28 de dez de 2015

Olhos da Justiça, de Billy Ray




Em 2010, a Argentina levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pelo longa O Segredo dos Seus Olhos (no original, El Secreto de Sus Ojos), do diretor Juan José Campanella. Prêmio merecidíssimo por sinal, pois a película de 2009 é mesmo um filmaço.

Tanto é verdade, que Hollywood resolveu botar o dedinho nessa história e fazer sua própria versão do longa, produzindo um remake super comercial intitulado Olhos da Justiça (no original, Secret in Their Eyes sai toda a poesia do título argentino e entra o clichê hollywoodiano). Mas, apesar do título pouco original em português e de algumas mudanças pontuais no roteiro, até que gostei do filme, pois o plot é tão bom, que fica difícil estragá-lo por completo e, felizmente, o diretor Billy Ray conseguiu manter certa fidelidade à obra argentina.

Não gosto de versões americanas para excelentes filmes estrangeiros, que sempre serão únicos e inigualáveis, mas quando soube que Julia Roberts e Nicole Kidman estariam juntas neste remake, fiquei bem empolgado e, ao mesmo tempo, com medo de que elas não conseguissem passar o encantamento do filme argentino. Realmente, o tal encantamento perdeu-se nesta versão, mas não por culpa delas, e sim, porque apesar de ser uma história de suspense, forte, dramática e com pano de fundo policial, O Segredo dos Seus Olhos tem a poesia natural que qualquer filme argentino possui, e que Hollywood, em contrapartida, eliminou, fazendo o que sabe muito bem, transformando Olhos da Justiça em apenas um bom drama policial.

Ray (Chiwetel Ejiofor), Claire (Nicole Kidman) e Jess (Julia Roberts) são investigadores do FBI e tem suas vidas severamente abaladas quando, no ano de 2002, Carolyn (Zoe Graham), a filha única de Jess, é brutalmente assassinada. Vendo a grande amiga em desespero pela perda da filha e disposto a tudo para fazer justiça e prender o verdadeiro assassino, Ray transforma seu objetivo em obsessão, mas vê o assassino escapar-lhe entre os dedos, quando percebe que devido a um acordo com o mais alto escalão da polícia, o criminoso está protegido, para que possa deletar possíveis terroristas, em tempos recentes pós 11 de setembro.

Frustrado e inconformado, Ray afasta-se da polícia, da amiga Jess e da amada Claire, colega com a qual nunca viveu de fato sua paixão, pois ela era noiva quando se conheceram. Passam-se 13 anos, e Ray continua obcecado em pôr o assassino, que desapareceu misteriosamente, atrás das grades. Numa de suas procuras pela internet, o policial depara-se novamente com o suposto bandido, e volta a procurar Jess e Claire, que agora é a chefe da polícia, pedindo-lhe que reabra o caso.

O filme transcorre então, entre 2002 e 2015 com flashes dos acontecimentos seguidos logo após o crime e as cenas de busca pelo assassino, Marzin (Joe Cole), nos dias atuais. Com desfecho surpreendente (pra quem não viu a versão original), o mais legal é ver que o diretor manteve a fidelidade de cenas cruciais para o ótimo andamento da trama, embora tenha mexido em alguns elementos que tornaram O Segredo dos Seus Olhos uma joia. Como por exemplo: a paixão entre Ray e Claire, que era algo muito mais profundo quando encarnada por Ricardo Darín (Espósito) e Soledad Villamil (Irene), virou algo quase que insignificante. A escolha do protagonista também trouxe uma mudança perceptível, e num primeiro momento não entendi o porque da escalação de um ator negro, mas depois achei bem interessante, afinal, é apenas um ator e ponto, o papel não pede um estereótipo físico específico, e a escolha de Chiwetel Ejiofor me soou bem natural, ainda assim, o personagem pedia um ator com mais borogodó. Chiwetel não tem o charme de Darín, e não conseguiu passar toda a força que o protagonista tem. Uma boa pedida seria Denzel Washington, charmoso, com uma força interpretativa intensa e expert em interpretar policiais e justiceiros.

Outras duas mudanças, uma incômoda e outra interessante: numa das cenas principais, creio que a mais importante pra trama, o criminoso da versão argentina mostra o pênis para a investigadora Irene, em um close frontal rápido, porém chocante, e que dá toda a veracidade à sequência. Na versão americana, a cena transcorre com a mesma tensão, mas há um corte no momento em que Marzin exibe o pênis para Claire. Hipocrisia hollywoodiana detectada, tirou metade do charme da cena. Já a mudança interessante, foi o destaque dado a personagem Jess, de Julia Roberts. Na versão original, a personagem é um homem, Pablo, que tem a esposa assassinada e, apesar de ser peça chave para o desfecho da trama, sua participação resume-se à poucas cenas. Dessa forma Olhos da Justiça deixa a participação de Nicole Kidman um pouco apagada em detrimento à Julia Roberts, que está sublime no papel.

Minha dica: assistam Olhos da Justiça, é bom, mas vejam antes O Segredo dos Seus Olhos, é magnífico!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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