25 de set de 2015

Dois Garotos Se Beijando, de David Levithan




“Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais. Seu mundo. O mundo que deixamos. O mundo que deixamos para vocês. Está é o poder de um beijo: ele não tem o poder de matar você; mas tem o poder de trazer você à vida.”
Lembro perfeitamente da minha reação ao acabar a leitura de Todo Dia, primeiro livro que li de David Levithan. Eu sabia que tinha lido algo maravilhoso, escrito por um autor sensível e que se apresentava para mim com as melhores credenciais possíveis. O enredo do livro ficou em minha mente e eu só queria saber mais e ler tudo que pudesse de seu autor. Assim, aos poucos, fui lendo o que já estava disponível no Brasil sobre David Leviathan. 

Logo depois de Todo Dia, conferi a parceria do autor com John Green e fiquei ainda mais impressionado com o talento de seus autores. Will & Will é um livro saboroso, escrito a oito mãos, e que me permitiu ficar cogitando qual capítulo tinha sido escrito por qual escritor. 

Em seguida, me apaixonei pela história de Garoto Encontra Garoto, que possui uma trama que se passa em uma escola surreal (para os nossos padrões), mas que possui personagens tão carismáticos e reais que você se vê querendo conhecê-los, tê-los como amigos, fazer parte de suas vidas. 

Tempos depois, outra parceria de David Levithan, agora com a autora Andrea Cremer, me encantou. Invisível tem uma trama envolvente, ligada ao sobrenatural, mas que passa longe do besteirol comum em livros do tipo, e que te fazem embarcar e acreditar na realidade proposta por seus autores. 

Assim, ao começar a ler Dois Garotos Se Beijando, mais recente trabalho solo de David Levithan lançado no Brasil, minhas expectativas eram as mais altas possíveis. E, depois de todas as suas páginas e diversos momentos em que tive de parar a leitura para secar as lágrimas de meu rosto, posso afirmar sem sombra de dúvidas: David Levithan é meu autor preferido no momento. 

Construindo sua trama de maneira intrincada, em Dois Garotos se Beijando somos guiados pelas páginas do livro por um narrador que já não vive. Pelo que dá pra entender, é alguém que perdeu sua vida tempos atrás porque era gay, vítima de complicações decorrentes do vírus HIV. É sobre o olhar desse narrador onisciente que acompanhamos detalhes da vida de um grupo diferente de pessoas, mas todos com uma singularidade: são gays. 

Neil e Peter são um casal de namorados adolescentes de 15 anos. Tariq Johnson é um jovem gay e negro, no fim da adolescência. Cooper Riggs é outro jovem gay de 17 anos, no armário, que se sente inadequado e que vive um sério problema de aceitação (de sua parte e dos demais). Ryan é um jovem gay de cabelo azul que conhece Avery, um jovem trans, de cabelo rosa em uma festa. E, por fim, temos Craig e Harry, dois jovens ex-namorados que decidem quebrar um record como forma de ato político: querem passar 32 horas, 12 minutos e 10 segundos se beijando, para protestar contra um ataque que Tariq sofreu tempos atrás. 

E é durante essas mais de 32 horas que acompanhamos a vida desses oito jovens distintos, mas que podem ter bem mais em comum do que imaginam. Enquanto Craig e Harry se beijam - e vivem as consequências desse ato transmitido ao vivo, inicialmente, pela internet -, vamos mergulhando na história de cada um dos personagens, ao mesmo tempo em que dividimos as memórias da voz narrativa do livro, alguém que viveu, amou e morreu sendo gay. 

David Levithan, mais um vez, se supera e constrói um livro poderoso. Ele fala com os leitores tocando nossos corações, arrancando lágrimas e nos fazendo sorrir, plantando em nós a sementinha do compartilhamento, já que nos faz querer que outras pessoas também conheçam esse livro, essas histórias e que, ao lerem, nos vejam em alguns dos personagens.

Por isso, seja você gay ou hetero, acho que a leitura de Levithan vai te emocionar. Porque ele escreve sobre seres humanos, com desejos, anseios, medos e, acima de tudo, escreve sobre o nosso tempo, sobre as nossas angústias, sobre vidas que poderiam ser a sua, a minha, a de todos nós.

O beijo dos dois garotos do livro tem um papel político na história, mas esconde desejos pessoais e particulares de cada um deles também. Já Dois Garotos Se Beijando, o livro em si, é um verdadeiro acorda para muita gente nessa sociedade hipócrita e mesquinha que estamos nos tornando. E, sabemos, um chega pra lá muitas vezes é mais do que importante.

Permita-se conhecer David Levithan e sua obra. E saiba, se você vier a conhecê-lo devido a uma de minhas resenhas, você vai voltar aqui e e agradecer. E eu ja antecipo: não há o que agradecer, o que é bom é realmente para ser compartilhado! ;-)

Autor: David Levithan
Páginas: 224
Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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