19 de ago de 2015

Corações de Ferro, de David Ayer




A Segunda Guerra Mundial foi, sem dúvidas, um dos confrontos mais devastadores que a humanidade já viu, e sua reprodução no cinema é enorme, já tendo sido retratada em bons filmes como O Resgate do Soldado Ryan, Bastardos Inglórios, O Jogo da Imitação, A Vida é Bela, entre outros. E ainda serve até hoje como pano de fundo de bons filmes como Corações de Ferro (Fury, no original), que assisti recentemente. 

Primeiramente, quero ressaltar o trabalho de David Ayer, que assina a direção e roteiro do filme. Inicialmente apegado ao gênero policial, o diretor sempre optou por levar seus personagens melancólicos e repletos de angústias para o meio de cenários violentos e extremistas, onde as únicas opções são matar ou morrer e, em meio a tudo isso, os conflitos internos de cada um vão adquirindo novas proporções. Foi assim com Tempos de Violência, Os Reis da Rua e Marcados Para Morrer, filmes densos que, em meio a um gênero já também carente de ideias, buscavam trazer olhares diferenciados e até intimistas sobre seus personagens. 

Corações de Ferro se passa em abril de 1945 e um grupo e soldados aliados está na Alemanha nazista lutando contra os últimos resistentes do país. É nesse cenário que conhecemos o sargento Dón “Wardaddy” Collier (Brad Pitt), que lidera um grupo de cinco soldados, incluindo o jovem Norman Ellison (Logan Lerman), que entrou para substituir um membro da tripulação morto em combate. 

Deslocando-se no interior de um tanque intitulado Fury, os soldados partem em uma missão nos territórios alemães. Enquanto divergências vão surgindo entre si conforme as situações enfrentadas durante o sangrento percurso, vão assumindo proporções cada vez mais trágicas e sufocantes. De fato, o próprio tanque funciona como uma metáfora da sensação de claustrofobia e angústia que Ayer constrói em cima de seus personagens. Ao manter seu foco numa linha direta, o roteiro não se limita a incontáveis sequências de tiros e explosões e bombas, mas elabora uma história que não vilaniza apenas um lado, mas sim humaniza aqueles rostos que, sabemos, jamais serão os mesmos quando saírem dali. 

Exemplo disto é o personagem de Logan Lerman (que deixou de ser apenas um rostinho bonito após o lindíssimo As Vantagens de Ser Invisível) que, pelo fato de jamais ter estado em um campo de batalha, não consegue esconder seu medo diante de uma situação que lhe obrigará a escolher entre a sua vida ou a de outros. Possivelmente, muitos condenarão a ingenuidade um tanto excessiva do garoto, mas Ayer toma esta personalidade e a utiliza como um mote para explorar sentimentos que jamais estiveram presentes na guerra: a compaixão e a esperança. 

E como o personagem de Brad Pitt assume uma postura menos compassiva (num perfeito contraponto ao seu Aldo Raine, de Bastardos Inglórios), é extremamente válida a longa e lindamente roteirizada sequência na casa de uma mulher alemã e sua filha, onde Ayer não economiza na romantização e, justamente por isso, consegue trazer ao seu filme um toque ainda mais humano sobre aquilo que se perde na guerra. 

Quem apontar a cena como um momento irreal não estará errado, mas os objetivos de Ayer são outros, entre eles, buscar um sentimento de humanidade que se perde conforme corpos e sangue vão manchando o caminho dos soldados. Corações de Ferro é uma história fictícia sobre o tema e, portanto, possui liberdade suficiente para que o diretor experimente estas opções narrativas, desde que as mesmas consigam adicionar algo para a experiência. E felizmente, o consegue. 


Enxergar com naturalidade toda a destruição de valores morais e cenários familiares é um ponto enfatizado ao longo da trama, e as contradições humanas se manifestam na figura do novato, que logo entende que as regras de civilidade foram rasuradas pelo ferro e pelo sangue e, para sobreviver, é preciso se adaptar. 

As cenas de ação são bem trabalhadas e embora pareçam lentas são muito realistas, pois se considerarmos a tecnologia da época, é condizente. Me agradou o cuidado estético do filme e a escolha da paleta de cores que o torna mais sombrio e, de certo ponto, poético. 

Minha única ressalva fica no velho e enferrujado clichê do ato heroico dos soldados norte-americanos, que passa a ideia de pessoas que mesmo sabendo que não obterão resultados mediante a uma força maior, se propõem a lutar e se sacrificar em nome de uma causa. Fora isso, o resultado final do longa é satisfatório, e ressalto o elenco como espinha dorsal do filme, visto que as atuações são relevantes. 

Fica a dica para quem gosta de um bom filme de guerra com uma carga de drama emocional, e dessa vez o título do filme em português faz mais sentido do que o original. 

Abraços e até a próxima!

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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