19 de nov de 2015

Melancolia (ou Sobre o Desespero da Vida Humana)





Melancolia (Melancholia, no original, de 2011), filme de Lars Von Trier, é segmentado em dois atos, que receberam o nome de Justine e Claire, irmãs respectivamente vividas por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, com um pequeno prelúdio de oito minutos, onde assistimos belíssimas cenas quase estáticas ao som de Tristão e Isolda, de Wagner.

No primeiro ato, Justine, acompanhamos uma festa de casamento, onde não é preciso muito esforço para perceber que a noiva está no inicio de uma crise depressiva. Durante a festa, acompanhamos as ótimas atuações de John Hurt, como o pai divertido e ausente, de Charlotte Rampling, como a mãe que sempre tenta expor sua visão pessimista e triste sobre a vida, de Stellan Skarsgard, ator sempre presente nos filmes de Lars, como o chefe mesquinho e egoísta, e Kiefer Sutherland, como o rico cunhado que custeou o casamento.

No segundo ato, Claire, o foco se encontra na irmã de Justine, uma pessoa organizada, controlada e presa a horários, o oposto de sua irmã. Podemos observar mais claramente o contraponto destas duas irmãs, ao decorrer do avanço da depressão de Justine que, no ápice de sua crise, se mantém impassível diante da destruição da Terra, o que é bastante comum em pessoas depressivas frente à situações extremas. Por outro lado, Claire, presa a pequenas âncoras de sua vida e pequenos pontos de controle, acaba por perder seu chão, ao ponto de querer organizar um pequeno ritual, bebendo vinho com a sua irmã poucas horas antes da destruição do mundo. Atitude repreendida prontamente por Justine. Afinal, o que significaria um pequeno ritual diante da iminente destruição do planeta?

Durante este segundo ato, somos convidados a conhecer de maneira mais aprofundada Melancolia, um planeta que estava oculto do outro lado do sol, mas que cruzará a órbita da Terra, ocasionando assim a total destruição da raça humana. Existe uma metáfora carregada brilhantemente no nome deste filme. Lars Von Trier demonstra de maneira belíssima o peso da depressão decaindo sobre alguém em um momento de crise, através da aproximação de um planeta. A própria aproximação gravitacional do planeta Melancolia faz com que parte do ar da atmosfera da Terra seja absorvido, o que torna a respiração uma tarefa difícil. Além disso, existe o fato do Melancolia estar distante, e em seguida próximo, quando não era mais esperado. Assim também ocorre com a depressão (ou ansiedade), em alguns momentos distante, em outros tão próximo que absorve a respiração das pessoas. Não tratarei sobre o assunto depressão agora. Deixarei para falar em um próximo momento, ao abordar outro filme que tenho em mente.

Existe, também, uma profunda critica ao egoísmo. Esta pode ser vista durante a primeira parte do filme, onde os personagens do pai, mãe, chefe, cunhado, novo empregado da agência de publicidade e o organizador da festa de casamento estão mais preocupados em demonstrar suas opiniões duras sobre a vida, aparecer para os demais convidados, reclamar sobre o dinheiro investido no casamento ou fazer valer a sua vontade acima de qualquer tipo de fraqueza que a personagem Justine esteja demonstrando. Podemos acompanhar a saga de seu chefe apostando com o seu subordinado que ele conseguiria um novíssimo texto para uma campanha de publicidade, mesmo que para isso fosse preciso colocar alguém para perseguir Justine durante toda a festa de casamento. Durante a segunda parte, vemos o egoísmo demonstrado pelo personagem de seu cunhado (Kiefer Sutherland). Porém, com relação a este último, podemos abrir o benefício da dúvida entre os sentimentos fraqueza/medo/lucidez ou até mesmo egoísmo. A única certeza que podemos ter é que Jack Bauer não faria o mesmo.


É sobre este profundo egoísmo humano que eu gostaria de tratar aqui: aquele que demonstramos diariamente, mesmo diante das situações mais tristes e desesperadoras. Em Melancolia existe toda uma carga pessimista que Lars Von Trier tenta transmitir em relação à nossa existência, conforme pode-se ver no diálogo abaixo entre Claire e Justine:

- A Terra é maligna... Não precisamos sofrer por ela.
- Como?
- Ninguém vai sentir falta.
- Mas onde é que meu filho vai crescer?
- Tudo que eu sei é que a vida na Terra é perversa.
- Deve existir vida em outro lugar.
- Não existe.

Como esse dialogo, Lars nos diz: não somos o centro do universo, como muitas religiões insistem em pregar. Comparada à história da humanidade ou do próprio cosmos, nossa existência é pequena e vã.

Existem algumas temáticas, carregadas de pessimismo, sempre presentes nos filmes de Lars Von Trier. Dentre elas, o egoísmo e a banalização da vida. Seu pessimismo com relação ao ser humano nos indica que o diretor não possui nenhuma esperança em nossa raça, e que alguns de nossos erros e atitudes mais cruéis são inerentes a nossa própria existência, logo, impossíveis de serem contornados. Essa crítica fica mais evidente em Dogville, um filme que não mostra piedade em criticar desde os intelectuais, em suas intocáveis teses, protegidos pelos muros de suas faculdades e sem a mínima vontade de “misturar a academia e o mundo”, até as relações de trabalho e a maneira como as mulheres ainda são subjugadas sexualmente à opiniões e atitudes machistas.

Em Melancolia, somos convidados a observar a possível destruição de nosso planeta ocasionada por um fenômeno externo, como um plano de fundo menos preocupante, pois a situação já está à beira de um cataclisma interno. Guerras, preconceitos e opressão sempre existiram, em diferentes formas e com diferentes resultados. A diferença para nossa época é a maneira como nos posicionamos diante de cada acontecimento ruim.

Com o advento das mídias sociais, é interessante notar que o ser humano sente a necessidade de mostrar ao mundo suas opiniões mais perversas sobre os piores acontecimentos da humanidade. Como se a proteção de um registro online o mantivesse seguro de qualquer contra ataque físico.

O que muito incomoda não é o fato de que as pessoas demonstrem suas opiniões, mas o fato de que, sendo especialistas em nada, precisem demonstrar opiniões extremamente agressivas sobre qualquer assunto. Sejam tragédias na Europa, Oriente médio, África, Brasil, comunidades carentes e etc. Na pior das hipóteses, quando as pessoas não buscam se informar de maneira correta sobre algo, elas ainda oprimem aquelas que trazem informações concretas à tona.

Como exemplo, poderia citar aqui diversos embates, mas me manterei no desastre da semana: lado Paris versus lado Mariana. Ao invés de incorrer sobre a história de cada uma de suas tragédias, onde de um lado vemos influências históricas e econômicas, e de outro um total descaso privado/estatal/midiático, as pessoas tem a mesma atitude sistemática e usual: digladiar seu egoísmo umas contra as outras em um eterno duelo de opiniões vazias que nada significam a ninguém. Discussões como as que sempre presenciamos só afastam nossa mentalidade dos verdadeiros problemas e, consequentemente, de encontrar soluções mais humanas e reais para qualquer tipo de discussão. No pior dos casos, desconsideramos o egoísmo e a banalização da vida em nós mesmos, o que é muito pior.

É necessário mostrar tanto ódio? É necessário sobrepor opiniões vazias acima de outras opiniões vazias para vencer discussões sem sentido? Indo além, é necessário ser tão agressivo ou egoísta diariamente, sabendo que o destino de nossas vidas é totalmente imprevisível?

Em Melancolia, sob uma ótica sem esperanças, somos convidados a nos observar e a observar o grande desamparo da vida humana: frágil, pequena e imprevisível. Além disso, que diante de cruéis situações que a vida nos impõe, ao final só temos uns aos outros e, por esta razão, devemos parar de sermos egoístas e banais.

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Serginho Tavares  
Leandro Gomes tentará explicar, através dos filmes que tem assistido, a sua visão sobre a vida, sociedade e os mais diversos tipos de assuntos complexos e polêmicos.
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