou emprego na produtora de Rodolfo (Kadu Moliterno), seu grande amor. 


Por fim, a última fase. Sem mais nada o que contar, a novela já havia se descaracterizado de tal forma que a única coisa a fazer era seguir com o que havia. Gilberto Braga apelou para o mistério e transformou William num homem obcecado pelo amor de Taís. Mesmo com as armações de Karen e Constância Eugênia, Stela e Rodolfo se acertam. Mas o grande fiasco foi Felipe Barreto ter se revelado o escroque que era no começo da novela. Foram meses enganando o público. 

Um fato curioso e que merece nota é reconhecer a escritora Fernanda Young atuando como a empregada de Stela e Felipe. De qualquer forma, O Dono do Mundo merece ser revista apenas para matar a saudade de atores como Paulo Goulart, Cláudio Corrêa e Castro, Hugo Carvana, Odete Lara e Daniella Perez. Mas o melhor mesmo é rever o primeiro papel de Leticia Sabatella na televisão. Seu jeito doce encantou a todos e a transformou num dos mitos dos anos 90, que ainda perduram até hoje.

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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