10 de nov de 2015

Rocky Horror Picture Show (ou Sobre Preconceito e Conservadorismo)




Muito mais do que a uma mega produção, com efeitos especiais maravilhosos, eu gosto de assistir a filmes que me fazem refletir sobre o que vivo ou está sendo discutido pela sociedade. Na maioria das vezes, estes são filmes dramáticos com roteiros que, além de não entregarem o final no momento errado, são construídos de maneira simples, sem furos e com passagens silenciosas. Com ênfase nas passagens silenciosas. O silêncio é algo que eu prezo muito em todo tipo de mídia que eu consumo. Acredito que muitas coisas podem ser ditas em atuações e gestos silenciosos. Nossas vidas muitas vezes são explicadas através de silêncios. Nossos silêncios.

Não se engane ao pensar que irei falar sobre um filme com uma imensa carga dramática, daqueles que contestam de Jesus ao movimento dos conglomerados galáticos, com falas que saem da tela e te rasgam no meio. Não falarei sobre um filme dramático, tampouco silencioso. Muito pelo contrário, falarei aqui, em minha primeira coluna para o PdB, sobre um filme cult, B, musical e contestador: Rocky Horror Picture Show.

Se este filme não tem caraterísticas que tanto prezo, por que falar sobre ele? Por que escrever sobre este filme, já que existem filmes mais contestadores? A resposta é muito simples. Durante o filme, pensamentos como estes não saiam da minha cabeça: 
  • 70% das pessoas não conseguiriam assistir a este filme sem deixar o seu preconceito se transformar em discurso.
  • É um filme de 1975, e ainda hoje as pessoas estão discutindo sexualidade e conservadorismo. Será que daqui a 40 anos ainda vamos estar discutindo os mesmos tópicos do passado?
Os dois pontos acima não saíram da minha cabeça durante uns dias, até mesmo porque as pessoas não param de mostrar diariamente umas às outras o quanto são preconceituosas e cruéis. Elas gostam de lembrar, até mesmo para as pessoas que mais amam, que o lado negro do ser humano está ali. Por vezes dormindo, mas está ali.

Para que você possa entender melhor o que eu quero dizer, assista a cena abaixo, que é uma das melhores do filme. Não se preocupe, não vou revelar nada a mais do que se é necessário saber.


“I'm just a sweet transvestite, from transexual Transylvania!” - Frank-N-Furter
Essa é a frase que mais carrega em si toda a síntese da loucura que é Rocky Horror Picture Show. Acho que, agora, está claro o porquê de o filme ter me feito pensar tanto sobre preconceito.

Na cena, temos dois jovens virginais, interpretados brilhantemente por Susan Sarandon e Barry Bostwick, confrontados com um ambiente totalmente dípar da classe média americana dos anos 70. Acho que o fato deles serem deixados seminus ao final da cena já diz muita coisa. Algo como “vocês não estão mais em um ambiente seguro agora”. Durante o filme, os dois jovens vão deixando aquilo que é medo e afastamento se transformar em desejo e insanidade. Incrível ver a Susan Sarandon, a personificação do recato no filme, se transformar em alguém que canta Touch touch touch touch me, I wanna be dirty de maneira estridente.

Não acredito que filme seja para todos, apesar de ser um bom musical. Simplesmente porque, também, acredito que as pessoas não se dão ao trabalho de pensar mais de uma vez sobre suas opiniões conservadoras. Uma pena, pois estas opiniões impendem que tenhamos visões mais abstratas sobre arte e existência.

Em Helena, de Machado de Assis, há um trecho bastante conhecido, que fala sobre medo e preconceito:
“O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a idade de dez anos era incapaz de penetrar numa sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possível que uma pessoa morta voltasse à Terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma coisa. Lavei o meu espírito de semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite, num cemitério... E daí talvez não: os corpos que ali dormem têm direito de não ouvir mais um só rumor de vida.”
Esta é uma analogia bastante simples e de fácil entendimento, mas que eu gosto bastante. Ela retrata, e muito, o que eu penso atualmente sobre “opiniões formadas e conservadoras”. Muitas vezes me pego escutando o que as pessoas discursam (sinto que se expressar de maneira simples está fora de moda, as pessoas querem é discursar) e me pergunto se essas pessoas se deram ao trabalho de pensar ao menos duas vezes sobre este ou aquele assunto cujo qual elas tem tanta certeza.

Acho que o fato de estar ficando mais velho está me fazendo repensar antigas opiniões, com o objetivo de eliminar velhos hábitos e preconceitos. Principalmente preconceitos. Se você está no mínimo tentando fazer o mesmo, acredite, eu sei que é um trabalho quase impossível. Tentar entender os conflitos intelectuais entre os homens e entre os humanos e sociedade é de deixar qualquer um louco. Principalmente porque não existe um gameplay para o grande jogo que é viver no Youtube, onde podemos assistir um tutorial bem explicado indicando os melhores shortcuts, locais com monstros, possíveis amigos, tesouros escondidos e, o melhor de tudo, o que devemos pensar. Além disso, estamos recebendo cargas e cargas de opiniões diárias, de diferentes pessoas, de diferentes meios, que nos impedem de chegar a uma conclusão mais aprofundada sobre qualquer coisa. Acabamos sendo conduzidos, e somente anos mais tarde, com a experiência, chegamos a uma conclusão mais ou menos satisfatória. Às vezes, só alcançamos o mais ou menos.

É preciso abrir a cabeça e pensar mais de uma vez sobre muitos assuntos. Principalmente os assuntos mais polêmicos e conservadores.

Para além de toda essa discussão, existem quatro coisas que você precisa saber sobre este filme.
  1. Cultuado. Imensamente cultuado. Essa é a primeira.
  2. É um musical de baixo orçamento. Um filme B, como eu disse acima. Você vai assistir e as músicas vão ficar na sua cabeça. Não volte para reclamar dizendo que não avisei. Essa é a segunda.
  3. O filme é caracterizado por ser uma grande sátira/homenagem a filmes sci-fi e obras clássicas do terror, presentes no cinema americano entre as décadas de 30 e 70. Dentre algumas referências podemos citar O Gabinete do Dr. Calligari, Drácula, Flash Gordon, Frankstein, De volta ao Vale das Bonecas e O Mensageiro do Diabo. Acredite, ainda existem muitos outros filmes apontados em Rocky Horror Picture Show. Essa é a terceira.
  4. E a quarta, porém não menos importante, é que o próprio roteiro do filme se apresenta como uma grande colcha de clichês costurados, com leves insinuações sexuais e críticas à sociedade.
Brad Majors e Janet Weiss, dois jovens apaixonados que ficam noivos logo na primeira cena, decidem visitar o Dr. Everett Scott, seu professor de ciências dos tempos da faculdade, para agradecê-lo por tê-los apresentado e convidá-lo para o casamento. Durante a viagem, em uma noite chuvosa para a cidade de Denton, no interior dos Estados Unidos, onde o Dr. Scott mora, o pneu do carro de Brad e Janet fura e eles acabam pedindo ajuda em um castelo a alguns quilômetros dali. No castelo, o casal acaba dando de cara com criaturas inimagináveis. Inicialmente, parece roteiro do Scooby Doo. Parece, só parece.


O grande astro do filme é o anfitrião do castelo, Dr. Frank N-Furter, que é um travesti bissexual da Transilvânia Transsexual, cujo maior objetivo é criar Rocky Horror, um homem loiro, musculoso e sem cérebro, desenvolvido com tecnologia alienígena para suprir suas tensões sexuais. Papel mais proeminente da carreira de Tim Curry, aquele ator que sempre confundem com o Raúl Juliá. Vamos parar de confundir, Raúl Juliá é Raúl Juliá, Tim Curry é Tim Curry.

Aconselho que você assista ao filme de peito aberto, caso seja uma pessoa de opiniões conservadoras ou preconceitos. Se divirta. Julgamentos e modelos de pensamento levam anos para se transformarem em algo substancialmente diferente. Tanto para o bem como para o mal. Talvez esse seja o momento de começar a criar opiniões mais livres, humanas e sinceras.

Citando ainda Helena, através das frases que seguem a citação anterior:

- Quem lhe ensinou essas idéias? - perguntou ele.
- Não são idéias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração.

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Serginho Tavares  
Leandro Gomes tentará explicar, através dos filmes que tem assistido, a sua visão sobre a vida, sociedade e os mais diversos tipos de assuntos complexos e polêmicos.
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