31 de ago de 2015

Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert





O cinema brasileiro vive de fases. Desde que os filmes nacionais voltaram a ser produzidos em maior escala (e eu lembro que os primeiros filmes nacionais que assisti - e me lembro de apreciar - foram Carlota Joaquina e O Quatrilho, do já distante ano de 1995), tivemos a fase dos dramas, dos favela movies, das comédias escrachadas (que persistem e ainda hoje são o filão do momento). E, eventualmente, um ou outro longa que chamava a atenção por fugir da produção em larga escala vigente e que conquistava público e crítica.

Eu, que assisto de tudo um pouco e não tenho grandes preconceitos, adoro descobrir um desses trabalhos e ser levado por ele. Mergulhar em boas histórias, que divertem, mas que também falam um pouco mais com o público disposto a pagar uma entrada de cinema, colocando-nos a pensar e a apreciar ainda mais a experiência.

E essa introdução se faz necessária, pois não consigo falar de Que Horas Ela Volta?, novo longa da premiada diretora Anna Muylaert (de É Proibido Fumar e Durval Discos), sem pensar que o filme é uma brisa de ar refrescante na atual leva de comédias nacionais que lotam os cinemas e, quase sempre não nos dizem nada. Falando para um grande público, o longa causa empatia, arranca risadas e nos faz refletir, um feito e tanto para uma obra de ficção que, para a maioria das pessoas, é apenas entretenimento barato.


Estrelado por uma inspirada Regina Casé, a trama de Que Horas Ela Volta? é quase pueril. Acompanhamos no longa o dia a dia de Val, uma empregada doméstica pernambucana que largou a filha Jéssica ainda criança na cidade natal para ganhar a vida em São Paulo e nunca voltou para buscá-la. Na capital paulista, agregou-se à família de Bárbara e Carlos, que a tratam como "praticamente" da família, já que ela é também uma segunda mãe (e esse é o nome do filme em inglês, The Second Mother) para Fabinho, o filho do casal. Quando, de uma hora para outra, Jéssica vem para São Paulo para tentar o vestibular, a tensão está criada e alguns comportamentos serão evidenciados e questionados pela história do filme.

Com um elenco incrível, Regina Casé se sobressai, mas não brilha sozinha. A jovem revelação Camila Márdila, que vive Jéssica, ilumina a tela com sua presença, já que a personagem consegue ser questionadora até mesmo em silêncio. Além disso, dando vida à família que emprega Val, temos os excelentes atores Michel Joelsas (que cresceu bem desde que protagonizou O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias), vivendo Fabinho; Lourenço Mutarelli, como Carlos, o pai; e Karine Teles, que dá vida à arrogante Bárbara, a patroa de Val. 

E é a dinâmica do relacionamento de Val com essa família que dá tônica à história. Mesmo sendo "de casa", Val sabe (inclusive porque dona Bárbara faz questão que ela entenda) que lugar de empregada é da cozinha pra dentro. Mas Jéssica, que saiu de Pernambuco para tentar um vestibular em São Paulo e é realmente preparada para isso, pontua muito bem a divisão social em que a mãe vive, em uma crítica social muito bem orquestrada pela diretora Anna Muylaert.



Se existe uma palavra que pode muito bem resumir as sensações causadas por Que Horas Ela Volta?, essa palavra é incômodo. Durante boa parte da projeção eu não sabia se estava gostando do que estava assistindo, exatamente pela forma com que a crítica social foi feita. Somos obrigados a confrontar nossos próprios preconceitos e eu me vi, involuntariamente, pensando nas diversas Vals e Bárbaras que conheço por aí. 

Engraçado, comovente e, acima de tudo, questionador, Que Horas Ela Volta? é um filmaço, daqueles que você não deveria perder. Internacionalmente o filme vem fazendo bastante sucesso de crítica e público (está sendo exibido, atualmente, em 280 cinemas ao redor do mundo, o que é um número excepcional para um filme brasileiro), colecionando vitórias como as do Festival de Berlim (melhor filme pelo público na mostra Panorama), em Sundance (prêmio de melhor atriz dado em conjunto para Regina Casé e Camila Márdilla) e no Festival de Amsterdam (melhor filme pelos espectadores). Além disso, é dado como certo a sua escolha como representante brasileiro na disputa pela vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2016 e, dizem por aí, Regina Casé é apontada como uma grande possibilidade nas indicações de Melhor Atriz para o prêmio, sendo inclusive a aposta de diversas publicações especializadas em cinema. Legal, né?

Assim, aproveite que Que Horas Ela Volta? está em exibição em diversas salas Brasil afora e conheça a vida de Val e de seus patrões. Difícil será sair impune depois de ser confrontado com uma realidade tantas vezes mascarada e vendida como natural por todos nós...

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Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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